Aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) enfrentam um obstáculo inédito e burocrático para acessar o crédito consignado, uma das principais fontes de empréstimo para essa parcela da população. Uma mudança na sistemática de segurança, que impõe um bloqueio automático mensal dos benefícios, está travando as contratações. O resultado é uma queda estimada em mais de 50% no volume de empréstimos nesta modalidade e, em um efeito colateral grave, a busca forçada por créditos pessoais com taxas de juros significativamente mais altas.
A medida, que começou a valer em novembro do ano passado e foi intensificada em 2026, determina que, após o fechamento da folha de pagamento (a “maciça”, entre os dias 15 e 17 de cada mês), todo benefício fica automaticamente bloqueado para novas operações de crédito. Para desbloquear, o beneficiário precisa, todo mês, acessar o aplicativo Meu INSS, realizar com sucesso uma verificação por biometria facial e só então solicitar a liberação.
Na teoria, um procedimento de segurança. Na prática, uma barreira intransponível para muitos. O público-alvo do consignado, em sua maioria idoso, esbarra na falta de familiaridade com tecnologia, na posse de celulares antigos e na dificuldade em realizar a biometria. Somado a isso, o próprio sistema do INSS não tem suportado a demanda massiva.
“É um cenário desolador. O direito ao crédito existe, a margem está lá, especialmente após o reajuste de janeiro, mas o acesso está travado por uma ferramenta que não funciona como deveria”, explica um especialista do setor financeiro, que pediu para não ser identificado. Relatos se multiplicam: beneficiários tentam por dias ou semanas, madrugam tentando acessar o aplicativo e, no fim de janeiro, entre os dias 27 e 31, o sistema ficou parcialmente inoperante, agravando a crise.
Consequências severas: busca por crédito mais caro
O crédito consignado do INSS é uma linha vital para milhões de brasileiros. Tem juros limitados (atualmente em torno de 1,85% ao mês), prazos longos e é descontado diretamente do benefício, oferecendo segurança tanto para quem contrata quanto para quem concede. Com o bloqueio, esse acesso seguro ficou mais delicado.
A consequência imediata, segundo agentes do mercado, é uma queda abrupta superior a 50% nas contratações em um período que tradicionalmente é de alta demanda, devido a despesas de início de ano e ao aumento da margem consignável com o reajuste.
A consequência mais grave, porém, é o endividamento precário. Impacientes e necessitados, muitos aposentados e pensionistas estão sendo obrigados a buscar alternativas mais caras e perigosas: empréstimos pessoais com desconto em conta corrente (que têm juros muito superiores) e, em casos extremos, até o recurso a agiotas.
Embora essa mudança de desbloqueio mensal através da biometria facial tenha sido concebida para proteger, a regra acaba produzindo efeitos que ampliam a exposição do público mais vulnerável a riscos financeiros”, afirma Gisele, responsável pela unidade do Paraná Banco e Araucária.
INSS assume a responsabilidade do congestionamento do aplicativo
É importante esclarecer que bancos e correspondentes não têm controle sobre o bloqueio. A decisão e a manutenção do sistema são de responsabilidade exclusiva do INSS. Procurado, o Instituto reforçou que a medida visa a proteção contra fraudes, mas reconhece que a infraestrutura tecnológica enfrenta desafios com a nova demanda. Atualizações foram prometidas, mas os transtornos continuam.
Agências bancárias e unidades do INSS vivem dias de filas e frustração, com beneficiários buscando uma solução que os atendentes não podem fornecer, pois o desbloqueio é 100% digital e pessoal.
Apoio local em meio ao caos

Diante do cenário crítico, algumas empresas estão tentando amenizar o impacto. Em Araucária (PR), a filial do PB Consignado – Paraná Banco (Av. Archelau de Almeida Torres, 1236, Iguaçu) está oferecendo apoio gratuito aos beneficiários. A equipe auxilia no acesso ao Meu INSS, na realização da biometria facial e na regularização do desbloqueio, além de orientar sobre simulação e contratação quando o sistema libera.
“Nosso objetivo é evitar que, na desesperança, as pessoas recorram a créditos com juros elevados, pois, o consignado é a taxa mais baixa do mercado, devido convênio com INSS, para desconto e folha, ou seja, todo beneficiário INSS tem direito a esse crédito mais acessível. Queremos ajudá-las a exercer um direito que já é delas, da forma mais segura e barata possível”, disse Gisele (contatos: 41 4114-0674 e 3500-7788).
Alerta aos beneficiários
Enquanto a situação não se normaliza, o conselho dos especialistas é claro:
· Paciência e persistência: Continue tentando o desbloqueio pelo Meu INSS.
· Desconfie de atalhos: Ninguém pode “liberar” seu crédito fora do sistema oficial. Desconfie de promessas milagrosas.
· Busque ajuda: Procure instituições sérias para auxílio com o procedimento digital, como a iniciativa citada em Araucária.
· Evite o desespero: Avalie com extremo cuidado qualquer alternativa de crédito com juros altos. A proteção do consignado existe por um motivo.
A proteção contra fraudes é legítima e necessária, mas precisa andar de mãos dadas com a eficiência e acessibilidade. Quando a barreira de segurança se transforma em um muro intransponível para quem mais precisa, é urgente reavaliar os meios, para não anular o fim.