O impacto da longevidade na economia e nos hábitos de consumo atuais

Redação Rádio Plug
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Foto: Cléa Klouri, cofundadora do data8 (Divulgação)

O aumento da expectativa de vida costuma vir acompanhado de uma visão ultrapassada que associa o envelhecimento exclusivamente a enfermidades, dependência e fragilidade. Sob essa perspectiva equivocada, as oportunidades comerciais voltadas para a chamada economia da longevidade ficam limitadas a hospitais, farmácias e à fabricação de itens de higiene pessoal específicos. No entanto, a verdadeira transformação demográfica escancara um potencial imenso em diversos outros setores, abrangendo finanças, seguros, habitação, alimentação, estética, ensino, mobilidade, lazer e tecnologia. Embora os cuidados com a saúde mantenham relevância indiscutível, praticamente todas as indústrias precisam passar por uma reformulação profunda para atender a uma população que vive mais e com mais autonomia.

Dados levantados pelo Fórum Econômico Mundial indicam que o século XXI é moldado primordialmente por três grandes eixos: as mudanças climáticas, a expansão da longevidade e a inteligência artificial. Na prática, a nova configuração demográfica mundial, aliada ao desenvolvimento tecnológico e às alterações ambientais, ampliou tanto as necessidades básicas quanto as demandas sociais mais complexas. A chegada da Geração X à maturidade trouxe novos contornos comportamentais para essa parcela da população, frequentemente chamada de público prateado.

Atualmente, observa-se um contingente maior de indivíduos vivendo sozinhos, traçando carreiras profissionais independentes e fazendo escolhas de consumo de maneira individualizada. Por outro lado, desfrutar de uma vida mais longa demanda acesso contínuo a uma infraestrutura coletiva robusta, que inclui saúde pública e privada, mobilidade urbana eficiente, inclusão digital, aprendizado ao longo da vida, serviços financeiros adequados e redes de suporte. Desse modo, a longevidade eleva a infraestrutura social ao status de pilar central da cidadania moderna.

O paradoxo do mercado brasileiro diante do envelhecimento

No Brasil, apesar dos indicadores demográficos apontarem claramente para uma população mais madura, ainda impera uma cultura fortemente enraizada na valorização da juventude. Esse cenário gera um paradoxo evidente: enquanto a participação das pessoas mais velhas cresce de forma acelerada tanto na demografia quanto na economia, diversas empresas ainda encontram barreiras para enxergar esse público em toda a sua amplitude. Os próprios consumidores maduros identificam essa lacuna. Levantamentos recentes mostram que mais de 30% desse grupo relatam dificuldades para encontrar mercadorias e prestações de serviços desenhadas para suas necessidades reais, ao passo que cerca de 40% sentem falta de representatividade nas campanhas publicitárias e na comunicação das marcas.

A economia prateada no país está longe de ser um mero nicho de mercado. Hoje, o setor movimenta cifras estimadas em R$ 1,8 trilhão e tem projeções de alcançar a marca de R$ 3,8 trilhões em menos de vinte anos. Desconsiderar essa metamorfose demográfica significa ignorar uma das mais profundas revoluções estruturais no comportamento do consumidor brasileiro.

O segmento educacional ilustra com clareza essa necessidade de adaptação. Historicamente, a jornada de aprendizado foi estruturada em etapas rígidas: estudar na juventude, trabalhar na fase adulta e descansar na velhice. Contudo, quando a expectativa de vida se estende para 90 ou 100 anos, com múltiplas transições de carreira ao longo da jornada, esse modelo deixa de fazer sentido. O aprendizado deixa de ser restrito a um período específico e passa a integrar toda a existência humana. Essa mesma lógica transformadora aplica-se a praticamente qualquer atividade econômica.

A diversidade do público maduro e os novos arranjos familiares

O aspecto fundamental a ser compreendido é que os indivíduos mais velhos permanecem ativos no mercado de trabalho, consomem ativamente, tomam decisões complexas, sustentam lares e buscam independência. Além disso, formam um grupo extremamente heterogêneo. Não existe um bloco homogêneo rotulado como consumidor com mais de 60 anos, da mesma forma que não há um perfil único de comprador aos 30 ou 40 anos. Diferenças de renda, gênero, região geográfica, grau de instrução, familiaridade com a tecnologia, estilo de vida e condições de saúde dão origem a inúmeras maneiras de envelhecer.

A própria dinâmica familiar introduz uma nova camada de complexidade com a chamada Geração Sanduíche. Trata-se de adultos que acumulam a responsabilidade de cuidar simultaneamente dos genitores, dos filhos, dos netos e de si próprios, assumindo o papel de superconsumidores. Eles compram para múltiplos núcleos geracionais dentro de uma mesma família. É exatamente nesse ponto que residem tanto o maior desafio quanto a principal oportunidade para as organizações: abandonar a idade tratada como mero dado de segmentação e passar a compreender as diversas jornadas de longevidade.

O Brasil ainda possui um trajeto considerável a percorrer nesse sentido. As políticas públicas, o planejamento urbano, as empresas e os modelos de atendimento foram concebidos para uma pirâmide populacional predominantemente jovem, estrutura essa que se modifica rapidamente. Ajustar-se ao aumento da longevidade vai muito além de disponibilizar uma prateleira isolada com produtos voltados para a terceira idade. Trata-se de um redesenho estrutural de mercados para atender a uma sociedade inteira que ampliou seus anos de vida, configurando-se como uma excelente perspectiva para o futuro.

Cléa Klouri é cofundadora da data8 e especialista em Longevidade, contando com mais de três décadas de experiência na área de planejamento estratégico em grandes agências de publicidade.

Fonte:: bemparana.com.br

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