Ao longo dos 250 anos de história dos Estados Unidos, a noção do que era ser republicano e democrata mudou muito. O Partido Republicano de Abraham Lincoln não é o mesmo de Donald Trump, assim como os democratas da época de Woodrow Wilson são muito diferentes dos progressistas de hoje em dia.
O pêndulo político das regiões americanas também se modificou. Estados como Califórnia e Nova York, que são bastiões do Partido Democrata, eram redutos republicanos quando a legenda era liderada por Lincoln. Já o sul dos EUA votava majoritariamente no Partido Democrata até os anos 60, quando gravitou para os republicanos.
“Os partidos mudaram muito durante a história americana”, destaca Paul Fryman, historiador da Universidade de Princeton. “Já ouvi o próprio Trump dizer que o Partido Democrata é o partido do Ku Klux Klan e, de fato, a legenda chegou a representar isso no passado, enquanto os republicanos eram os abolicionistas. Tudo isso já ficou para trás há muito tempo”.
Os principais polos econômicos americanos também se modificaram. No período pós-2ª Guerra Mundial, os americanos saíram do sul e do oeste em direção a Estados como Nova York, Pensilvânia e Massachusetts, que faziam parte do nordeste americano, e para Estados do centro-oeste, como Illinois, Michigan, Minnesota e Wisconsin.
Mas na última década, a história mudou. Estados do sul estão crescendo, enquanto outros Estados mantiveram a população ou decresceram. A mudança deve solidificar uma transformação de poder regional e o domínio dos partidos nas regiões americanas será impactado mais uma vez.
“Existe uma transformação demográfica acontecendo”, destaca Doug Sosnik, consultor político democrata que acompanha de perto as mudanças sociais e políticas dos Estados Unidos. “Pode ser que o Texas vire mais democrata por conta das pessoas que estão mudando para lá. O Tennessee, que hoje é um sólido Estado republicano, pode mudar de lado daqui uns 40 anos”.
Partido Democrata: o Início escravocrata
Entre mudanças ideológicas e regionais, o Partido Democrata está presente na história americana desde os primórdios.
A legenda surgiu como uma facção do antigo Partido Democrata-Republicano nos anos 1790 e se tornou um partido oficial em 1828, durante a campanha presidencial de Andrew Jackson, que iniciou seu mandato como presidente no ano seguinte.
Os democratas conseguiram se tornar o partido majoritário nos EUA até a época da Guerra Civil, em 1861, com uma coalizão que contava com votos do eleitorado branco no sul dos EUA e membros da classe trabalhadora no norte do país.
“Os Democratas eram o partido do eleitor comum naquela época, que era o homem branco, tanto no Norte quanto no Sul”, aponta Michael Kazin, professor do Departamento de História da Universidade de Georgetown e autor do livro What It Took to Win: A History of the Democratic Party.
De acordo com ele, a legenda se dividiu em 1860 em torno da questão da escravidão. O democratas do sul queriam a manutenção do modelo escravocrata, enquanto o norte apoiava certas restrições. “Essa divisão foi um dos fatores que levaram à eleição de Abraham Lincoln para a presidência em 1860”.
A Guerra Civil Americana é centrada neste tema. Os chamados Estados Confederados, que estavam todos no sul dos EUA, queriam continuar com o sistema escravista, enquanto o norte liderado por Lincoln queria a abolição.
Após o fim do conflito, em 1865, com a abolição já aprovada, os democratas se unificaram novamente, mas perderam o status de partido majoritário dos EUA. A legenda seguiu com o apoio dos brancos no sul e no norte do país, enquanto a classe trabalhadora industrial gravitou para os republicanos.
Em 1896 o partido começa a ter mais posições progressistas, defendendo mais regulações na economia e políticas favoráveis aos sindicatos. O presidente democrata Woodrow Wilson venceu as eleições de 1912 com uma plataforma mais regulatória.
Apesar disso, existiam contradições. Enquanto o progressismo tomava conta do partido no norte, os brancos do sul que defendiam a escravidão continuam votando nos democratas.
“Os democratas ainda eram o partido da segregação, apesar das políticas progressistas”, diz Kazin. “Nenhum político importante ousava modificar essa coalizão com os brancos do sul”.
O grande movimento democrata em relação a políticas mais regulatórias e progressistas ocorreu após a chamada Grande Depressão, em 1929, quando houve a quebra da Bolsa de Valores de Nova York e a maior crise econômica do período da industrialização.
Na época, os EUA eram governados por Herbert Hoover, um republicano, e foram culpados pelo colapso.
“Os democratas conseguiram se apresentar como o partido que resgataria os americanos da Grande Depressão”, aponta o professor da Universidade de Georgetown.
New Deal
O conjunto de políticas para salvar os americanos do colapso econômico é chamado de New Deal. Essas medidas implementadas pelo presidente Franklin Roosevelt visavam ajudar os americanos que tinham perdido o emprego, estimular a economia e mudar as regras do sistema econômico, com mais regulações para evitar crises.
