Pela primeira vez na história do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os participantes que possuem histórico de crises de ansiedade intensa ou Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) passam a ter o direito de contar com a presença de um acompanhante ou de um cão de apoio emocional durante a realização das provas. A medida representa um avanço significativo nas políticas de inclusão do exame, buscando garantir um ambiente mais seguro e acolhedor para estudantes que enfrentam barreiras emocionais e psicológicas.
Para ter acesso a esse suporte, o atendimento especializado precisou ser rigorosamente solicitado no ato da inscrição e devidamente aprovado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão federal responsável pela elaboração e aplicação do exame educacional.
Conforme as diretrizes estabelecidas no edital desta edição, a iniciativa inovadora também abrange outras ocorrências de alterações emocionais. O regulamento determina que o acompanhante autorizado permaneça alojado em uma sala reservada, estritamente monitorada por fiscais de prova, ficando à disposição para intervir em situações que exijam apoio imediato ou a estabilização emocional do candidato.
O ministro da Educação, Leonardo Barchin, enfatizou em entrevista recente a importância fundamental de viabilizar a presença de um familiar de apoio durante a maratona de avaliações.
“Se tiver o laudo adequado e a solicitação aprovada, se esse candidato, por exemplo, precisar ir ao banheiro, se houver outra necessidade, terá um acompanhante familiar. Este apoio emocional é muito importante”, declarou o ministro.
Barchin também reforçou o compromisso da pasta com a acessibilidade universal: “O Enem deve ser acessível e cada vez mais inclusivo. Todos os anos, a gente evolui nessa questão.”
A etapa de aplicação conta com um volume expressivo de 138.329 solicitações de atendimento especializado validadas pelo Inep. Outra inclusão relevante no perfil dos atendimentos deste ano é a inserção de candidatos diagnosticados com fibromialgia no rol de condições que dão direito ao suporte especializado e a recursos diferenciados de acessibilidade.
Acolhimento na prática
Entre os milhares de inscritos que necessitam de suporte diferenciado está Maria Clara Gonçalves, de 18 anos, residente no município de Cotia, em São Paulo. Aluna do último ano do ensino médio, ela convive com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O diagnóstico tardio chegou entre os 14 e 16 anos, impulsionado pelas barreiras evidentes que enfrentava na rotina de estudos.
Para a estudante, o formato ideal de avaliação para pessoas com o mesmo perfil envolve salas com menor densidade de candidatos, o que reduz drasticamente os estímulos visuais e sonoros prejudiciais à concentração.
“Para mim, como neurodivergente, é muito difícil estar em uma sala com outras pessoas ao meu lado, porque eu estou olhando, presto atenção no que estão falando. Gosto de ter salas com menos pessoas. Pessoas que também tem TDAH vão entender”, relata a jovem, que pretende cursar medicina e futuramente se especializar em neurologia.
Histórias semelhantes mostram que o desafio não é recente. Em 2017, Isabella Magalhães, hoje com 25 anos, realizou o exame sob condições especiais após receber o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em nível 2. Aos 16 anos, ela lembra que o maior obstáculo esteve longe de ser o conteúdo programático, mas sim a exaustão provocada pelo ambiente lotado e ruidoso.
“Acho muito importante o governo estar sensível a essa questão e olhar para esse público, porque afeta muito nossa experiência. Nem é a dificuldade só da prova, que é difícil para todo mundo, mas do ambiente, do tempo que você fica lá dentro. Então acho que é importante adaptar a prova”, pontua Isabella, que atualmente divide o tempo entre a preparação para concursos públicos e o planejamento de uma nova graduação em biologia.
Orientações de especialistas
Especialistas da área educacional reforçam que a preparação mental é tão importante quanto o domínio do conteúdo. Giselle de Oliveira Araújo, psicopedagoga, especialista em educação especial e coordenadora de uma clínica especializada no Rio de Janeiro, aponta que o cérebro humano tem enorme plasticidade, mas exige um ambiente favorável.
“Minha mensagem é que esses estudantes não precisam funcionar como os outros para demonstrar o que sabem. Precisam conhecer suas necessidades e utilizar estratégias que realmente os ajudem”, destaca a profissional.
A especialista esclarece que a autorregulação funciona de maneiras distintas dependendo do perfil neurológico do estudante. Enquanto adolescentes com TDAH podem demandar pequenas pausas ou micro-movimentos corporais para resgatar o foco, alunos no espectro autista frequentemente necessitam de recursos específicos para filtrar ruídos e excessos sensoriais.
Como recomendação prática para o momento da avaliação, a psicopedagoga sugere uma série de manobras simples que ajudam a restabelecer o equilíbrio:
- apoiar firmemente os pés no chão;
- sentir o contato físico com a cadeira;
- relaxar a musculatura dos ombros;
- realizar alongamentos leves nas mãos;
- ajustar a postura corporal;
- praticar a respiração lenta e controlada.
Segundo ela, não existe uma fórmula rígida de tempo para pausas. O estudante deve aprender a identificar os sinais clássicos de fadiga cognitiva, como a leitura repetida de um mesmo enunciado ou a perda de linha de raciocínio, utilizando simulados prévios para testar essas abordagens.
“O importante é experimentar essas estratégias antes do exame, respeitando as preferências de cada estudante. Não adianta ensinar uma técnica na hora da prova se ele nunca a utilizou ou se ela provoca desconforto”, conclui.
Panorama do atendimento especializado
Dados consolidados do Painel Enem 2026 evidenciam quais condições médicas e funcionais lideram os pedidos de atendimento:
- Déficit de atenção (51.724 solicitações, representando 37,39% do total);
- Transtorno do Espectro Autista (34.723 registros, equivalente a 25,1%);
- Baixa visão (9.792 candidatos, o que corresponde a 7,04%);
- Deficiência intelectual (8.922 pedidos, atingindo 6,45%).
No tocante aos recursos de acessibilidade solicitados durante o preenchimento do cadastro, destacam-se a concessão de tempo adicional para a execução das provas, com 77.956 pedidos (34,47%); a correção diferenciada de redação e questões, somando 42.379 registros (18,74%); e o auxílio para leitura, contabilizado em 28.042 ocorrências (12,40%).
O painel de monitoramento oficial também disponibiliza estatísticas sobre salas acessíveis, auxílio para transcrição de respostas, provas impressas em braile, atuação de tradutores-intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras), além de autorizações para o uso de aparelhos auditivos e implantes cocleares.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br



