De Peabiru ao Alasca: Motociclista paranaense cruza 20 países e roda mais de 100 mil quilômetros

Redação Rádio Plug
10 min. de leitura
Depois de mais de 100 mil quilômetros percorrid...

O que inicialmente seria apenas uma viagem de férias com duração de um mês rumo ao litoral paulista acabou se transformando em uma jornada épica de proporções continentais. Natural de Peabiru, município localizado na região Noroeste do Paraná com cerca de 13,3 mil habitantes, Roger Sabins, de 27 anos, deixou sua terra natal em 2021 com um objetivo simples: conhecer o mar. Cinco anos mais tarde, o jovem alcançou o Alasca após atravessar 20 países e acumular mais de 100 mil quilômetros rodados sobre duas rodas.

A empreitada levou o motociclista por praticamente toda a extensão da América do Sul, América Central e América do Norte. Ao longo do percurso, ele enfrentou rotas consideradas altamente perigosas, dormiu em acampamentos improvisados, acumulou vivências marcantes e ainda encontrou o amor.

O ponto de partida inicial foi a cidade de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. A intenção era aproveitar a praia por aproximadamente trinta dias e, em seguida, retornar ao interior paranaense. No entanto, poucos dias na estrada foram suficientes para alterar completamente os planos de vida do jovem.

Incomodado com a rotina estática do trabalho remoto como designer gráfico, Roger optou por estender o trajeto. Na época, ele pilotava uma Honda Sahara 300 e acumulava pouca experiência em deslocamentos de longa distância. O trecho inaugural entre Londrina e Ubatuba teve cerca de 850 quilômetros.

“Eu nunca tinha pegado a moto direito para viajar. Tinha rodado só pelo Paraná. Nunca tinha feito uma distância tão longa, não conhecia São Paulo e passei pela capital pela primeira vez. Foi uma loucura. Aprendi tudo na marra”, relembra o viajante.

Após explorar o litoral paulista, ele decidiu desbravar outros estados brasileiros de motocicleta, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba. Ao concluir o roteiro costeiro nacional, tomou a decisão de continuar rumo ao exterior.

Mudança drástica de rota na América do Sul

Para prosseguir, Roger embarcou com sua motocicleta em Belém, no Pará, com destino a Manaus, no Amazonas, em uma travessia fluvial de sete dias pelo Rio Amazonas. Da capital amazonense, seguiu por terra até alcançar a divisa com a Venezuela.

A meta inicial era apenas registrar o momento com uma fotografia na fronteira e retornar ao Brasil. Contudo, assim que cruzou a linha divisória, os planos mudaram mais uma vez. A parada rápida transformou-se em uma estadia de quatro meses no país vizinho, seguida pela entrada na Colômbia. Antes mesmo de ingressar em território colombiano, uma nova reflexão redefiniu o rumo da expedição.

“Eu pensei: por que não? Já cheguei ao norte da América do Sul. Por que não ir até o extremo sul?”, recorda.

Foi a partir desse pensamento que o paranaense atravessou a Colômbia, o Equador, o Peru, a Bolivia, o Chile e a Argentina até atingir Ushuaia, na região da Terra do Fogo.

Nos primeiros meses da viagem, o ritmo era intenso, com marcas de até 950 quilômetros percorridos em um único dia e cerca de 15 horas consecutivas de pilotagem. Com o passar do tempo, no entanto, a prioridade deixou de ser a velocidade e a distância percorrida.

Atualmente, o motociclista limita os deslocamentos diários a aproximadamente 500 quilômetros, permitindo maior tempo para absorver a cultura local, apreciar as paisagens e interagir com os moradores de cada região visitada.

Encontro inesperado e parceria na estrada

A virada definitiva na dinâmica da viagem aconteceu durante uma parada para trabalho voluntário em Alter do Chão, no Pará, onde Roger conheceu a bióloga Barbielly Bispo, então com 26 anos.

Formada recentemente, ela viajava pelo país para estudar diferentes biomas antes de definir sua especialização profissional. O que começou como uma amizade logo evoluiu. Como Roger já planejava subir em direção ao Alasca, ele fez um convite considerado improvável na época.

“Chamei ela para viajar apenas pela Venezuela. A ideia era passarmos três meses juntos. Depois eu subiria para a América Central e ela voltaria para a América do Sul.”

Mais uma vez, o roteiro planejado foi superado pelos acontecimentos. Antes de encontrar o motociclista, Barbielly utilizava o programa governamental ID Jovem para se deslocar como mochileira pelo Brasil.

