“GiselleS” Montagem do Balé Teatro Guaíra revisita clássico e aposta alto em figurino e cenário

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Cultura.pr.gov.br

O processo de criação de um espetáculo do Balé Teatro Guaíra (BTG) é um trabalho minucioso que requer meses de dedicação. Desde a escolha dos tecidos para os figurinos e a seleção de materiais para o cenário, até o desenvolvimento da dramaturgia e coreografia, são realizadas centenas de horas de testes, ensaios e ajustes até que o produto final esteja pronto.

Um exemplo desse rigor é o novo espetáculo “GiselleS”, que conta também com a participação da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) e terá sua estreia no dia 13 de junho no Teatro Guaíra, em Curitiba. O trabalho de criação começou cerca de um ano antes da apresentação.

Dirigido por Luiz Fernando Bongiovanni e com dramaturgia de Edson Bueno, o projeto conta com cenários de Renato Theobaldo, figurinos de Eduardo Giacomini, iluminação de Lucas Amado e produção de vídeo de Eduardo Ramos. A música ao vivo será realizada pela Orquestra Sinfônica do Paraná, sob a regência do maestro convidado Gabriel Rhein-Schirato e regência titular de Roberto Tibiriçá.

A obra é uma releitura contemporânea do balé clássico “Giselle”, que foi composto por Adolphe Adam e tem um libreto de Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges e Théophile Gautier. A primeira apresentação ocorreu em 1841, realizada pelo Balé da Ópera Nacional de Paris.

Bongiovanni e Bueno, que colaboram há quase duas décadas, começaram a desenvolver o roteiro de “GiselleS” em meados de 2025. Os ensaios com o elenco tiveram início em março deste ano, logo após a abertura da temporada com o espetáculo “Tempo de Movimento”, que incluiu testes e audições para a seleção de artistas.

Figurinos

A confecção dos figurinos de “GiselleS” desempenha um papel crucial na construção deste novo universo. Assinados por Giacomini e elaborados pela equipe de costura do Teatro Guaíra, os trajes foram pensados meses antes do início dos ensaios em estúdio, passando por diversas etapas até chegarem às versões finais. “Quando conversei com o Bongiovanni, ele enfatizou a importância de revisitarmos a tradição de ‘Giselle’, que possui uma rica história como balé clássico, mas que deveria também se conectar com o contemporâneo”, explica Giacomini.

Para alcançar esse objetivo, o figurinista investigou cortes e estilos das montagens clássicas da obra e reinterpretou esses elementos, incorporando referências atuais. A abordagem visou criar uma conexão visual entre os diferentes grupos sociais representados na narrativa, com distinções notáveis na escolha dos materiais. “Tanto os camponeses quanto a nobreza habitam o mesmo mundo, refletido nas linhas e formatos das roupas, mas com uma sofisticação maior nos tecidos da corte e materiais mais simples para os camponeses”, complementa.

A interação entre figurino e cenário também foi um direcionamento importante nas escolhas estéticas da montagem. Como o design do cenário já estava em desenvolvimento quando o trabalho de figurino se iniciou, Giacomini buscou estabelecer uma identidade que se comunicasse diretamente com os elementos do cenário, utilizando cores sólidas e linhas definidas.

A transformação de desenhos em figurinos requer um esforço considerável da equipe de costura do Teatro Guaíra. De acordo com a chefe de costura, Rose Matias, a produção começou cerca de três meses antes da estreia, devido à complexidade da montagem. “Temos 22 bailarinos em cena, cada um usando vários figurinos. É uma produção grande e intricada”, afirma.

A partir dos esboços do figurinista, a equipe seleciona os tecidos que atendem tanto aos requisitos estéticos quanto às necessidades da dança. Entre os materiais utilizados estão sedas, crepes, zibelines, algodão cru e brins. Além da estética, cada peça deve garantir liberdade de movimento aos bailarinos e suportar as rápidas trocas de cena. “Os figurinos são todos forrados, e muitos contarão com zíperes para facilitar as trocas rápidas durante o espetáculo”, informa Rose.

Apesar de muitos detalhes não serem visíveis à distância para o público, o acabamento é cuidadosamente elaborado. “Sempre trabalhamos como se o público estivesse a poucos metros de nós”, diz a costureira.

