Dean Baquet, que comandou a redação do The New York Times entre maio de 2014 e junho de 2022, acumulando o posto mais alto da estrutura jornalística do diário e supervisionando toda a produção da instituição, avalia que o cenário atual impõe riscos inéditos à atividade jornalística nos Estados Unidos. Antes de liderar o tradicional veículo americano, Baquet construiu uma trajetória sólida no setor, atuando como repórter investigativo no Chicago Tribune — onde conquistou o prêmio Pulitzer em 1988 por uma série de reportagens sobre corrupção no Conselho Municipal —, além de ter exercido a função de editor-chefe no Los Angeles Times e na sucursal de Washington do próprio New York Times. Em 2014, ao assumir o comando máximo da redação, fez história ao se tornar o primeiro homem negro a liderar o jornal.
O período em que esteve à frente da publicação foi marcado por turbulências políticas profundas na cena americana, abrangendo desde a vitória eleitoral de Trump em 2016 até a invasão do Capitólio ocorrida em 6 de janeiro de 2021. Paralelamente, o veículo passou por uma ampla transformação estrutural, migrando da dependência financeira da publicidade impressa para um modelo sustentado por assinaturas digitais, incorporando produtos e serviços complementares. Sob sua gestão, o diário conquistou 18 prêmios Pulitzer e superou a marca de 8 milhões de assinantes.
Atualmente, Baquet coordena o Local Investigations Fellowship, iniciativa do periódico voltada para oferecer suporte e orientação a repórteres de veículos locais na condução de reportagens investigativas aprofundadas sobre suas próprias comunidades. Em passagem recente pelo Brasil a convite de um festival cultural, o jornalista concedeu uma entrevista detalhada abordando os erros cometidos pela imprensa na cobertura prévia de 2016, os desdobramentos institucionais da invasão ao Capitólio, a queda nos índices de confiança pública, os impactos da inteligência artificial e as perspectivas econômicas para o jornalismo.
Os reflexos da cobertura política e a necessidade de aproximação com a sociedade
Ao refletir sobre o primeiro mandato de Trump e os episódios que surpreenderam analistas e veículos de comunicação, Baquet reconhece que a imprensa falhou ao não dimensionar as transformações reais vivenciadas pelo país. Segundo o ex-editor, a falta de percepção sobre a incerteza econômica, as profundas divisões regionais e as tensões raciais deixou as redações despreparadas. Para ele, o foco excessivo em profissionais da política e figuras partidárias em detrimento da escuta direta da população comum representou uma falha estratégica coletiva.
Questionado sobre as estratégias para a cobertura de instituições democráticas e processos eleitorais, Baquet enfatiza que as redações precisam, simultaneamente, evidenciar as ameaças reais aos pilares democráticos e manter o compromisso de dialogar com os cidadãos comuns nas diferentes regiões do país. Para o jornalista, a escuta da população revela sentimentos recorrentes de raiva direcionada tanto às elites políticas tradicionais quanto às consequências de decisões governamentais ligadas à economia e à inflação.
Sobre a diferenciação entre conflitos políticos ordinários e situações de grave ameaça institucional, o ex-editor avalia que o jornalismo americano evoluiu após o impacto de 2016, demonstrando maior rigor analítico e atenção redobrada aos esforços de restrição ao voto e aos ataques às instituições. No que tange especificamente ao dia 6 de janeiro de 2021, Baquet classifica o episódio como um ataque violento e perigoso ao Capitólio, lamentando tentativas posteriores de minimizar a gravidade dos fatos por parte de agentes políticos.
Independência editorial, pressões econômicas e o modelo de negócios
Ao debater o papel do jornalismo em relação ao poder executivo, Baquet reitera sua convicção de que veículos de referência não devem atuar como órgãos de oposição partidária. Em sua visão, alinhar-se a uma facção política compromete a imparcialidade necessária para questionar lideranças de quaisquer espectros e investigar temas delicados sem viés. A postura crítica adotada em relação a diferentes administrações exemplifica, para ele, a essência do trabalho independente.
Apesar de os Estados Unidos conservarem ferramentas fundamentais de liberdade de imprensa, o jornalista aponta que o setor enfrenta pressões simultâneas inéditas. Além dos ataques verbais recorrentes desferidos por figuras públicas contra jornalistas, o modelo econômico tradicional atravessa um momento crítico. A desconfiança pública, embora presente em diferentes momentos históricos, foi agravada pela substituição de utilidades cotidianas que antes exigiam a compra obrigatória de jornais impressos por alternativas digitais imediatas, restringindo a relação do público com os veículos essencialmente ao consumo de notícias e opiniões.
Para mitigar a desconfiança, Baquet defende a adoção de maior transparência e humildade operacional, exemplificando com iniciativas passadas em que permitiu o registro documental rotineiro da redação para expor o rigor e a dedicação dos profissionais no cotidiano das apurações.
Inovação tecnológica e os desafios das novas plataformas
Diante da retração financeira generalizada das redações locais e regionais ao longo dos anos, o ex-editor destaca que a crise econômica representa uma ameaça sistêmica muito mais severa à capilaridade da imprensa do que pressões políticas isoladas. No âmbito do próprio The New York Times, o crescimento expressivo de assinaturas esteve associado não apenas a coberturas de grande repercussão, mas à adaptação tecnológica oportuna à era dos smartphones e à diversificação de produtos digitais, a exemplo de jogos e editoriais de utilidade e serviços.
No que tange ao consumo de conteúdos em vídeos curtos por audiências mais jovens e à ascensão da inteligência artificial, Baquet adota uma postura pragmática. Para ele, o papel central do jornalismo é entregar informações relevantes independentemente do formato ou da plataforma tecnológica dominante. Da mesma forma, o jornalista adverte que a recusa em incorporar ferramentas de inteligência artificial seria um erro estratégico comparável à resistência inicial demonstrada por parte da indústria durante o surgimento da internet comercial.

Encerrando suas reflexões sobre as transformações em curso na profissão, Baquet aconselha os novos profissionais a manterem a versatilidade diante de um ecossistema em constante mutação, cultivando a abertura para aprender diferentes linguagens e ferramentas sem rejeitar inovações tecnológicas que já integram o horizonte do setor.
Fonte:: estadao.com.br


