Astroturismo ganha força no Brasil e transforma a observação do céu em roteiro de viagem

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: noticia_publicada

Desde a Antiguidade, quando civilizações inteiras utilizavam as constelações para traçar rotas marítimas e compreender os ciclos da natureza, o firmamento exerce um fascínio profundo sobre a humanidade. Na clássica Odisseia, por exemplo, o herói grego Odisseu guiava suas embarcações com o auxílio das Plêiades, do Boieiro e da Ursa Maior. Embora os avanços tecnológicos e a vida urbana moderna tenham afastado a maior parte das pessoas dessa conexão ancestral, o interesse em contemplar as estrelas ressurge com força total através do astroturismo, um segmento em expansão que encontra no Brasil um cenário altamente promissor.

Nas montanhas da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, essa tendência já se consolidou como uma atividade turística de destaque. Em uma das rotas operadas pela Mantiqueira Ecoturismo, a 1.700 metros de altitude, a guia Thaynara Siqueira relata que a iniciativa surgiu organicamente, motivada pela paixão dos próprios profissionais pela astronomia amadora, antes mesmo de se transformar em um produto comercial. Segundo ela, o sentimento predominante entre os participantes é o deslumbramento, o que torna esta atividade uma das que possuem maior taxa de fidelidade entre os visitantes da região.

O avanço da escuridão e o turismo noturno

A valorização do céu noturno acontece de maneira paradoxal, justamente no momento em que ele se torna mais escasso nas grandes cidades. Pesquisas baseadas em dados da Universidade de São Paulo (USP) apontam que as emissões de luz artificial no Brasil registraram um crescimento de pelo menos 49% entre 1992 e 2017. Em escala global, a poluição luminosa avança de forma acelerada, a ponto de ocultar a Via Láctea a olho nu para uma fatia cada vez maior da população mundial.

Em contrapartida, as mudanças climáticas e as altas temperaturas diurnas impulsionam novas alternativas de lazer e exploração de destinos. Um levantamento conduzido pela plataforma Booking.com com mais de 27 mil viajantes espalhados por 33 países revelou que 54% dos entrevistados planejam programações noturnas para fugir do calor durante o dia, enquanto 62% demonstram forte interesse em visitar locais com baixos índices de poluição luminosa.

Dentre as preferências apontadas pelo público global, a contemplação direta das estrelas lidera a lista com 72% das menções, seguida de perto por passeios guiados focados no firmamento, que somam 59%. O tema ganhou ainda mais relevância internacional após publicações especializadas, como as da National Geographic, passarem a destacar roteiros voltados exclusivamente para vivências que ocorrem após o pôr do sol.

O potencial dos parques nacionais brasileiros

O território nacional apresenta vantagens comparativas consideráveis para o desenvolvimento do setor. Um estudo recente do IASTRO aponta que 55 dos 75 parques nacionais avaliados no país possuem potencial classificado entre muito bom e excelente para a prática da observação astronômica.

O índice técnico, estruturado em parceria entre o Instituto Entreparques e o Instituto Astroparques, leva em conta critérios rigorosos como a pureza do céu noturno, a frequência de noites com céu limpo e a infraestrutura básica para receber ecoturistas. Entre os locais de destaque mapeados estão o Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco, a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e o Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí.

Um caso emblemático de sucesso ocorreu no estado do Rio de Janeiro. No ano de 2021, o Parque Estadual do Desengano obteve a certificação internacional de International Dark Sky Park, sendo pioneiro na América Latina. O reconhecimento gerou um impacto expressivo no turismo local, com um crescimento superior a 300% na visitação, alcançando a marca aproximada de 11 mil turistas anuais.

Apesar de o volume ainda ser modesto quando comparado aos números gerais do ecoturismo brasileiro — que, de acordo com o ICMBio, atraiu 28,5 milhões de visitantes às unidades de conservação federais e movimentou R$ 40,7 bilhões em 2025 —, o exemplo do Desengano ilustra como um atributo ambiental preservado pode redefinir a vocação turística de uma localidade.

Experiências integradas à natureza

Na Chapada dos Veadeiros, iniciativas como a da Praia Rica Expedições unem a observação astronômica ao conforto de bebidas quentes, mantas térmicas e equipamentos especializados. Para July da Costa, cofundadora da empresa, o objetivo principal é integrar o firmamento ao cenário da viagem de forma ativa e imersiva.

A vasta extensão territorial do Brasil, somada à baixa densidade demográfica de certas áreas, à rica biodiversidade e às amenas temperaturas noturnas, favorece o fortalecimento do segmento. Contudo, os especialistas reforçam que a consolidação da atividade depende diretamente da proteção ambiental. A poluição gerada pelo excesso de luz urbana não compromete apenas a visibilidade científica e recreativa dos astros, mas também desregula os ciclos biológicos de diversas espécies animais que dependem da escuridão natural para sobreviver.

A Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta) acompanha o movimento com otimismo. Para a presidência da entidade, o céu pode funcionar tanto como atração principal quanto como complemento perfeito para outras vivências ao ar livre, a exemplo de trilhas no crepúsculo, hospedagens integradas à natureza, imersões gastronômicas e safáris fotográficos noturnos. O mapeamento do IASTRO demonstra que há espaço de sobra para expandir a oferta com responsabilidade.

Ao término de uma caminhada guiada sob as estrelas na Serra da Mantiqueira, os relatos dos viajantes costumam girar em torno da simplicidade: a contemplação de uma estrela cadente, o canto distante da fauna noturna, o silêncio da montanha e o desejo de retornar. Quase três mil anos após os relatos de Homero, a busca humana ao mirar o firmamento continua sendo a mesma: redescobrir o encantamento.

Empresas associadas à Abeta pioneiras no setor

Diferentes operadoras de turismo em território nacional já integram a observação astronômica aos seus roteiros regulares:

Urbia Cataratas: No Parque Nacional do Iguaçu, a Urbia Cataratas realiza a experiência Céu das Cataratas. Destinada a pequenos grupos aos sábados, a atividade mescla noções científicas de astronomia com narrativas e cosmologias da cultura Guarani.

Ibiti Projeto: Em Minas Gerais, o Ibiti Astros traduz conceitos astronômicos de forma didática para os visitantes. As sessões ocorrem ao ar livre, nas imediações das acomodações da reserva, em um formato acessível e dinâmico.

Praia Rica Expedições: especializada em roteiros privativos e sob medida nos estados do Tocantins e de Goiás, abrangendo regiões como o Jalapão, as Serras Gerais e a Chapada dos Veadeiros.

Mantiqueira Ecoturismo: Localizada na Serra da Mantiqueira (MG), a Mantiqueira Ecoturismo oferece o Roteiro Noturno Via Láctea, conduzindo turistas a um mirante a 1.700 metros de altitude para a observação detalhada de planetas, constelações e da nossa galáxia, longe das interferências luminosas das cidades.

Fonte:: diariopr.com.br

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