O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses atravessa um período de intensa movimentação turística. Impulsionado pela recente conquista do título de Patrimônio Mundial concedido pela Unesco, o destino registrou a marca de 656.388 visitantes em 2025, o que representa um crescimento expressivo de 41% em comparação ao ano anterior, conforme dados do ICMBio. Contudo, enquanto as lagoas de acesso mais rápido concentram grandes volumes de turistas em passeios curtos, uma alternativa de viagem ganha força e redefine a economia local: a tradicional travessia a pé pelas dunas.
Para retratar essa realidade, foi lançado recentemente no YouTube o curta-metragem documental intitulado “Lençóis Maranhenses: Far From The Crowds, Close To What Matters”, produzido pela plataforma de viagens PlanetaEXO. A obra audiovisual joga luz sobre um modelo de negócio focado no baixo volume de visitantes e na alta retenção de receita financeira diretamente com as famílias que habitam a região e o entorno do parque, estimado em cerca de 45 comunidades tradicionais.
Muito além das lagoas lotadas: o cenário espetacular dos Lençóis Maranhenses, onde um turismo de baixo impacto transforma a realidade de quem vive no parque. (Crédito: Isadora Sá)
Economia local fortalecida pelo turismo de base comunitária
O documentário detalha a engrenagem financeira por trás das expedições de travessia a pé, que duram de dois a cinco dias. Nas últimas temporadas, a iniciativa conduziu um grupo restrito de apenas 583 viajantes. O resultado dessa abordagem demonstra que é possível aliar preservação e rentabilidade: a operação gerou um faturamento bruto de aproximadamente R$ 1,79 milhão.
O dado de maior destaque no modelo é que 80% desse montante permaneceu integralmente no destino, injetando mais de R$ 1,4 milhão na economia da região. Os recursos foram repassados sem intermediários para remunerar diretamente os guias de turismo, motoristas e as famílias anfitriãs que abrem suas portas para hospedagem e alimentação ao longo do trajeto nas dunas e oásis.
De acordo com Lucas Ribeiro, fundador da empresa e diretor do filme, a escolha por destinar a maior fatia do ganho financeiro aos moradores é proposital. Para ele, o turismo comunitário deixa de existir caso o capital arrecadado não beneficie diretamente quem acolhe, alimenta e caminha junto com os visitantes, transformando-se apenas na comercialização de uma paisagem.
Longe das multidões, perto do que importa. O turismo de travessia aposta em pequenos grupos para garantir alta retenção de receita para as comunidades locais. (Crédito: Isadora Sá)
A transição da pesca para a hospitalidade nos oásis
No oásis de Baixa Grande, isolado a horas de caminhada de qualquer rodovia, a transformação econômica é visível na rotina de moradores como Seu Moacir e Dona Dete, que atuam como anfitriões e figuram entre os personagens centrais da produção cinematográfica. Após décadas dedicadas exclusivamente à pesca de subsistência, Moacir encontrou na recepção de viajantes uma fonte de estabilidade muito superior.
“Vinte anos na pesca. A gente pegava o peixe para vender e não dava nada, né? O turismo dá um pouco mais”, relata o morador durante o filme. A declaração é corroborada por Dona Dete, que relembra as dificuldades enfrentadas no passado antes da chegada consistente dos visitantes. Com a melhoria na infraestrutura local, a família consegue receber um número maior de pessoas com mais conforto.
De pescadores a anfitriões: Dona Dete e Seu Moacir viram sua realidade se transformar com a renda do turismo no oásis de Baixa Grande. (Crédito: Marcelo Bonifácio)
A percepção positiva ecoa em toda a cadeia de atendimento. O guia maranhense Marcelo Zelarayán aponta que a atividade estruturou as residências da comunidade e reforça que o grande diferencial da travessia reside na convivência com os habitantes locais. Do ponto de vista de quem contrata a expedição, o distanciamento do turismo de massa e a possibilidade de gerar impacto positivo direto motivam a escolha do roteiro.
Visitantes estrangeiros ouvidos no curta destacam que a experiência imersiva e autêntica permite compreender de forma clara como a permanência nas casas das famílias anfitriãs contribui para elevar o padrão de vida na região de maneira sustentável e equilibrada.
Em busca duma imersão autêntica e longe do turismo de massa, os viajantes franceses Morgane e Guillaume optaram pela clássica travessia a pé. (Crédito: Isadora Sá)
Ficha técnica e distribuição
O curta-documentário integra os esforços corporativos da plataforma para consolidar a tese de que a exploração de áreas naturais no Brasil deve priorizar a descentralização de recursos, unindo a preservação ambiental ao desenvolvimento socioeconômico das populações tradicionais.
O filme completo está disponível ao público na internet e pode ser acessado no canal oficial da organização no YouTube por meio do link youtu.be/ARcsjRoDLc3J0. Com duração de pouco mais de cinco minutos, o projeto conta com direção de Lucas Ribeiro, fotografia assinada por Isadora Sá e Marcelo Bonifácio, além de depoimentos de moradores, guias e turistas de diferentes nacionalidades.
Fonte:: diariopr.com.br


