Crédito cresce, mas famílias pagam juros altos e dívidas consomem 29% da renda

Redação Rádio Plug
Foto: (Foto: Unsplash)

O endividamento das famílias brasileiras, excluindo os financiamentos imobiliários, aumentou 30,9% ao longo da última década (de janeiro de 2016 a janeiro de 2026). Atualmente, o comprometimento da renda total com o pagamento de dívidas chega a 29,3%, conforme dados recentes do Banco Central (BC). Esses números revelam um preocupante estrangulamento do orçamento familiar, que vai além de ser um problema individual: eles indicam um risco iminente de perda de força no consumo e, consequentemente, da própria economia do país.

De acordo com Flávio Ataliba Barreto, pesquisador associado do FGV IBRE, o cenário é alarmante, com o endividamento atingindo 49,7% da população brasileira até o início deste ano.

“Isso significa que, cada vez mais, as famílias estão no limite de seu consumo. A maior parte da população brasileira vive com rendas baixas ou médias. Imaginar que quase 30% dessa renda, que já é reduzida, está comprometida com dívidas é preocupante, uma vez que se trata, essencialmente, de despesas essenciais”, comenta o pesquisador.

Esse sufoco financeiro tem um impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Como o consumo das famílias representa a maior parte da demanda agregada no Brasil, a combinação de juros altos, comprometimento elevado da renda e aumento da inadimplência retira a capacidade de expansão dos gastos. Isso sugere que o recorde de endividamento pode ser um dos principais obstáculos ao crescimento econômico do Brasil nos próximos meses.

Endividamento e Comprometimento de Renda das Famílias (%) em 10 anos
Período Endividamento Total Endividamento Sem Financiamento Imobiliário Comprometimento de Renda Total Comprometimento de Renda Sem Financiamento Imobiliário
jan.-2016 40,1 23,9 23,6 21,6
jan.-2017 38,1 22,2 23,4 21,4
jan.-2018 37,3 21,8 22,2 20,2
jan.-2019 39,3 23,5 23,1 21
jan.-2020 41,5 25,7 23 21
jan.-2021 42,1 25,8 22,7 20,6
jan.-2022 49,6 31,2 26,7 24,5
jan.-2023 49 31,1 28 26
jan.-2024 47,8 30,1 26,2 24,1
jan.-2025 48,6 30,6 27,7 25,5
jan-2026* 49,7 31,3 29,3 27,1
Variação em 10 anos 23,90% 30,90% 24,10% 25,40%

Antes, os índices giravam entre 37% e 42% até 2021, romperam a barreira dos 49% a partir de 2022 e permanecem elevados. Mas o que torna o crédito tão oneroso para o cidadão comum?

A resposta reside em uma grave assimetria na economia brasileira, conforme explica o pesquisador. Enquanto as famílias arcam com taxas elevadas, o governo e grandes empresas encontram alternativas de financiamento mais baratas no mercado de capitais. O governo emite títulos públicos que atraem um volume significativo de dinheiro disponível.

Com essa absorção de recursos pelo Estado e grandes corporações (o chamado “efeito de deslocamento”), sobra menos dinheiro nos bancos para empréstimos à população, segundo Ataliba. O resultado é que o crédito bancário escasseia e os custos aumentam.

Os dados confirmam essa desigualdade. Em fevereiro de 2026, o “crédito ampliado” na economia alcançou R$ 21 trilhões (163,7% do PIB), impulsionado principalmente pelo crescimento dos títulos públicos (+17,2%) e privados (+18,5%). O crédito livre para pessoas físicas, por sua vez, apresenta uma realidade distinta: a taxa média chegou a impressionantes 62% ao ano, significativamente superior à das empresas, que é de 24,9%

“Crédito não falta na economia — sua distribuição é o problema. Embora os dados mostrem que o crédito cresce, ele ocorre de forma desigual — e quem arca com essa conta são as famílias”, avalia Ataliba.

Armadilhas do Consignado e do Cartão de Crédito

A dependência do crédito caro se reflete nas modalidades mais utilizadas pelos brasileiros. O avanço tem sido impulsionado pelo crédito consignado para trabalhadores do setor privado, que subiu 247,7% em um ano, e pelo uso do cartão de crédito, que teve um crescimento de 11,8%.

No caso do consignado descontado diretamente da folha de pagamento, o grande risco é a ilusão financeira. Ao não avaliar que terá um salário líquido inferior sendo depositado a cada mês, o trabalhador pode ficar sem margem para cobrir suas despesas essenciais, obrigando-se a contrair novas dívidas para conseguir honrar suas obrigações mensais.

<pno segmento de cartões de crédito, as compras parceladas cresceram 21%, enquanto o preocupante crédito rotativo aumentou 9,3% — esse tipo de crédito permite que o usuário pague apenas uma parte da fatura, mas com juros que rapidamente aumentam a dívida original.

Produto Variação (%)
Consignado para Trabalhadores do Setor Privado 247,7
Cartão de Crédito Parcelado 21
Cartão de Crédito – Total 11,8
Cartão de Crédito à Vista 11,5
Não Consignado 11,1
Cheque Especial 9,5
Cartão de Crédito Rotativo 9,3
Aquisição de Veículos 7,5
Crédito Pessoal Total 6,8
Crédito Pessoal Consignado Total 2,2
Consignado para Servidores Públicos -5,6
Consignado para Beneficiários do INSS -37,3

Dentre as sugestões, está a regulação e o estabelecimento de limites nas taxas de juros dos cartões de crédito.

No entanto, especialistas alertam que essa medida pode não proporcionar os resultados esperados. Em uma análise recente, o banco Morgan Stanley destacou que entre 75% e 80% dos saldos dos cartões no Brasil não geram juros para os emissores, devido à popularidade das compras parceladas sem juros.

Na prática, existe um subsídio cruzado: uma pequena parcela de clientes que opta pelo rotativo (arcar pagando altos juros) acaba sustentando os custos e calotes de todo o sistema de cartões, viabilizando o “parcelado sem juros” da maioria. A advertência do Morgan Stanley é de que a imposição de um limite artificial às taxas do rotativo poderia impactar essa dinâmica, fazendo com que os bancos eliminassem o parcelamento sem juros. Isso prejudicaria diretamente os consumidores e reduziria o volume de vendas no varejo.

Para Flávio Ataliba, intervir nas taxas do cartão de crédito não ataca a raiz do problema. Apesar do aspecto comportamental do consumo, a “arquitetura macroeconômica” do Brasil é o verdadeiro entrave.

A solução definitiva para o endividamento, segundo Ataliba, requer reformas estruturais: a redução contínua da taxa Selic, a diminuição da concentração bancária e, principalmente, a diminuição da participação excessiva do governo como o principal tomador de crédito no mercado brasileiro.

Fonte:: infomoney.com.br

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