“GiselleS”: conheça os bastidores da nova montagem do Balé Teatro Guaíra

Foto: Anderson Tozato/SEEC

Cenário

A junção do clássico e do contemporâneo em “GiselleS” também é evidente na cenografia. Segundo Renato Theobaldo, cenógrafo responsável, “esse trabalho é singular, proporcionando uma experiência completamente nova em sua riqueza estética. A representação do espaço não é realizada de forma neoclássica ou realista, mas sim por meio de um conceito visual que é verdadeiramente contemporâneo em sua linguagem”.

Com mais de 40 anos de experiência, Theobaldo já desenvolveu cenografias para óperas, eventos expositivos, instalações e espetáculos tanto no Brasil quanto no exterior, mas destaca que sua relação com o Teatro Guaíra é especial. “Conheço quase todos os teatros do Brasil, e tenho uma relação particular com o Guaíra: é um espaço de competência e qualidade profissional, mas, principalmente, de respeito, e um carinho que se sente ali, o que me agrada muito. É sempre um prazer estar lá”, compartilha.

Clássico

Desde sua fundação em 1969, o BTG tem se comprometido a promover um diálogo entre tradição e contemporaneidade, levando a arte da dança a diferentes públicos e espaços. Entre seus grandes marcos, a montagem de “Giselle” na década de 1970 foi um divisor de águas, sob a direção de Hugo Delavalle, projetando a companhia em nível nacional e contando com a participação de grandes nomes, como a bailarina Ana Botafogo no papel principal.

Na década de 1980, uma nova montagem reafirmou a relevância desse repertório na identidade da companhia, destacando a interpretação de Eleonora Greca e Jair Moraes. O retorno ao clássico, naquele período, dialogou com uma fase de expansão artística da companhia, marcada pelo sucesso de “O Grande Circo Místico”, que consolidou a reputação internacional do BTG.

Ao revisitar esse legado com “GiselleS”, o Balé Teatro Guaíra reafirma sua missão de transformação. Esta releitura contemporânea se conecta com o presente e com a trajetória recente da companhia, que já conta com circulações nacionais e internacionais e foi condecorada com o Prêmio APCA de Melhor Elenco.

Bongiovanni, que já encenou versões de “Romeu e Julieta”, “Carmen”, “O Lago dos Cisnes” e “O Quebra-Nozes” com a companhia, ressalta: “Acredito que a parceria que tenho com o BTG reflete essa ideia de revisitar a tradição dos grandes clássicos sob uma perspectiva contemporânea. Buscava um título que se encaixasse nessa proposta e identifiquei “Giselle” como uma escolha perfeita: um ícone da dança romântica, com uma trilha sonora encantadora e uma história que ressoa no contexto atual”, conclui.

Enredo

No enredo original, Albrecht é um nobre que se disfarça de camponês para viver um romance com Giselle, uma jovem do campo. “Em uma era digital, onde as redes sociais dominam, a importância da aparência se torna ainda mais evidente. Esse é um paralelo interessante que encontrei”, aponta Bongiovanni.

Ele menciona que o público terá diferentes maneiras de interpretar o caráter de Albrecht: “Ele é realmente apaixonado e busca viver seu amor, ou é um manipulador predador? Essa é uma questão que ficará a critério do público resolver, criando suas próprias conclusões. Trata-se de uma grande tragédia, daquelas que merecem ser experienciadas, e que certamente encantarão os espectadores com os seus personagens”, finaliza.

Serviço

“GiselleS” – Balé Teatro Guaíra, com a participação da Orquestra Sinfônica do Paraná

Datas: 13 e 14 (sábado e domingo) e de 18 a 21 (quinta a domingo) de junho de 2026

Horários: quinta a sábado, às 20h30; domingo, às 18h

Local: Teatro Guaíra – Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto (Guairão) – Rua Conselheiro Laurindo, 175, Centro – Curitiba

Duração do espetáculo: Aproximadamente 1h30

Classificação etária: 6 anos

Regente convidado: Gabriel Rhein-Schirato

Ingressos: disponíveis pelo DiskIngressos e na bilheteria do Teatro Guaíra. Os lugares são marcados.

Fonte:: cultura.pr.gov.br

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