Crise e protestos marcam reta final do governo de Emmanuel Macron na França

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Mark Landler (The New York Times)

O ocaso de uma promessa reformista

Enquanto milhares de estudantes do ensino médio saíam às ruas em um grito coletivo de revolta juvenil, o presidente Emmanuel Macron viajou para um navio da Marinha posicionado na costa da Bretanha. Do convés da embarcação, ele acompanhou o lançamento de um novo míssil balístico disparado a partir de um submarino francês movido a energia nuclear. O episódio ilustra bem as prioridades de sua gestão em um momento crítico, mantendo-se distante do epicentro da confusão política interna e delegando ao seu primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, a missão de conter a crescente insatisfação popular.

A cena sintetiza o balanço de quase dez anos de poder nos quais o governo não conseguiu sanar os problemas estruturais que afetam a economia e o sistema de previdência social da França. Prometidos como o carro-chefe de sua eleição em 2017, quando chegou ao poder aos 39 anos sob a alcunha de reformista ambicioso, os ajustes econômicos cristalizaram-se em uma crise sistêmica de proporções alarmantes.

Especialistas apontam que o líder francês não conseguiu cumprir as expectativas geradas no início de sua trajetória política. Faltando poucos meses para o encerramento do mandato, analistas avaliam que o atual chefe do Executivo caminha para ser lembrado não pelo ímpeto transformador que prometia, mas sim pelas dificuldades acumuladas ao longo de sua administração.

Insatisfação nas ruas e o fantasma da crise fiscal

Recentemente, as manifestações estudantis reuniram dezenas de milhares de pessoas em território francês para protestar contra salas de aula superlotadas, prédios escolares deteriorados e a escassez crônica de professores. O movimento, que se prolongou por semanas, reforça a imagem de um país mergulhado em forte agitação social.

Paralelamente, o cenário fiscal francês acende alertas severos entre economistas. Há o temor de que o país seja compelido a enfrentar o colapso de seu tradicional e generoso Estado de bem-estar social, o que poderia resultar em cortes severos nos benefícios públicos ou até mesmo em um eventual calote na dívida soberana.

Embora parte dessas fragilidades anteceda a gestão atual e tenha sido intensificada por fatores externos — como a pandemia de coronavírus e os conflitos geopolíticos no Oriente Médio e na Europa oriental, que pressionaram a inflação e desorganizaram os orçamentos públicos —, críticos sustentam que a falta de articulação política e os reiterados erros de cálculo do governo impediram avanços estruturais consistentes.

Promessas econômicas e o estigma do “presidente dos ricos”

Ex-banqueiro de investimentos e ex-ministro da Economia, Macron assumiu o Palácio do Eliseu com a bandeira de revitalizar o setor produtivo por meio da desoneração fiscal para empresas e contribuintes de alta renda, flexibilização das leis trabalhistas e reformulação das regras de aposentadoria. O objetivo declarado era fomentar uma cultura empreendedora e resgatar a atratividade da França para investidores internacionais.

Se a flexibilização trabalhista e os incentivos corporativos avançaram, o mesmo não ocorreu com a coesão social. A tentativa de elevar a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos gerou protestos furiosos em todo o país. Posteriormente, com a perda da maioria governista na Assembleia Nacional, os parlamentares acabaram aprovando a suspensão da medida diante da intensa pressão popular.

Em paralelo, a abolição de impostos voltados para as camadas mais ricas da população rendeu-lhe a alcunha pejorativa de “presidente dos ricos”. O descontentamento ganhou tração durante o movimento dos “Coletes Amarelos”, que paralisou o país em protesto contra o encarecimento do custo de vida e o preço dos combustíveis, aprofundando o fosso entre a elite econômica e o restante da população.

O peso do Estado e os desafios geopolíticos

Apesar das turbulências, a França mantém características econômicas muito particulares em comparação a outras potências ocidentais. Os gastos públicos continuam a absorver mais da metade da produção econômica total do país, situando-se entre os maiores patamares da União Europeia. Como reflexo, a dívida pública projetada para os próximos anos coloca o país em uma posição delicada em relação a seus pares no bloco europeu.

No cenário internacional, contudo, analistas reconhecem o protagonismo do mandatário francês ao insistir na tese de que o continente europeu deveria assumir maior responsabilidade pela própria segurança. A defesa histórica de uma “autonomia estratégica” frente aos Estados Unidos, inicialmente recebida com ceticismo, ganhou contornos de urgência diante das pressões geopolíticas recentes e das divergências sobre a arquitetura de segurança da Otan.

Legado em aberto e o avanço da extrema direita

Com índices de aprovação em patamares historicamente baixos e uma sucessão de derrotas eleitorais — incluindo o revés nas eleições europeias que motivou a convocação mal-sucedida de eleições legislativas antecipadas —, o governo viu sua margem de manobra legislativa minguar drasticamente.

À medida que o país lida com a instabilidade orçamentária e o risco de novos sobressaltos nos mercados financeiros, o tabuleiro político francês observa o fortalecimento da oposição, especialmente de nomes ligados à extrema direita, intensificando o debate sobre o futuro do centro político no país e a consolidação do legado deixado por uma década de governo.

Fonte:: estadao.com.br

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