A Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) se prepara para colocar em órbita nas próximas semanas um observatório astronômico cujas origens remetem diretamente aos programas de espionagem do Pentágono. O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, com lançamento previsto para o final deste mês, utiliza um espelho primário que foi originalmente concebido pelo Escritório Nacional de Reconhecimento (NRO), o departamento de inteligência encarregado de satélites de monitoramento terrestre.
O projeto militar original acabou cancelado devido a atrasos cronológicos e estouros orçamentários. Como resultado dessa reestruturação, o NRO decidiu transferir dois telescópios espaciais desenvolvidos no âmbito da iniciativa para a Nasa em 2012. Um desses equipamentos ópticos passou a formar o núcleo do novo observatório astronômico.
Essa herança tecnológica explica as características singulares do equipamento e o potencial para se consagrar como o satélite astronômico mais produtivo já enviado ao espaço. O componente refletor principal possui dimensões idênticas às do consagrado Telescópio Espacial Hubble, lançado em 1990: exatos 2,4 metros de diâmetro. Enquanto o Hubble mantém seu posto de ícone histórico, e o Telescópio Espacial James Webb atua com seu espelho segmentado de 6,5 metros voltado para o infravermelho, o novo instrumento chega com uma proposta diferenciada de campo de visão.
Desafio óptico entre a Terra e o espaço profundo
Para o setor de inteligência militar, a utilidade de um espelho desse porte residia na capacidade de apontar o equipamento para o solo terrestre. Contudo, a captura de imagens voltadas para a superfície do planeta difere drasticamente da observação do cosmos. Além dos contrastes acentuados de luminosidade e das velocidades relativas, a astronomia espacial busca focar em astros que, devido à distância colossal, manifestam-se em proporções extremamente reduzidas.
No projeto do Hubble, a prioridade foi concentrar o campo visual em alvos específicos e distantes, o que exigia câmeras com aberturas de visada relativamente estreitas. Na prática, apenas uma fração limitada da luz coletada pelo espelho primário recebia registro efetivo dos sensores.
Com o desenvolvimento do telescópio Roman, a diretriz mudou para aproveitar integralmente a capacidade do espelho, uma abordagem que já fazia sentido para a aplicação de espionagem, onde o interesse recobre tanto o alvo principal quanto a área circundante com a máxima resolução possível. O resultado dessa evolução tecnológica traduz-se em uma eficiência de captura incomparável.
Enquanto a câmera WFC3 do Hubble, operando no infravermelho próximo, consegue abranger um campo máximo de 130 segundos de arco de lado, o instrumento WFI instalado no Roman tem capacidade para registrar uma área de 2.700 por 1.380 segundos de arco. Trata-se de uma região aproximadamente 140 vezes maior. Desse modo, o novo observatório conseguirá cobrir em apenas um ano de operação uma área do céu dez vezes superior à que o Hubble mapeou ao longo de três décadas de atividades.
Legado de pioneirismo e instrumentação avançada
O equipamento homenageia Nancy Grace Roman (1925-2018), astrônoma que assumiu como a primeira chefe de astronomia da Nasa entre as décadas de 1960 e 1970. Conhecida internacionalmente como a “mãe do Hubble” por ter impulsionado e supervisionado a concepção do projeto predecessor, a cientista ganha agora seu nome associado a este novo marco tecnológico, oficializado em maio de 2020.
Apesar da herança do espelho fornecido pelo NRO — que passou por aprimoramentos para ter sua massa reduzida a um quarto do peso do espelho do Hubble —, a Nasa concentrou esforços no desenvolvimento dos instrumentos científicos acoplados. O observatório conta com dois sistemas principais. O primeiro é o já citado WFI (Instrumento de Campo Amplo), dotado de 18 detectores capazes de gerar imagens em luz visível e infravermelha, além de registrar o espectro de objetos celestes. O segundo é o CGI (Instrumento Coronógrafo), um dispositivo projetado para suprimir a luminosidade de estrelas.
A supressão da luz estelar representa uma vantagem crucial na detecção de exoplanetas, uma vez que as estrelas superam em milhões ou bilhões de vezes o brilho dos mundos que orbitam ao seu redor. Ao bloquear a luz da estrela central, o coronógrafo viabiliza a captura de imagens diretas de planetas gigantes em sistemas estelares próximos, abrindo caminho para investigações futuras sobre mundos rochosos semelhantes à Terra.
Órbita e objetivos científicos
Com um custo total estimado em US$ 4,3 bilhões, abrangendo a construção e a operação durante seus primeiros cinco anos de missão primária, o telescópio possui uma expectativa de vida útil que pode superar uma década. O lançamento ocorrerá em direção a uma órbita situada em um ponto lagrangiano, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, mesma região espacial ocupada pelo Telescópio James Webb e outras missões científicas de destaque.
Como um observatório de uso geral, o Roman investigará fenômenos astronômicos que vão desde o Sistema Solar até as fronteiras do universo observável. O primeiro ciclo de pesquisas contemplará áreas como o estudo de galáxias, física estelar, formação de exoplanetas, populações estelares, estrutura em larga escala do cosmos e buracos negros supermassivos.
Além das observações pontuais, o satélite executará projetos de varredura sistemática para produzir um mapa tridimensional do universo, monitorar eventos extragalácticos dinâmicos e observar o centro da Via Láctea em busca de microlentes gravitacionais. Essa técnica permitirá catalogar exoplanetas em larga escala, preenchendo lacunas deixadas por métodos tradicionais.
A colocação do equipamento no espaço está agendada para o próximo dia 30, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, em uma operação de lançamento contratada por US$ 255 milhões.
Fonte:: bemparana.com.br




