Trump quer destruir a ditadura cubana. Estes são os cenários mais prováveis do que pode acontecer

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Durante décadas, Miami se manteve praticamente isolada em sua obsessão por Cuba. No entanto, essa realidade mudou. Hoje, Cuba ressurge como uma prioridade de segurança nacional para o governo dos Estados Unidos.

Nos últimos meses, a administração Trump intensificou a pressão sobre Cuba, adotando uma política mais assertiva do que se viu recentemente. Entre as medidas, estão a acusação de altos funcionários cubanos; a imposição de novas sanções a líderes do regime, à estatal petrolífera e a entidades ligadas ao setor militar; além de um aumento nas atividades militares e de inteligência na região caribenha. O General Francis Donovan, responsável pelo Comando Sul dos EUA, e o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, visitaram Guantánamo, sinalizando o comprometimento dos EUA em intensificar seu envolvimento.

Altos funcionários do governo americano, como o Secretário de Estado Marco Rubio, têm enquadrado os acontecimentos em Cuba como uma ameaça direta à segurança nacional dos EUA. A crise humanitária na ilha, junto com supostas ligações do governo cubano com organizações terroristas e a crescente capacidade de drones do país, foram mencionadas como ameaças sérias ao território americano.

Embora ainda não esteja claro se Washington busca um objetivo específico ou se mantém deliberadamente a flexibilidade estratégica, o que se percebe é que o governo está ampliando suas opções. Quatro cenários parecem cada vez mais plausíveis:

  1. Intervenção humanitária
  2. Ação coercitiva limitada
  3. Ruptura interna do regime
  4. Concessões negociadas

A direção que a crise tomará depende, em parte, da dinâmica interna de Cuba. As Forças Armadas Cubanas (FAR) mantêm-se como a principal responsável pela estabilidade do regime, e a maneira como as elites militares e políticas interpretam as crescentes pressões econômicas, o descontentamento social e o isolamento internacional pode ser tão crucial quanto qualquer medida tomada em Washington. As reações da população às deteriorantes condições de vida poderão influenciar ainda mais os cálculos das elites cubanas.

1. Intervenção humanitária

Atualmente, o maior desafio que Cuba enfrenta não é político, mas sim humanitário. Em meio ao bloqueio renovado dos EUA, o país atravessa uma grave escassez de combustível, apagões frequentes, deterioração de sua infraestrutura, declínio das condições de saúde pública e crescente frustração popular. A previsão é que as condições se agravem nos próximos meses, e eventos como furacões ou ondas de calor podem intensificar a crise.

Nesse cenário, a intervenção humanitária poderia surgir como o meio más apropriado para que Washington expanda sua presença na ilha, evitando os riscos e custos de uma ação militar convencional. A justificativa para essa ação não se basearia numa mudança de regime, mas sim na necessidade de enfrentar uma emergência humanitária que poderia ter repercussões na estabilidade regional, na migração e na segurança dos EUA. O governo americano já começou a apresentar a situação em Cuba sob essa ótica.

A possibilidade de uma intervenção seria acionada por uma crise que deixasse Havana relutante ou incapaz de responder adequadamente, envolvendo talvez apagões prolongados, um agravamento na saúde pública, escassez de alimentos ou tumultos em massa. As primeiras ações de Washington provavelmente se concentrariam em colaborar com organizações internacionais, grupos religiosos e outros atores não governamentais para fornecer assistência humanitária e médica. Enquanto isso, as forças armadas dos EUA focariam em manter o bloqueio, ao mesmo tempo facilitando aspectos logísticos e de transporte.

Os benefícios dessa abordagem incluem ajuda humanitária imediata, redução da pressão migratória e estabilização sem a busca explícita de uma mudança de regime. No entanto, os riscos também são altos: Havana poderia encarar a intervenção como uma violação da soberania, incitando uma reação nacionalista que complicaria a cooperação internacional. Uma presença prolongada dos EUA poderia criar expectativas de um envolvimento político que Washington talvez não esteja disposto a cumprir.

2. Ação coercitiva direcionada

Um segundo cenário possível é a realização de uma operação militar ou policial limitada, com o objetivo de aumentar a pressão sobre a liderança cubana sem assumir a responsabilidade pelo governo da ilha. Em vez de uma invasão convencional, a ideia seria impor custos ao regime, degradar capacidades específicas e alterar as regras do jogo em Havana.

