Os recentes protestos por moradia na Espanha, as manifestações por melhor ensino na França e o expressivo crescimento da extrema direita em ambos os países, além da Alemanha, estão tensionando o cenário político europeu. Os governos centristas encontram-se acuados em meio a pressões fiscais severas, elevação no custo de vida, crises energéticas recorrentes e a necessidade urgente de ampliar investimentos em defesa, impulsionados pela ameaça russa e pelo enfraquecimento das alianças históricas com os Estados Unidos.
Para contextualizar o abismo econômico e estratégico entre as regiões, os países que compõem a União Europeia destinam, proporcionalmente aos seus respectivos PIBs, 50% a mais de recursos para o estado de bem-estar social do que os americanos. Por outro lado, os Estados Unidos investem 50% a mais do que os europeus no setor de defesa.
O impacto da política externa dos EUA na economia europeia
Ao colocar em xeque o compromisso norte-americano com a segurança coletiva do continente, Donald Trump forçou os aliados europeus a elevarem significativamente os gastos militares. Essa exigência coincidiu com um momento de profunda insatisfação popular com a qualidade dos serviços públicos e a carestia. O cenário econômico deteriorou-se ainda mais devido ao choque energético provocado pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, que culminou no fechamento estratégico do Estreito de Ormuz. As tarifas comerciais impostas pela gestão americana também desempenham papel central na escalada inflacionária.
Curiosamente, esse ambiente geopolítico turbulento tem gerado dividendos políticos para legendas europeias alinhadas ideologicamente com a direita americana. Entre os principais beneficiados estão o partido Vox na Espanha, o Reunião Nacional, liderado por Marine Le Pen na França, e a Alternativa para a Alemanha (AfD).
O paradoxo da imigração e o cenário eleitoral
Apesar da retórica adotada por esses grupos, a realidade econômica norte-americana após 20 meses de gestão republicana — marcada pela aplicação de políticas rigorosas contra a imigração — demonstra que o custo de vida não sofreu redução; pelo contrário, o problema se agravou. Mesmo diante desse retrospecto, os partidos de oposição na Europa persistem em culpar a imigração pelos desafios sociais enfrentados por suas nações. Economistas apontam, contudo, que populações europeias em rápido envelhecimento dependem fortemente da mão de obra estrangeira para sustentar os sistemas de previdência e manter a vitalidade econômica.
Entre as principais potências, a Espanha destacou-se por ser a única a recusar o aumento das metas de gastos militares para 5% do PIB. Em contrapartida, o país enfrentou recentemente uma grave crise migratória. Em julho, dezenas de milhares de pessoas cruzaram a fronteira marroquina em direção a Ceuta, enclave espanhol localizado no norte africano, gerando forte sobrecarga nos serviços públicos locais.
A situação política espanhola agravou-se ainda mais quando o Parlamento rejeitou propostas voltadas a conter os despejos de inquilinos, cenário que precipitou a convocação de eleições antecipadas para o dia 29 de novembro. As pesquisas de intenção de voto no país indicam um avanço expressivo do Vox.
No horizonte francês, o calendário eleitoral prevê pleitos entre os meses de abril e maio do próximo ano. Marine Le Pen surge atualmente no topo das preferências nas pesquisas de opinião, embora enfrente contestações judiciais decorrentes de sua condenação por desvio de recursos públicos do Parlamento Europeu. Enquanto isso, analistas observam que o eleitorado europeu continua a flertar com soluções de cunho populista que já demonstraram sinais de desgaste e ineficácia prática no contexto norte-americano, onde o partido governista também enfrenta forte desgaste político.
Fonte:: estadao.com.br


