Há uma distinção entre sobreviver e ser salvo, e é exatamente nesse intervalo desconfortável que o documentário “Untold: A Vida e a Morte de Lamar Odom”, disponível na Netflix, decide se posicionar.
A produção revisita a trajetória de Lamar Odom sem a pressa de oferecer uma narrativa de redenção. Pelo contrário, desmonta, peça por peça, a história quase mitológica criada em torno de sua recuperação após a overdose de 2015. A narrativa que o mundo abraçou, a de um atleta que flerta com a morte e retorna como símbolo de superação, aqui é retratada como uma ficção conveniente.
O documentário não ignora o colapso; ele o prolonga. Há algo quase incômodo na maneira como a obra expõe o que se seguiu. Não se trata do coma, dos hospitais ou do milagre médico, mas do cotidiano. A recaída silenciosa. O comportamento que insiste em resurgir, como se a sobrevivência não fosse suficiente para interromper o ciclo. A partir desse ponto, a narrativa abandona qualquer tentativa de conforto.
Talvez um dos momentos mais brutais seja aquele que não envolve câmeras, mas sim memórias: a descoberta de Khloé Kardashian ao encontrar Odom novamente no fundo do mesmo abismo que ela acreditava ter ajudado a superar. Não há heroísmo nessa lembrança, apenas uma ruptura dolorosa.
Além disso, o documentário se posiciona contra o próprio sistema que ajudou a romantizar essa história. A mídia, os reality shows e a espetacularização da dor são elementos que, em 2015, transformaram uma tragédia pessoal em uma narrativa coletiva. Aqui, essa abordagem é reconfigurada: não como arco dramático, mas como distorção da realidade.
A direção opta por um ritmo quase clínico. Frio, mas nunca distante. Existe uma recusa clara em dramatizar excessivamente os eventos; o impacto é gerado pela repetição de padrões, pela inevitabilidade das escolhas e pela sensação de que a recuperação não é um destino, mas uma condição instável e vulnerável.
Quando o documentário se aproxima do presente, considerando a prisão de Odom em 2026 e sua tentativa de reconstrução, a ironia não é meramente sugerida; ela se torna inevitável. O tempo não organiza a narrativa; em vez disso, ele a desmente.
“Untold: A Vida e a Morte de Lamar Odom” não é sobre redenção. Trata-se de continuidade. Sobre como algumas histórias não terminam quando deveriam e como, mesmo assim, insistimos em tratá-las como finais felizes.
Ao final, o documentário deixa uma pergunta que não precisa ser verbalizada: o que exatamente significa sobreviver, quando nada realmente muda?
Fonte:: jornalportaldoparana.com.br





