BERLIM — Na última semana, autoridades de alto escalão de 40 países se reuniram virtualmente para discutir estratégias de retomada do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. Durante a reunião, o ministro das Relações Exteriores da Itália apresentou uma proposta que visava estabelecer um “corredor humanitário” para permitir a passagem segura de fertilizantes e outros produtos essenciais destinados a países em situação de vulnerabilidade econômica.
Essa proposta foi uma entre várias iniciativas apresentadas por líderes europeus e de outras partes do mundo, com o objetivo de prevenir que a guerra no Irã resulte em uma crise de fome generalizada. Entretanto, a sugestão não recebeu o apoio necessário dos participantes, e a reunião se encerrou sem um plano concreto para reabertura do estreito, seja por meio de ações militares ou alternativas.
Os líderes europeus têm enfrentado pressões significativas do presidente dos EUA, Donald Trump, para que comprometem ativos militares visando encerrar o bloqueio iraniano no estreito. Além disso, a pressão se intensifica em meio a uma crise energética e econômica crescente em escala global. Apesar das solicitações para o envio imediato de navios de guerra, os líderes europeus se mostraram cautelosos e preferiram debater sobre como auxiliar na desobstrução da rota marítima assim que a guerra tenha um fim.
Observa-se uma dificuldade em estabelecer um plano de ação coeso. Esse cenário reflete, em parte, o ritmo lento da diplomacia na Europa e a diversidade de interesses entre as nações, incluindo estados do Golfo Pérsico, que também desejam garantir a segurança do estreito após o conflito. Entre as nações que participaram das discussões, como Itália e Alemanha, há um consenso de que qualquer esforço internacional deve ter a aprovação das Nações Unidas, o que pode ainda prolongar as medidas a serem tomadas. As lideranças militares planejam retomar as discussões em reuniões programadas para a próxima semana.
A complexidade de assegurar a segurança no estreito em tempos de frágil estabilidade é um desafio tanto para a Europa quanto para outras nações. Nenhuma das opções disponíveis atualmente para Europa, estados do Golfo e outros países é totalmente confiável, mesmo sob a suposição de que os combates principais tenham cessado.
Opção 1: Escoltas navais
O PLANO: Autoridades francesas, incluindo o presidente Emmanuel Macron, levantaram a proposta de que navios franceses possam auxiliar na escolta de embarcações mercantes pelo estreito após a guerra. Além disso, autoridades dos EUA têm incentivado europeus e aliados, como o Japão, a oferecerem escolta para navios que naveguem sob suas respectivas bandeiras.
O OBSTÁCULO: Escoltas navais são operações onerosas, e seus sistemas de defesa aérea podem não ser suficientes para barrar ataques mais sofisticados, como os realizados por drones, caso o Irã decida atacar novamente. O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, questionou recentemente o que se poderia esperar de um pequeno número de fragatas europeias em comparação à força da Marinha Americana.
Opção 2: Varredura de minas
O PLANO: Autoridades da Alemanha e da Bélgica, entre outras, manifestaram disposição para enviar embarcações de guerra para desminar o estreito, limpando-o de explosivos após os conflitos.
O OBSTÁCULO: Líderes militares ocidentais não estão convencidos de que o Irã tenha realmente minado o estreito, uma vez que ainda há tráfego de navios iranianos na área. Assim, mesmo que os caça-minas sejam mobilizados em conjunto com a escolta naval, sua eficácia pode ser limitadíssima.
Opção 3: Apoio aéreo
O PLANO: A proposta de enviar caças e drones para interceptar possíveis ataques aéreos iranianos contra navios está sendo debatida, com pressão dos EUA sobre a Europa para a adoção dessa estratégia.
O OBSTÁCULO: Assim como as outras opções, essa também envolve altos custos e a eficácia não é garantida, dado que o Irã pode realizar ataques com equipes reduzidas em lanchas rápidas. Mesmo que apenas algumas tentativas tenham sucesso, isso pode causar receios em seguradoras e armadores, levando-os a evitar a passagem pelo estreito.
Opção 4: Diplomacia reforçada
O PLANO: A ideia é alavancar negociações e pressão econômica para persuadir o Irã a evitar ataques futuros, utilizando uma variedade de meios militares para garantir que tais compromissos sejam cumpridos. Essa abordagem também envolveria a colaboração global. Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha fez um apelo à China, solicitando que a nação utilize sua influência junto ao Irã de forma construtiva para auxiliar no término das hostilidades.
O OBSTÁCULO: Este plano é caro e seu sucesso é incerto. As negociações até agora têm sido ineficazes em interromper os combates. Contudo, é uma opção que pode representar a melhor chance da Europa, dado a falta de alternativas viáveis.
E se nada disso funcionar?
Autoridades iranianas informaram na última semana que pretendem continuar controlando o tráfego pelo estreito após o conflito. Já anunciaram planos de instituir um pedágio para navios que passam pela região, um ponto que contradiz o direito internacional que exige uma via navegável livre.
A manutenção de um bloqueio representa um risco de desastre econômico para a economia global, uma vez que muitos países dependem do tráfego pelo estreito para obter combustível e fertilizantes, entre outros insumos essenciais. Em diversas localidades, a escassez já é iminente. Em contextos como o europeu, os preços elevados de petróleo, gás e fertilizantes exacerbam temores de inflação descontrolada e colapso do crescimento econômico.
“A grande ameaça agora é a estagflação”, afirma Hanns Koenig, diretor administrativo da Aurora Energy Research, uma consultoria em Berlim. “Nós temos preços em alta, e isso sufoca o pequeno crescimento que poderíamos visualizar este ano.”
Fonte:: estadao.com.br