Essa plataforma ficou muito popular, principalmente por conta da redução do desemprego e o estabelecimento de benefícios sociais e aposentadoria por conta do chamado Social Security Act of 1945, que criou um sistema de pensões para trabalhadores idosos, forneceu seguro-desemprego temporário e assistência social.
Roosevelt foi eleito quatro vezes devido a aceitação do eleitorado e os democratas foram impulsionados nas décadas seguintes por essas políticas.
Naquele momento, os brancos do sul seguiam com o Partido Democrata, apesar do claro contraste entre o segregacionismo da região sulista e o progressismo do partido no resto do país.
Essa coalizão só começa a ser quebrada com o presidente John F. Kennedy, que ressalta o seu desejo de acabar com o sistema legal das leis de Jim Crow, que promovia a segregação racial nos Estados do sul dos EUA. Kennedy é morto antes de o Congresso acabar com Jim Crow, mas seu sucessor, Lyndon Johnson, consegue aprovar a medida em 1964.
“Os brancos do sul começaram a se distanciar dos democratas em meados da década de 60, quando o Congresso controlado pelo partido aprova a Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei do Direito ao Voto de 1965”, destaca Kazin. “Essas são as leis mais importantes dos direitos civis na história americana. Após a aprovação, os brancos do sul acreditam que o Partido Democrata preferiu os negros em detrimento deles”.
Nas eleições presidenciais de 1964, o candidato republicano Barry Goldwater percebe essa ruptura e lança uma plataforma que se opõe à Lei dos Direitos Civis e à Lei do Direito ao Voto. Ele perde o pleito para Johnson, mas vence em diversos Estados sulistas, iniciando a proximidade do Partido Republicano com o sul dos EUA.
Depois de Lyndon Johnson, os democratas só tiveram um presidente da chamada “era do New Deal”: o sulista Jimmy Carter, que governou os EUA de 1977 a 1981. Ele não conseguiu ser reeleito por conta da alta inflação, elevados preços de energia e uma crise de imagem devido a Revolução Iraniana de 1979 e a situação dos reféns na embaixada americana em Teerã.
O centrismo de Bill Clinton e o progressismo atual
O Partido Democrata só retornou ao poder com Bill Clinton, em 1992, depois de dois mandatos do republicano Ronald Reagan e um de George H. W. Bush.
Clinton não representava mais os democratas do New Deal e lançou uma plataforma centrista que seduziu os eleitores. Ele também reduziu a ruptura do sul com o Partido Democrata por ser natural do Arkansas.
O democrata teve uma política econômica mais pragmática e aprovou acordos de livre-comércio, como o NAFTA, com México e Canadá.
“Depois de três governos republicanos, os democratas começaram a debater como seria possível ganhar de novo e Clinton apareceu com uma plataforma mais centrista”, avalia o professor da Universidade de Georgetown.
A presidência de Clinton foi marcada por escândalos extra-conjugais, mas o líder americano encerrou seu mandato com certa popularidade. Al Gore, que era seu vice-presidente, perdeu para George W. Bush, e os democratas retornaram ao poder apenas em 2008, com Barack Obama.
Obama conseguiu energizar uma base jovem e progressista que estava cansada dos republicanos depois da crise econômica de 2008. Ele aprovou o chamado Obamare, que ampliou o acesso aos planos de saúde e tomou decisões importantes relacionadas às mudanças climáticas e aos direitos da comunidade LGBT.
“Sob Clinton, Obama e Biden, o partido se consolidou com uma base de eleitores mais instruídos, que apoiam os direitos LGBT e o aborto e vivem nas cidades e nos subúrbios”, destaca Kazin. “O partido também passa a ter uma presença cada vez maior de latinos e negros e menos de brancos”.
Partido Republicano: de Lincoln a Reagan
Já o Partido Republicano foi fundado em 1854, com uma plataforma de oposição a expansão da escravidão e um projeto de desenvolvimento econômico que buscava a criação de ferrovias e a expansão industrial.
Abraham Lincoln foi o primeiro expoente do partido. Ele venceu as eleições presidenciais de 1860 e liderou os EUA durante a Guerra Civil Americana.
Ao longo das décadas, a legenda seguiu se destacando por suas políticas pró-indústria e a defesa de uma economia sem regulações.
Essa política foi um problema durante o governo de Herbert Hoover e a Grande Depressão econômica.
“A ausência de regulações na economia é nítida na época da Grande Depressão. Os republicanos eram contra qualquer controle da economia”, aponta Paul Frymer, historiador da Universidade de Princeton.
Os republicanos entram na era do New Deal, mas continuam sendo um partido pró-mercado. A legenda dá uma guinada conservadora durante a candidatura de Barry Goldwater em 1964 e passa a captar os votos do sul do país.
