A valorização das empresas conhecidas como big techs continua avançando em um ritmo superior ao crescimento dos seus próprios lucros. Gigantes do setor como Apple, Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet operam atualmente negociando a múltiplos que variam entre 18 e 35 vezes o lucro líquido acumulado ao longo dos últimos doze meses. As informações foram reunidas pela consultoria especializada Elos Ayta com base em dados consolidados até o fim de julho.
O cenário demonstra que, embora o otimismo permaneça presente entre os investidores, há um patamar de cautela mais elevado no ar. Nos últimos tempos, debates sobre a possibilidade de formação de uma bolha especulativa no segmento de inteligência artificial ganharam força. Entre os principais motivos de desconfiança estão as dúvidas relacionadas ao retorno financeiro de investimentos tão pesados e à real capacidade de monetizar as tecnologias recém-chegadas ao mercado.
De acordo com avaliações de especialistas do setor, como Nikolas Lobo, analista de investimentos da Nomad, a dimensão exata dessa dinâmica só pode ser compreendida quando se analisa não apenas o indicador P/L (preço sobre lucro) retrospectivo, mas também as perspectivas traçadas para o futuro.
Diferente do cálculo tradicional de P/L, que se apoia estritamente em resultados passados, o indicador conhecido como P/L NTM (sigla em inglês para *next twelve months*) leva em conta as projeções de lucro previstas para os próximos doze meses. Conforme aponta o analista, essa métrica se mostra especialmente útil para examinar companhias de expansão acelerada, uma vez que consegue incorporar as expectativas do mercado quanto ao desempenho que virá.
Apesar da utilidade, Lobo faz uma ponderação importante: as projeções do P/L NTM costumam se basear em consensos que podem carregar um otimismo exagerado. No ecossistema de inteligência artificial, por exemplo, o mercado financeiro ainda enfrenta dificuldades para mensurar com precisão a real dimensão dos riscos envolvidos.
Mesmo com a trajetória de alta observada nos papéis das companhias nos últimos anos, os múltiplos já registraram patamares ainda mais elevados em períodos anteriores. Dados agregados mostram que a maior parte das big techs negocia hoje com um P/L NTM cerca de 25% abaixo da média registrada nos últimos três anos, com exceção da Apple, que opera com um prêmio aproximado de 20%. Na prática, isso indica que, descontando o caso da fabricante do iPhone, essas empresas estão negociando de forma mais acessível se considerado o potencial de crescimento que devem entregar, conforme avaliam especialistas.
O comportamento do indicador de preço sobre lucro
A liderança do ranking de valuation pertence à Apple, que apresenta um índice de preço sobre lucro na casa de 35 vezes. Isso significa que o mercado demonstra disposição para pagar um prêmio consideravelmente maior por suas ações em comparação com as demais gigantes do setor tecnológico, impulsionado pela expectativa de que a empresa consiga continuar ampliando seus resultados nos próximos anos.
Logo atrás aparecem a Microsoft, com um múltiplo de 26 vezes, seguida por Amazon (22 vezes), Meta (21 vezes) e Alphabet (18 vezes). O patamar da criadora do iPhone chega a ser praticamente o dobro do verificado na controladora do Google, reflexo direto da disparidade nas expectativas dos investidores em relação aos modelos de negócios de cada uma.

O conceito por trás do indicador P/L consiste em relacionar diretamente o valor de mercado de uma corporação ao seu respectivo lucro líquido. Um múltiplo de 35 vezes, por exemplo, traduz-se na avaliação de que a companhia está precificada pelo mercado em um montante equivalente a 35 anos do seu lucro atual, mantidas as condições constantes.
Os levantamentos consideram o valor de mercado das companhias no encerramento de julho e o lucro líquido acumulado no ciclo de doze meses anteriores. Sob essa ótica, a Apple, avaliada em aproximadamente US$ 4,5 trilhões, reportou lucros da ordem de US$ 129 bilhões. Em contrapartida, a Alphabet, que possui patamar de valor de mercado semelhante, na faixa de US$ 4,4 trilhões, acumulou lucros de US$ 244 bilhões, justificando o seu múltiplo substancialmente mais baixo.
Analistas ressaltam que o indicador não deve ser interpretado de forma isolada para a tomada de decisões no mercado financeiro.
