O futuro da onda conservadora na América Latina e o desafio de manter a união regional

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Andrés Oppenheimer

A possível vitória do candidato de direita Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições no Brasil poderia, em teoria, resultar em um bloco de nações favoráveis ao mercado, criando um ambiente propício para atrair uma nova onda de aportes financeiros para a América Latina. No entanto, analistas apontam diversos fatores que tornam esse cenário de forte cooperação improvável.

Um eventual triunfo de Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, faria com que quase todas as grandes economias da região — com exceção do México — passassem a ser administradas por gestões alinhadas à direita.

Embora essa configuração pudesse facilitar acordos bilaterais e conjuntos voltados para a segurança pública e o combate ao crime organizado — pauta prioritária para vários desses líderes —, a consolidação de uma aliança econômica e política sólida enfrenta barreiras significativas.

O fator Donald Trump e a falta de um “padrinho”

O primeiro obstáculo reside no fato de que o principal elo entre os atuais presidentes conservadores da região tem sido a proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa conexão, contudo, pode perder força em breve. Caso se confirmem as projeções de que o Partido Republicano sofra reveses nas eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, a figura de Trump sairá bastante enfraquecida para o restante de seu mandato.

Aos 80 anos e impedido pela Constituição americana de concorrer novamente, Trump poderá enfrentar uma enxurrada de investigações parlamentares sobre supostos abusos de poder e casos de corrupção caso perba a maioria no Congresso.

Para Diego Guelar, ex-embaixador da Argentina no Brasil e em solo norte-americano, o movimento carecerá de sustentação externa: “A esse bloco faltará seu padrinho. O artífice dessa onda de direita na América Latina é Trump, mas o mais provável é que, a partir de novembro, Trump entre em declínio”. Dados de plataformas de projeção eleitoral indicam alta probabilidade de o Partido Democrata retomar o controle da Câmara dos Representantes e ampliar sua influência no cenário político americano.

Nacionalismos e desconfiança multilateral

Em segundo lugar, grande parte desses novos governantes adota um discurso crítico em relação a organismos multilaterais e acordos de integração como o Mercosul, cujas diretrizes frequentemente restringem negociações unilaterais de livre-comércio com terceiros.

O forte sentimento nacionalista presente nesses líderes tende a se sobrepor à afinidade ideológica regional. Da mesma forma que a política norte-americana priorizou o lema “America First”, observadores preveem o surgimento de posturas protecionistas do tipo “Brazil First” e “Argentina First”, o que dificultaria a criação de um bloco coeso.

O cientista político Sergio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso em São Paulo, avalia que o otimismo deve ser cauteloso: “Eu não seria excessivamente otimista a ponto de achar que uma vitória de Bolsonaro resultaria em um modelo de integração como o que foi alcançado na Europa. Muitos desses presidentes são um tanto reticentes em relação ao multilateralismo. Trata-se de uma direita que desconfia muito da renúncia à soberania, e isso serviria de freio para a integração regional”.

Competição interna e migração

Outro ponto de atrito envolve a disputa por investimentos externos. Caso venha a vencer, a prioridade econômica de uma gestão liderada por Bolsonaro seria atrair capitais norte-americanos, o que poderia gerar desequilíbrios com vizinhos sul-americanos. Na corrida para sediar infraestruturas tecnológicas, como data centers voltados à inteligência artificial, ou complexos industriais, o Brasil detém potencial para ampliar sua vantagem econômica sobre parceiros como Argentina, Chile e Colômbia.

Além disso, pautas sensíveis como o fluxo migratório já provocam fricções mesmo entre administrações ideologicamente próximas. O presidente chileno José Antonio Kast tem investido em barreiras físicas e tecnológicas nas divisas com o Peru e a Bolívia para barrar a entrada de imigrantes sem documentação regular, gerando atritos diplomáticos apesar do alinhamento político geral entre os países envolvidos.

Por fim, analistas apontam o fator pessoal e vaidades políticas. Figuras como o argentino Javier Milei buscam protagonismo em fóruns internacionais, um papel que também poderia atrair Bolsonaro, levantando dúvidas sobre uma possível rivalidade de liderança no espectro conservador sul-americano.

Fonte:: estadao.com.br

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