O partido segue se opondo à chamada coalizão New Deal, mas de forma tímida por conta da popularidade da coalizão democrata. No fim dos anos 70, com a crise econômica do governo Carter, um candidato chamado Ronald Reagan mudou o cenário para os republicanos.
“Carter é o último democrata da era New Deal e Reagan entra em cena com uma postura ousada”, diz Fryman. “Ele defende os mesmos princípios do Partido Republicano que Herbert Hoover defendia e consegue avançar na agenda anti-regulamentação, corte de impostos e menos intervenção do Estado na economia”.
Da era Bush a Donald Trump
O partido seguiu na mesma toada em sua plataforma econômica e de política externa durante os governos de George H. W. Bush, de 1989 a 1993, e George W. Bush, de 2000 a 2008.
Mas o Partido Republicano na década de 2000 era mais diverso e acomodava mais pessoas do que nos anos 80, segundo Fryman.
“Naquela época, havia a ideia de que os Republicanos precisavam abraçar a crescente população latina nos EUA e adotar uma postura mais branda ou de maior apoio aos direitos civis de modo geral”, destaca o professor da Universidade de Princeton. “Obama vence em 2008 derrotando John McCain, que era bastante moderado em questões de direitos civis”.
Após o início do governo Obama, em 2009, a legenda passou por uma revolução, que balançou o pêndulo do partido ainda mais para a direita e modificou as elites republicanas.
Esse movimento preparou o terreno para um outsider populista liderar as primárias presidenciais republicanas em 2015: o empresário Donald Trump.
O atual presidente americano chegou nas primárias como um pária. Ele criticou as guerras intervencionistas capitaneadas pelo Partido Republicano, acordos de livre-comércio e a família Bush, mas conseguiu angariar apoio e surpreender o establishment da legenda.
“Trump recebeu o apoio do Tea Party, dos cristãos evangélicos e conseguiu reunir uma coalizão de brancos da classe trabalhadora do Norte”, aponta Fryman. “Ele roubou esses votos do Partido Democrata e venceu em 2016 quando ninguém esperava”.
O republicano foi capaz de captar a insatisfação de muitos eleitores americanos com a globalização e o sistema migratório dos Estados Unidos. Ela criou um movimento chamado MAGA (Make America Great Again), que expandiu a base do Partido Republicano.
Mudanças demográficas
Essa base republicana moderna consiste em um flanco da classe trabalhadora do norte e do eleitorado branco sulista.
Mas a fórmula do partido está ameaçada por conta das mudanças demográficas que estão ocorrendo no sul dos Estados Unidos. Milhares de americanos estão deixando Estados governados por democratas no norte para Estados onde os republicanos governam no sul.
Eles buscam um clima mais ameno, moradias mais baratas, menos impostos e um mercado de trabalho robusto.
“No século 20, quem dominava a economia industrial daquela época eram as regiões de manufatura industrial, como Pensilvânia, Ohio, Michigan e Illinois. Era ali que estavam os empregos e poder político”, aponta Doug Sosnik, um veterano consultor democrata. “Agora estamos no século 21, e a faixa que vai da Carolina do Norte, passando pelo Sul e pelo Texas (no Sudoeste), até o Colorado domina a economia”.
Essas mudanças devem aumentar o poder eleitoral do sul. De acordo com projeções de dois centros de pesquisa, um de tendência progressista e outro conservador, Estados democratas de outras regiões podem perder mais de 10 delegados no Colégio Eleitoral a partir de 2030, quando será feito um processo chamado de Redistribuição, que realoca o número de assentos de cada Estado na Câmara dos Deputados e os delegados no Colégio Eleitoral, após a divulgação do Censo americano.
“Essa transformação demográfica faz parte de uma transição econômica voltada para a tecnologia e o setor de serviços”, avalia Justin Gest, professor da Escola de Política e Governo da Universidade George Mason, em Fairfax, Virginia. “Essa tendência reflete uma perda gradual de empregos na indústria, que antes se concentrava na região do Upper Midwest (Minnesota, Wisconsin, Iowa e Michigan).
Por um lado, esse movimento favorece os republicanos, já que milhares de americanos saíram de Estados democratas para Estados governados pela legenda de Trump. Mas essas pessoas tendem a ser eleitores com diploma universitário e afro-americanos, o que pode ajudar o Partido Democrata.
“Essas mudanças demográficas favoreceram os democratas e tornaram alguns Estados que eram republicanos, como Arizona, Nevada, Geórgia e Carolina do Norte em Estados-pêndulo”, aponta Gest. “Outros Estados como Novo México, Colorado e Virgínia se tornaram Estados democratas por conta dessa transformação”.
O analista aponta que locais como Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, que antes eram bastiões democratas, estão se tornando mais republicanos. “Com os empregos industriais diminuindo e os profissionais liberais indo embora, esses Estados estão mais republicanos”.
Fonte:: estadao.com.br




