Expresso Turístico: Conheça o trem em SP que te leva aos anos 50

Redação Rádio Plug
14 min. de leitura
Interior do Expresso Turístico: vagões dos anos...

A cada início de mês, aproximadamente 5.000 pessoas acessam simultaneamente a bilheteria digital da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) em busca de um único objetivo: garantir passagens para a viagem no Expresso Turístico. Estas passagens esgotam-se em menos de três minutos, tornando-se, sem dúvida, um dos trajetos de trem mais concorridos do Brasil.

Vânia Elizabeth Silva, chefe de carro do Expresso Turístico, explica que é fundamental planejar a viagem com um mês de antecedência. As passagens são disponibilizadas pela CPTM na primeira semana do mês anterior ao passeio e costumam se esgotar rapidamente. “As passagens do mês inteiro acabam de uma só vez”, alerta.

Para quem almeja viajar em julho, por exemplo, é necessário adquirir o bilhete em junho. A CPTM comunica a abertura das vendas através de suas redes sociais.

A equipe do Poder360 conseguiu garantir os cobiçados ingressos e viajou até São Paulo (SP) para embarcar no disputado Expresso Turístico, com o propósito de explorar como as linhas ferroviárias conseguem sobreviver no país ao se reinventarem como passeios turísticos.

Como é viajar no Expresso Turístico?

Diferentemente da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), que serve como meio de transporte ligando a capital capixaba a Belo Horizonte (MG), o Expresso Turístico tem uma proposta distinta: promover passeios turísticos sobre trilhos.

A CPTM reativou essas linhas ferroviárias com o apoio da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária em 2009, visando estimular a cultura, o lazer e a preservação da história paulista em cidades turísticas nas proximidades da capital do Estado.

Atualmente, a companhia oferece dois destinos: Paranapiacaba e Jundiaí. Vale lembrar que o trajeto para Mogi das Cruzes está, até o momento, fora de operação. As viagens acontecem apenas aos finais de semana e em alguns feriados.

O Expresso parte da Estação da Luz, em São Paulo, em direção à vila de Paranapiacaba, distrito de Santo André (SP), cobrindo uma distância de aproximadamente 48 km a uma velocidade média de 50 km/h. O trem é composto por quatro carros de passageiros, com capacidade para 88 assentos por carro, totalizando 352 assentos. A passagem de ida e volta custa R$ 50.

A partida acontece pontualmente às 8h30 da manhã, com embarque às 8h, e um café da manhã é servido a bordo. Contudo, como não há uma cozinha no trem, as opções se limitam a biscoitos em sachês, bebidas enlatadas e cafés em cápsula.

“O Expresso tem passageiros fiéis. Criamos laços, de tanta gente que volta. Nos chamamos até pelo nome”, revela Vânia.

O trajeto de duas horas é bastante agradável e relaxante. Os assentos originais de couro foram restaurados e, devido à baixa velocidade e à segurança do modal, não são equipados com cintos de segurança.

Segundo a ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), os índices de acidentes nas ferrovias brasileiras diminuíram mais de 85% desde o fim dos anos 1990. Estudos internacionais indicam que viajar de trem pode ser até 20 vezes mais seguro que viajar de carro.

Embora a locomotiva do Expresso Turístico seja dos anos 50, os vagões datam de 1960. Todos passaram por reformas em 2009 e reconstituem a experiência de viajar na década de 60. O trem conta com banheiros, mas não possui ar-condicionado nem entradas USB, como na EFVM. A proposta é resgatar o ambiente nos moldes do passado.

A interação com a tripulação, que se veste a caráter, proporciona uma verdadeira viagem no tempo. Vânia compartilha todos os detalhes sobre a criação da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e as curiosidades sobre os pontos turísticos e gastronômicos no destino final. Os passageiros têm até a oportunidade de tirar fotos com o chapéu remanescente da época da CPTM, tornando a experiência ainda mais especial.

Do lado de fora, a paisagem também conta a sua história. A princípio, a região metropolitana de São Paulo se apresenta cinzenta, repleta de muros pichados, vagões corroídos e locomotivas abandonadas. Com o tempo, a Mata Atlântica se faz presente e, de repente, um verde vibrante surge, cortando a névoa densa e persistente da Serra do Mar que cobre a região.

Assim que desembarcam, os visitantes se encontram na vila de Paranapiacaba, sendo transportados para o século 19.

Como Paranapiacaba foi construída?

Paranapiacaba foi erguida em 1867, por engenheiros ingleses, no alto da Serra do Mar, integrando o município de Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

A vila foi projetada com o intuito de facilitar o escoamento do café do interior paulista para Santos, onde seria exportado globalmente. No entanto, a geografia do local apresentava grandes desafios para os engenheiros do século 19. Um dos obstáculos era uma serra que se erguia quase 800 metros acima do nível do mar.

Na época, apenas os ingleses possuíam tecnologia suficiente para enfrentar essa questão: o sistema funicular.

O sistema funcionava assim: dois trens, interligados por cabos de aço, eram puxados um pelo outro em um sistema fechado. Enquanto um subia, o outro descia.

O funicular de Paranapiacaba foi o primeiro desse tipo a ser construído no continente americano. Existe outro em Salvador (BA), que é o Plano Inclinado Gonçalves, datado de 1889.

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A criação de Paranapiacaba, no entanto, não foi um gesto altruísta dos ingleses. Eles construíram a vila porque garantir o escoamento do café do interior paulista para o Porto de Santos gerava lucros substanciais.

A São Paulo Railway Company, fundada em Londres e responsável pela instalação dos trilhos em Paranapiacaba, foi criada em 1856, após receber do Império do Brasil a concessão para conectar o interior paulista ao Porto de Santos.