Ritmo forte de expansão e os desafios da inteligência artificial
A posição de destaque ocupada pela Apple na liderança do ranking também gera debates e questionamentos. De acordo com análises da Convexa, embora a corporação tenha apresentado um trimestre financeiramente sólido, ela ainda precisa superar barreiras operacionais, logísticas e estratégicas para conseguir manter o fôlego em sua expansão.
Existe ainda uma cobrança por parte dos acionistas por evidências concretas de que a empresa conseguirá converter seus aportes bilionários em inteligência artificial em novas fontes de faturamento. Até o momento, a companhia ainda não disponibilizou ao público todas as funcionalidades que foram anunciadas para o ecossistema Apple Intelligence, o que alimenta incertezas sobre o retorno financeiro desse capital.
Apesar disso, o balanço trimestral da empresa foi classificado como robusto por observadores do mercado de tecnologia, a exemplo de Arthur Igreja.
“No caso da Apple, a organização retomou um crescimento de dois dígitos, mesmo em um cenário em que o mercado internacional de smartphones passa por ajustes de preços. A procura pelos aparelhos iPhone avançou 22%, mesmo após a implementação de reajustes nos valores”, pontuou o especialista.
Por sua vez, a Amazon reportou uma expansão ainda mais acentuada, corroborando uma tendência que já havia se manifestado nos balanços da Microsoft e da Alphabet: o setor de computação em nuvem continua a funcionar como o principal motor de impulso para os negócios. Segundo Igreja, o fator determinante por trás dessa alta expressiva é a demanda gerada pelas aplicações baseadas em inteligência artificial.
A Microsoft também conseguiu superar as projeções dos analistas, com um balanço considerado um dos pontos altos da temporada de resultados corporativos.
“O grande destaque foi a divulgação, pela primeira vez na história, da receita anual gerada pelo Azure, a plataforma de serviços em nuvem da Microsoft, que ultrapassou a marca de US$ 100 bilhões. Esse era exatamente o dado que o mercado aguardava para certificar que os enormes investimentos feitos em inteligência artificial estão, de fato, gerando demanda real e retorno financeiro, algo que nem todas as gigantes conseguiram comprovar até o momento. Outro elemento monitorado de perto foi o volume de investimentos”, destacou Igreja.
O desempenho da Meta
Diferente das demais companhias do setor que apresentaram seus balanços até o momento, a Meta seguiu um caminho distinto. Mesmo com o principal executivo da empresa, Mark Zuckerberg, mantendo uma postura otimista em relação ao futuro da inteligência artificial, especialistas avaliam que a companhia transmite a sensação de “estar tentando executar muitas frentes ao mesmo tempo”.
Os números apresentados pela dona do Facebook e do Instagram vieram abaixo das expectativas projetadas pelo mercado, afetando tanto a receita quanto o lucro por ação, o que acabou exercendo pressão sobre a cotação dos papéis. O principal aspecto positivo apontado no balanço foi a sinalização de que a empresa estuda ingressar futuramente no mercado de computação em nuvem.
A discussão sobre uma possível bolha tecnológica
A corrida travada entre as principais empresas de tecnologia em torno da inteligência artificial impulsionou de maneira expressiva o valor de mercado dessas companhias e reabriu as discussões sobre os riscos de uma bolha especulativa. Nos últimos anos, nomes como Apple, Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet anunciaram pacotes de investimentos massivos voltados à aquisição de chips avançados, construção de data centers e ampliação da infraestrutura física necessária para sustentar os sistemas de IA.
A aposta central do mercado financeiro reside na premissas de que esses dispêndios maciços se transformarão em receitas e lucros no futuro. O desafio atual reside no fato de que esse retorno financeiro ainda não se materializou de maneira proporcional ao volume de capital investido, abrindo margem para o risco de valuations esticados.
Caso os lucros das empresas deixem de avançar na velocidade esperada pelos acionistas, as ações poderão passar por um processo de reprecificação. Ainda assim, o histórico dos últimos dois anos demonstra que as big techs têm conseguido superar consistentemente as estimativas traçadas pelos analistas na maior parte dos relatórios trimestrais divulgados.
Fonte:: poder360.com.br