“Pensei: será que vou mudar todos os meus planos? Viajar com uma pessoa que acabei de conhecer? Mas sempre escutei meu coração. Ele dizia para ir. Subi na garupa e fui para a Venezuela. A gente nunca discordava sobre as aventuras, sobre descansar, fazer trilhas, conhecer cachoeiras. Continuou fazendo sentido porque eu também amo a natureza”, relata a bióloga.

d8241eeb-67ae-41bd-a150-82aeb60fd1b3(Foto: Arquivo Pessoal)

Desafios físicos, acampamentos e imprevistos

Manter uma expedição de longa duração sobre duas rodas exige forte preparo físico. O casal relata episódios recorrentes de dores nas costas, pernas e articulações, além do desgaste provocado pelo uso prolongado dos capacetes.

A infraestrutura de hospedagem varia bastante ao longo dos trajetos. As noites são alternadas entre barracas montadas ao ar livre e abrigos cedidos por moradores locais que acolhem os viajantes voluntariamente.

Segundo os dois, o descanso adequado é fundamental para a recuperação corporal, embora nem sempre seja viável em meio às intempéries da estrada.

ef407d36-fc7a-4cf3-b651-c48cbf7375acCasal divide as noites entre barracas e hospedagens voluntárias (Foto: Roger Sabins/Arquivo Pessoal)

Os contratempos também testam a resiliência da dupla. No México, Barbielly precisou ser hospitalizada por dois dias em decorrência de um quadro severo de desidratação. O problema surgiu após a travessia da Guatemala: depois de enfrentarem baixas temperaturas em áreas montanhosas, eles permaneceram cerca de quatro horas sob forte calor em uma região de fronteira.

Apesar do susto, ambos concordam que o obstáculo mais complexo ocorreu meses mais tarde.

A travessia marítima pela Selva de Darién

Em julho de 2025, Roger e Barbielly encararam o trecho mais árduo da expedição ao contornar a Selva de Darién, zona fronteiriça entre a Colômbia e o Panamá reconhecida mundialmente pela alta periculosidade e pelo fluxo intenso de migrantes.

Como não há vias terrestres interligando os dois países, a solução encontrada foi embarcar em um cargueiro de madeira. Foram 24 dias até concluir o percurso, sendo 14 deles passados inteiramente em alto-mar.

“Era um barco de carga, sem coletes salva-vidas, sem assentos e sem lugar para dormir. Dormíamos em redes. Durante o dia ficávamos sentados sobre caixas de mercadorias. A estrutura era totalmente voltada para carga, não para passageiros”, detalha Barbielly.

Após a viagem pelo mar, o casal ainda teve de aguardar dez dias em uma ilha isolada antes de prosseguir. Para Roger, essa foi a etapa em que perderam o controle total sobre a logística da viagem.

“Tudo dependia do capitão. Se ele decidisse demorar dois ou três meses, não havia o que fazer. Inclusive, no começo daquele mesmo ano, esse capitão havia perdido um barco com motos e cargas durante uma tempestade.”

Aprendizados e novos horizontes na Europa

Mesmo diante de todas as adversidades enfrentadas pelo caminho, os viajantes afirmam que a ideia de desistir jamais foi cogitada. Para Barbielly, a experiência funcionou como um catalisador de maturidade e aprendizado prático.

“A viagem é um acelerador de conhecimento. Aprendi idiomas, aprendi sobre culturas, desenvolvi resistência e resiliência. Hoje valorizo coisas simples, como um banho quente, uma cama ou uma refeição. Muita gente diz que estamos perdendo tempo viajando, mas sinto exatamente o contrário”, pontua a bióloga.

Roger reforça o mesmo ponto de vista sobre a jornada.

“Viajar foi um acelerador da vida. É realmente uma faculdade. Você aprende a resolver problemas, desenvolve paciência e cresce com cada dificuldade. Foi, sem dúvida, a melhor escolha que fiz na minha vida.”

Com a chegada bem-sucedida ao Alasca, a dupla já direciona o foco para o próximo desafio: explorar o continente europeu utilizando o mesmo veículo.

Para viabilizar a nova etapa, eles precisam arcar com o transporte da motocicleta até a Europa, estimado em cerca de US$ 2.500 (aproximadamente R$ 12.750). Enquanto mantêm suas atividades profissionais remotas e trabalhos temporários na estrada, os dois organizam uma campanha de arrecadação online.

A iniciativa conta com uma rifa beneficente que premiará os participantes com uma motocicleta ano 2008, a quantia de R$ 10 mil em dinheiro ou bilhetes secundários de R$ 250. Os interessados podem obter mais informações clicando aqui.

Fonte:: bemparana.com.br

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