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O famoso relógio, construído em 1898, com cerca de 20 metros de altura, é uma réplica do Big Ben e contém maquinário original da relojoeira britânica John Walker. Este é o único dos três relógios que chegaram ao Brasil naquela época ainda em funcionamento.

O funcionamento do funicular era desafiador e exigia um trabalho contínuo e uma equipe considerável. Por esse motivo, e considerando o isolamento natural da mata atlântica, os ingleses decidiram construir uma vila planejada para abrigar os operários e suas famílias.

A São Paulo Railway acreditava que ao controlar o ambiente onde seus funcionários viviam, poderia aumentar a eficiência. A empresa possuía as moradias, mercados, um clube, um hospital, saneamento e regras de convivência. Inclusive, o primeiro campo de futebol do Brasil e o primeiro cinema do estado, o Cine Lyra, foram erigidos na vila.

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Cine Lyra, construído em 1903 pela São Paulo Railway para entreter os ferroviários, foi o primeiro cinema do Estado de São Paulo. Funciona até a década de 1930, mas foi abandonado durante anos e restaurado em 2024 com um investimento de R$ 5 milhões de recursos públicos.

As atrações, restaurantes, bares e cafés abrem nos finais de semana em que Paranapiacaba recebe o Expresso Turístico. Contudo, os visitantes devem estar atentos, pois a maioria (se não a totalidade) das atividades encerram-se após a partida do trem. A reportagem encontrou dificuldade em localizar um restaurante aberto na noite de domingo, sendo necessário solicitar uma pizza da cidade vizinha.

Turismo, UNESCO e Misticismo

A partir da década de 60, com o declínio da atividade ferroviária que deu origem à vila, o fluxo de renda que sustentava Paranapiacaba secou. Isso quase resultou na extinção do local. Foi somente em 2009, com a reativação do Expresso Turístico pela CPTM, que a vila começou a recuperar seu fôlego.

Atualmente, Paranapiacaba representa quase 60% de todo o fluxo turístico de Santo André (SP), conforme informado pela prefeitura. Em 2024, a vila recebeu cerca de 600 mil visitantes. Apenas o Festival de Inverno, que é o evento mais importante do calendário local, atraiu 280 mil pessoas em apenas dois fins de semana.

“Nos últimos 10 anos, temos feito um trabalho sério de requalificação de Paranapiacaba como destino turístico. Quando as pessoas chegavam aqui, encontravam ruínas. Era desolador. Queríamos mostrar a verdadeira história da vila”, afirma Eric Tadeu Lamarca, assessor da Subprefeitura de Paranapiacaba.

Por fim, Paranapiacaba também está pleiteando ser reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Caso consiga, se tornará o primeiro sítio reconhecido pela entidade no estado de São Paulo.

Eric demonstra otimismo sobre essa possibilidade, argumentando que o valor histórico da vila é inigualável. “O funicular, os trilhos, o café, foram fundamentais para a economia do Estado de São Paulo. É algo singular”, afirma.

Além disso, Paranapiacaba possui um atrativo a mais para os apreciadores do sobrenatural. A neblina densa e constante da Serra do Mar cobre a vila durante a maior parte do ano, conferindo ao local uma aura misteriosa.

Os supersticiosos acreditam na lenda do “trem fantasma”, onde, segundo a crença, os espíritos dos homens que faleceram durante a construção da ferrovia ainda vagam pelos trilhos.

O misticismo, para além da lenda, se tornou um negócio rentável em Paranapiacaba. Anualmente, a vila sedia a “Convenção de Bruxas e Magos”, o maior evento do gênero na América Latina.

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A Convenção de Bruxas e Magos de Paranapiacaba reúne cerca de 30 mil participantes em um único fim de semana.

Trata-se, na verdade, de um grande congresso de misticismo, conforme explicado pelo assessor. O evento conta com praticantes de bruxaria natural, reiki e massagens. Eric destaca que os participantes levam o evento a sério e que a festa, que começou como uma celebração de Halloween, foi incorporada à cultura e à economia da vila.

Eric resume bem os últimos dez anos: uma requalificação lenta que devolveu dignidade a Paranapiacaba, atraindo turistas de todo o Brasil e da América Latina. “Quando você restaura um bem, você devolve à sociedade a sua história”, conclui ele ao Poder360. E a história de Paranapiacaba, que começou, continua a se desenrolar sobre os trilhos.

Esta é a segunda reportagem da série especial “Poder nos Trilhos”, do Poder360, enfocando a malha ferroviária brasileira.

A primeira reportagem abordou a viagem de 17 horas na EFVM (Estrada de Ferro Vitória a Minas), única ferrovia de longa distância do país com transporte regular diário de passageiros.

Produção

A publicação de “Poder nos Trilhos” representa um avanço significativo do Poder360 em sua série de investimentos na produção audiovisual. Em 2026, o veículo já havia lançado seu primeiro minidocumentário: “Memorial Brumadinho, uma visita”.

Poder nos Trilhos é um produto inédito, completamente criado pela equipe de Novas Mídias do Poder360. As reportagens foram redigidas, produzidas e apresentadas por Pedro Linguitte e Bárbara Pinheiro, com fotografia de Bruno Gaudêncio e Pedro Linguitte. A identidade visual ficou a cargo de Beatriz Castilho. A edição, animação e finalização foram realizadas por Bruno Gaudêncio, sob supervisão da secretaria de redação adjunta, Sabrina Freire, e do diretor de inovação, Miguel Gallucci Rodrigues.

A minissérie foi gravada em quatro estados brasileiros: São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Distrito Federal, utilizando câmeras de cinema. Entre as autoridades entrevistadas está o ex-governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), que é pré-candidato ao Senado nas eleições de 2026.

Fonte:: poder360.com.br

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