Metade dos estudantes não vê debate antirracista na escola, diz estudo

Redação Rádio Plug
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Foto: © Joédson Alves/Agência Brasil

O trabalho intitulado “A herança da cultura negra na formação do Brasil”, encomendado a uma estudante de 15 anos em uma escola de Brasília, é considerado uma raridade pela mãe da aluna, Karina Berardo, que é advogada e possui dois filhos negros. Karina afirma que o tema da educação antirracista passou a ser mais discutido, especialmente no ensino médio, mas acredita que durante o ensino fundamental as conversas sobre raça estavam predominantemente ligadas à escravidão.

A percepção de Karina sobre a falta de discussão antirracista nas escolas foi corroborada por um estudo inédito divulgado nesta terça-feira (26), que examina como os estudantes enxergam o ensino de conteúdos relacionados à temática racial. Este levantamento foi realizado no âmbito do Sistema de Avaliação da Educação Básica, em parceria com o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e os institutos Alana e Geledés.

Uma das principais conclusões do estudo revela que cerca de 50% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio no Brasil afirmam não perceber a discussão sobre desigualdades raciais em sala de aula, mesmo com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que determinam a inclusão do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas.

Iniciativas em andamento

De acordo com a socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Cebrap, a aplicação da legislação antirracista nas escolas está avançando, mas de forma desigualmente aplicada e muitas vezes dependente de iniciativas de secretarias educacionais ou do Ministério da Educação. Flávia destaca que, nos últimos 20 anos, apesar de diversos projetos voltados para a formação de gestores e professores, assim como alterações curriculares, ainda não se conseguiu universalizar a aplicação dessas legislações.

A pesquisa revela que é necessário aumentar a cobertura e a consistência do sistema curricular para efetivar uma formação que respeite as questões étnico-raciais, principalmente nas escolas privadas, que muitas vezes são menos cobradas em sua aplicação. Flávia enfatiza que a legislação visa transformar mentalidades e ensinar conteúdos que promovam atitudes e comportamentos cidadã.

Flávia Rios ressalta que é fundamental um monitoramento das políticas públicas educacionais. O estudo sugere que o diálogo entre escolas e famílias desempenha um papel crucial no combate ao racismo, sendo necessário um esforço conjunto entre todos os envolvidos.

Os dados mostram uma discrepância significativa entre as percepções de estudantes e professores. Enquanto 81,6% dos professores do 9º ano do ensino fundamental e 71,6% do 3º ano do ensino médio relataram que discutem desigualdades raciais com frequência, apenas menos da metade dos alunos (46,6% do fundamental e 46,8% do médio) reconhecem que a temática é abordada por seus professores.

Divergências nas percepções

As percepções sobre a discussão das desigualdades raciais variam conforme a rede de ensino e o perfil dos alunos. A ausência do debate é mais notada entre estudantes de escolas privadas, onde 60,8% no ensino fundamental e 60,8% no ensino médio declararam não perceber a abordagem do tema, em comparação a 51,4% e 51,9%, respectivamente, nas instituições públicas.

Candidatos brancos tendem a indicar que o debate racial é menos reconhecido (53,5% no ensino fundamental e 55,4% no médio) do que alunos negros (50% no fundamental e 51,2% no médio), pardos (50,5% e 50,2%) e indígenas (49,5% e 46,8%). Eliane Firmino, pesquisadora do Cebrap, explica que a educação antirracista deve ser vista como uma formação cidadã para todos os grupos sociais.

Caminhos para a efetivação

Segundo Suelaine Carneiro, coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, é imprescindível a fiscalização e acompanhamento da implementação das leis relacionadas ao ensino antirracista. Ela argumenta que o engajamento de professores de diversas etnias no tema é crucial.

Beatriz Benedito, analista de relações governamentais do Instituto Alana, reforça a necessidade de apoio para a institucionalização das políticas de educação voltadas para a diversidade étnica e racial, de forma que os estudantes se reconheçam como protagonistas na aprendizagem da história e cultura negra e indígena. O estudo recomenda a contínua formação de professores e a ampliação da diversidade racial nas equipes docentes, bem como a utilização de materiais pedagógicos intencionais e a criação de espaços para diálogo entre docentes e estudantes.

Visão para o futuro

O tratamento de temas étnico-raciais de maneira episódica, como no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), também é observado pela servidora pública Juliana Couto, de 48 anos, mãe de duas filhas que já enfrentaram situações de preconceito. Juliana defende um investimento a longo prazo, acreditando que os frutos das iniciativas atuais poderão ser colhidos pelas futuras gerações.

Em sua análise, Juliana observa progressos em relação a sua própria experiência de infância, afirmando que o cenário atual, embora ainda desafiador, já apresenta melhorias na discussão sobre questões raciais nas escolas. Ela acredita que o caminho para uma educação verdadeiramente inclusiva exige tempo e esforço contínuo de toda a sociedade.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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