A recente acusação contra Raúl Castro e cinco co-réus pode estabelecer uma base legal que justifique medidas coercitivas, semelhante ao que aconteceu antes da captura de Nicolás Maduro. Funcionários cubanos estão sendo vistos, cada vez mais, não apenas como adversários políticos, mas como réus em um tribunal.

Os EUA poderiam então conduzir operações policiais para prender os indicados ou realizar ataques limitados contra infraestrutura de inteligência e segurança que represente uma ameaça à segurança nacional. Essas ações não visariam derrubar o regime diretamente, mas sim demonstrar a vulnerabilidade dos altos funcionários e aumentar a insegurança dentro do governo cubano.

Essa estratégia não se limita apenas a Raúl Castro: ao mostrar que indivíduos e instituições não estão além do alcance do poder dos EUA, Washington poderia tentar minar a confiança das elites e forçar os membros do regime a reconsiderar seus futuros políticos.

Indícios dessa abordagem já podem ser percebidos em novas acusações, na divulgação de informações que conectam figuras do regime a atividades ilegais ou ameaças, na expansão do destacamento militar no Caribe e em discussões públicas sobre responsabilização e medidas legais contra o governo cubano.

3. A pressão gera uma fratura interna

Continua pressão sobre Cuba pode eventualmente gerar uma divisão interna dentro do regime que leve a uma transição de liderança. Nesse cenário, o objetivo não seria causar um colapso imediato, mas sim minar gradualmente a coesão e a fundamentação política que sustentam a liderança atual. Essa estratégia se basearia na pressão econômica, sanções direcionadas, diplomacia pública e envolvimento com a sociedade civil cubana.

Os riscos desta abordagem, no entanto, são elevados. A fragmentação interna poderia levar à incerteza política e ao aumento da repressão, à medida que facções rivais buscam influenciar o regime, o que complicaria ainda mais a situação.

4. O regime faz concessões

A pressão dos EUA também pode conduzir a novas rodadas de negociações. Historicamente, os líderes cubanos se mostraram abertos ao diálogo quando isso é visto como benéfico para a sobrevivência do regime. Porém, a resistência à coerção externa está profundamente enraizada na identidade política cubana.

Se o estado das condições econômicas e humanitárias continuar a se deteriorar, alguns líderes poderão perceber que concessões limitadas são preferíveis ao agravamento do conflito. As recentes ações na Venezuela demonstraram que Washington está disposto a usar uma combinação de ferramentas econômicas e militares e a trabalhar com elementos de um regime em vez de exigir uma transição democrática imediata.

As negociações provavelmente se concentrariam em resultados práticos, como a libertação de prisioneiros, expansão da ajuda humanitária e uma liberalização econômica limitada, mantendo, ao mesmo tempo, o controle político cubano intacto.

Uma nova gama de resultados

Cuba está em um ponto crítico. A intersecção da deterioração econômica, aumento do descontentamento social e intensificação da pressão americana traz uma nova gama de possibilidades. Entretanto, é fundamental abordar as previsões de transformação iminente com ceticismo, dado que o sistema cubano demonstrou resiliência em situações adversas.

Pode haver uma chance real de que nenhum dos cenários mencionados se concretize no curto prazo e que Cuba continue passando por um prolongado período de deterioração controlada, com declínio econômico, emigração contínua e agitação social periodicamente reprimida.

Importa ressaltar que essas possibilidades não são mutuamente exclusivas. A erosão interna poderia desencadear negociações, enquanto a exacerbação do descontentamento social poderia gerar divisões nas elites e aumentar a intervenção externa. À medida que se aproximam as eleições de meio de mandato de 2026, o governo poderá enfrentar uma pressão crescente para apresentar avanços em uma política que cada vez mais é vista como prioridade de segurança nacional.

Se essa pressão resultará em reforma, ruptura, confrontos ou um impasse duradouro dependerá das decisões tomadas em Washington e Havana, especialmente entre as elites militares e políticas cubanas. Os próximos meses mostrarão se Cuba está se aproximando de um verdadeiro ponto de inflexão ou se ainda enfrenta mais um capítulo de sua longa história de resiliência em meio à crise.

Fonte:: estadao.com.br

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