Mulheres com mais de 50 anos buscam oficinas de mecânica básica para ganhar autonomia

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: noticia_publicada

Em uma década, os lares brasileiros chefiados por mulheres saltaram expressivamente, alcançando a marca de 49,1%. Em compasso com essa transformação social, cresce de maneira vertiginosa a procura por cursos de mecânica básica entre motoristas maduras, que buscam independência para lidar com situações cotidianas associadas historicamente ao universo masculino.

Por muitas gerações, tirar a carteira de habilitação representou um marco de liberdade. No entanto, para uma parcela cada vez maior de mulheres, apenas dirigir já não é suficiente. Compreender o funcionamento do veículo, diagnosticar falhas simples e transitar com segurança por oficinas mecânicas tornaram-se prioridades na rotina de quem rejeita a dependência de terceiros.

Independência sem barreiras etárias

A maturidade está longe de ser um obstáculo para esse aprendizado. Dados levantados pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), fundamentados em registros da Senatran e do Censo Demográfico, apontam que o Brasil conta com impressionantes 5,6 milhões de mulheres habilitadas na faixa etária entre 51 e 70 anos. Esse contingente já ultrapassa o número de condutoras com idade entre 41 e 50 anos, estimado em 5,5 milhões, consolidando um público cada vez mais relevante no trânsito nacional.

Iniciativas voltadas à educação automotiva feminina têm surfado nessa onda de conscientização. É o caso da comunidade “Dona Meu Destino”, liderada por Vittória Gabriela, que promove oficinas práticas e conteúdos voltados ao público feminino. A proposta nasceu de uma vivência pessoal da fundadora com problemas de manutenção automotiva e rapidamente ganhou escala, acumulando mais de 890 mil seguidores nas redes sociais e ultrapassando a marca de 4 milhões de visualizações.

Fora do ambiente virtual, a procura por capacitação presencial impressiona. Atualmente, mais de 3.500 mulheres compõem a lista de espera para participar das aulas práticas de mecânica básica oferecidas pelo projeto.

Mudança de papel na sociedade

“Houve um aumento notável na participação de mulheres maduras nas oficinas que promovemos. É um movimento que vai muito além da curiosidade mecânica; ele reflete uma mudança profunda de papel social”, aponta Vittória Gabriela. Segundo ela, o público é formado por viúvas que assumiram responsabilidades domésticas sozinhas, mães que se tornaram o arrimo financeiro da família e mulheres que acumularam bagagem suficiente para perceber que delegar o controle de orçamentos automotivos já não faz sentido.

O cenário socioeconômico brasileiro corrobora essa guinada. Informações do Censo 2022, divulgadas pelo IBGE, revelam que quase metade dos lares do país — 49,1% — são sustentados por mulheres, um salto expressivo em relação aos 38,7% registrados em 2010. Em termos práticos, cerca de 36 milhões de brasileiras lideram as decisões administrativas e financeiras de suas casas, abrindo caminho para a conquista de autonomia em frentes tradicionalmente terceirizadas.

Da prevenção ao controle total

Essa autonomia recém-conquistada se reflete em escolhas cotidianas cruciais, como avaliar a idoneidade de uma oficina, questionar a necessidade de substituição de peças, compreender revisões periódicas ou checar a coerência de um orçamento apresentado por profissionais.

Se em um primeiro momento as alunas chegavam às oficinas motivadas por experiências traumáticas, como panes inesperadas na estrada ou prejuízos financeiros causados por cobranças abusivas, hoje o comportamento mudou. A busca pelo conhecimento tornou-se estritamente preventiva.

“No início, muitas procuravam ajuda após sofrerem um prejuízo ou passarem por um atendimento inadequado. Hoje, vemos mulheres que buscam aprender por pura escolha, antes que qualquer imprevisto aconteça. É a transição do ‘preciso me virar’ para o ‘quero ter controle'”, ressalta a especialista.

Conteúdo acessível para iniciantes

O perfil das participantes costuma ser de quem não tem nenhuma familiaridade prévia com ferramentas ou componentes automotivos. No entanto, as organizadoras fazem questão de enfatizar que isso não representa nenhum tipo de limitação.

“O workshop foi desenhado especificamente para quem está começando do zero. Não existe pergunta boba; a única pergunta ruim é aquela que deixamos de fazer por receio”, pontua Vittória.

O objetivo das aulas não é transformar as alunas em mecânicas profissionais, mas sim reposicioná-las diante do próprio veículo. Conhecimentos básicos sobre verificação do nível de óleo, monitoramento do desgaste dos pneus e compreensão de revisões periódicas ajudam a evitar desde gastos supérfluos com serviços desnecessários até o agravamento de pequenas falhas que poderiam virar grandes dores de cabeça.

Para o futuro próximo, a expansão do projeto prevê a abertura de novas turmas presenciais em capitais como Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, além do lançamento de cursos em formato online para democratizar o acesso à informação automotiva em todo o território nacional.

Fonte:: diariopr.com.br

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