Freira que fala português lidera rede de proteção a latinos contra o ICE nos Estados Unidos

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Daniel Gateno

Uma religiosa católica e ativista tornou-se uma das principais referências na defesa da comunidade latina em Pittsburgh, na Pensilvânia, diante do endurecimento das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) durante a gestão de Donald Trump.

A irmã Janice Vanderneck está à frente da Casa San José desde 2013, prestando suporte contínuo a imigrantes latino-americanos. O projeto, que inicialmente oferecia apenas aulas de inglês e atividades para jovens, expandiu suas frentes de atuação para incluir assistência jurídica e equipes dedicadas a monitorar as ações do ICE após o retorno de Donald Trump à presidência americana.

“A forma como o nosso país trata os imigrantes vai contra a doutrina social católica”, declarou a irmã Janice. Segundo ela, as diretrizes governamentais têm humilhado essas populações, submetendo-as a detenções e deportações para destinos inesperados, inclusive países africanos.

A ligação da ativista com a América Latina vem de seu histórico como missionária em diversos países, incluindo o Brasil, experiência que lhe permitiu fluência em português e espanhol. O escopo da instituição cresceu exponencialmente diante do cenário político atual, surpreendendo a própria fundadora com a gravidade das medidas adotadas.

Assistência abrangente a imigrantes sem documentação

A Casa San José integra a rede de entidades voltadas para o apoio a imigrantes em situação de vulnerabilidade jurídica. O trabalho da freira recebe reconhecimento de lideranças locais, como Kate Garfinkel, dirigente do Partido Democrata no Condado de Allegheny, que destacou a firmeza da ativista em sua atuação comunitária.

Entre as iniciativas da organização estão a articulação de tutelas temporárias para menores cujos pais foram deportados e a realização de treinamentos preventivos com famílias latinas para orientá-las sobre como agir diante de abordagens do ICE.

Voluntários da associação também visitam centros de detenção para mapear o paradeiro de detidos e viabilizar consultas jurídicas que ajudem a avaliar possibilidades de liberação. O suporte humanitário também engloba distribuição de alimentos e auxílio financeiro para o pagamento de aluguéis em casos de remoção do principal provedor do lar.

Acolhimento para quem não domina o idioma inglês

O atendimento prioriza migrantes que enfrentam barreiras linguísticas. Embora a maior parte da demanda venha originalmente de países como México, Guatemala e El Salvador, a instituição registrou um aumento expressivo de venezuelanos e brasileiros — estes últimos oriundos sobretudo de Minas Gerais e Goiás.

A freira critica a generalização feita pelo governo federal ao classificar diferentes perfis migratórios sob um mesmo rótulo de ilegalidade, equiparando pessoas que ingressaram sem autorização àquelas com processos de asilo em andamento.

“Muitas pessoas com documentação de asilo regularizada e autorizações de trabalho temporárias são surpreendidas e detidas pelo ICE”, aponta. Para esses casos, a entidade atua na busca por assistência jurídica especializada e suporte financeiro para tentar reverter as prisões.

Operação de equipes de resposta rápida

Diante das operações frequentes de fiscalização, a entidade formou um núcleo de resposta rápida acionado por imigrantes via telefone para acompanhar batidas do ICE.

Os voluntários têm a função de documentar as abordagens com telefones celulares — prática permitida por lei — e coletar dados sobre o destino dos detidos, sem interferir diretamente na ação dos agentes federais.

O ativista Carlos Mora participa de um protesto no Centro Correcional de Moshannon Valley, uma instalação do ICE na Pensilvânia

Outras organizações, como a PA United, também mantêm redes de monitoramento. Carlos Mora, diretor da associação em Erie, no noroeste da Pensilvânia, ressalta que o trabalho é restrito a cidadãos americanos por razões de segurança. “A premissa é de que todos possuem direitos constitucionais nos EUA, independentemente do status migratório”, afirma.

A linha de atendimento funciona em período integral, recomendando-se que os imigrantes circulem sempre portando documentos de identificação e aparelhos celulares.

Carlos Mora, ativista da PA United, participa de um evento em Erie, Pensilvânia

Crescimento das deportações e novos destinos

A administração federal sustenta que o foco das operações recai sobre indivíduos em situação irregular com antecedentes criminais. No entanto, relatos de ativistas apontam para remoções direcionadas a diversos países da América Latina e, em alguns casos, para nações africanas como Uganda, Gana e Libéria, gerando barreiras burocráticas severas para a repatriação.

O clima de apreensão tem esvaziado as ruas e isolado parte da comunidade, que passou a recorrer a ferramentas digitais para participar das atividades da Casa San José.

O ativista Carlos Mora conversa com imigrantes latinos, em Erie, Pensilvânia

Impacto sobre a comunidade haitiana

Além dos hispânicos, imigrantes do Haiti enfrentam forte pressão migratória, com destaque para a localidade de Springfield, Ohio. Cerca de 15 mil haitianos residiam na região sob o amparo do Status de Proteção Temporária (TPS).

Após a revogação do benefício pelo governo e sua validação pela Suprema Corte em meade de 2026, que afetou centenas de milhares de pessoas, o ICE intensificou as operações de captura e expulsão dessa parcela da população.

Trabalhadores haitianos relatam que a prioridade das autoridades tem sido inflar estatísticas de detenção sem uma análise prévia aprofundada dos registros legais dos indivíduos abordados.

Posicionamento político e demandas do mercado de trabalho

Setores conservadores apoiam o endurecimento das diretrizes. Mat Dole, líder do Partido Republicano no condado de Licking, argumenta que o cumprimento rigoroso da legislação é necessário para conter o fluxo irregular nas fronteiras com o México, contando com ampla aprovação entre sua base partidária, embora pesquisas apontem divisão na opinião pública geral.

Mat Dole, líder do Partido Republicano no condado de Licking, foi entrevistado pela reportagem do Estadão

Em contrapartida, sindicatos e representantes de áreas essenciais destacam a forte dependência da economia americana em relação à mão de obra estrangeira. Silas Russell, dirigente do SEIU Healthcare PA, aponta que a escassez de profissionais afeta diretamente o sistema de saúde e serviços de assistência a idosos e enfermos.

A atuação social da irmã Janice continua a lidar diretamente com os riscos enfrentados por esses trabalhadores em atividades de alta periculosidade e baixa remuneração, reforçando a urgência do debate sobre os direitos e o futuro dos imigrantes no país.

Fonte:: estadao.com.br

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