O mercado de tecnologia da informação voltado para o setor público enfrenta um cenário desafiador em Minas Gerais. Empresas fornecedoras têm optado por cancelar o fornecimento de produtos contratados por meio de compras governamentais. O principal motivo apontado para essa ruptura nos acordos é a combinação entre a expressiva alta nos preços dos insumos e a escassez de hardwares e equipamentos no mercado global e nacional.
A situação foi detalhada por Roberto Reis, diretor-presidente da Empresa de Tecnologia de Minas Gerais (Prodemge), durante o evento SECOP 2026. Para ilustrar a gravidade do problema inflacionário e logístico que afeta o planejamento estatal, o dirigente citou um caso emblemático envolvendo a aquisição de um sistema de armazenamento de dados (storage).
De acordo com o gestor, um lote de equipamentos que inicialmente possuía custo estimado em R$ 6 milhões disparou para mais de R$ 10 milhões. Mesmo com o reajuste financeiro e a disposição do poder público em honrar os compromissos, a entrega dos itens segue sem qualquer prazo de cumprimento por parte dos canais de distribuição e fabricantes.
Diante das barreiras enfrentadas na cadeia tradicional de suprimentos de hardware, a companhia estadual tem buscado alternativas estratégicas para modernizar sua infraestrutura, especialmente com foco em demandas avançadas de processamento e inteligência artificial.
“Nós estamos buscando as parcerias com as big techs para ter os equipamentos delas instalados no nosso data center para podermos trabalhar com inteligência artificial. Nós teríamos escalabilidade e redução de custos. Mas não vamos para a nuvem pública, vamos para o nosso data center porque queremos nossos dados no Brasil e em segurança”, pontua Reis.
Transformação na gestão e novos horizontes corporativos
À frente da Prodemge há seis anos, o executivo avalia que sua principal marca na administração foi a transição para um modelo estritamente profissional e corporativo. Historicamente marcada por um histórico de sucessivos déficits financeiros, a estatal conseguiu virar o jogo econômico, adotando metodologias de desenvolvimento ágil, aportes em estruturas de armazenamento analítico de dados (data lake) e a criação de iniciativas de inovação como o ProdemgeLabs.
O momento atual, segundo a diretoria, exige uma mudança de postura operacional, fazendo com que a empresa pública atue menos na execução direta e assuma um papel preponderante de coordenação de projetos tecnológicos.
Questionado sobre lacunas deixadas ao longo de sua gestão, o presidente da estatal apontou a necessidade de maior robustez institucional no âmbito do Comitê de Tecnologia da Information do Estado (CETIC). Para ele, o órgão deveria desempenhar um papel centralizador e coordenador de todos os investimentos estaduais no setor tecnológico.
“Minas não tem uma Secretaria de Transformação Digital. Mas poderíamos ter a CETIC mais consolidada. A coordenação é essencial. Eu gostaria que Minas Gerais tivesse um CIO para gerir todas as compras de tecnologia e criar padrões, governança e plataformas”, argumenta o dirigente.
Parcerias com o setor privado e o desafio da inteligência artificial
No que tange ao papel desempenhado pelas empresas públicas de TI (as chamadas Prods), o executivo defende que a relevância institucional não se conquista por meio de normativas burocráticas, mas sim mediante a entrega eficiente de resultados à sociedade. Para o líder da companhia mineira, o isolamento operacional é inviável no cenário tecnológico contemporâneo.
“Nenhuma Prod tem braço para fazer tudo sozinha. Ela tem de se associar ao mercado privado. Esse é um caminho sem volta”, ressalta.
Outro ponto nevrálgico abordado durante a entrevista foi a corrida desenfreada pela adoção de ferramentas baseadas em inteligência artificial. Na visão da liderança da Prodemge, há uma demanda generalizada por parte de gestores e órgãos públicos para implementar a tecnologia sem que haja clareza sobre suas finalidades práticas, carência de diretrizes de governança e ausência de padrões corporativos consolidados para contratações do tipo.
“Nós pagamos pelos tokens. Mas não liberamos para todos os servidores. Há custo alto envolvido. O padrão faz falta”, conclui, chamando a atenção para a responsabilidade fiscal e o controle de gastos no uso de recursos computacionais avançados.
Fonte:: convergenciadigital.com.br





