O recente choque geopolítico gerado pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, aliado ao fechamento do estratégico Estreito de Ormuz, trouxe preocupações sobre uma possível disparada do dólar. Contudo, o impacto nas taxas de câmbio no Brasil revelou ser menos intenso do que o esperado.
Conforme análise de José Alfaix, economista da Rio Bravo, três fatores principais contribuíram para essa atenuação: a atratividade da Selic, mudanças nas percepções sobre o dólar sob a administração Trump, e a posição estrutural do Brasil na balança comercial.
Os três vetores que contiveram o câmbio
Enquanto o mercado financeiro global demonstra nervosismo diante de uma crise que afeta 20% do petróleo mundial, a resposta do dólar no Brasil foi surpreendentemente contida, desafiando a expectativa de fuga de capitais.
Alfaix destaca três razões centrais para essa reação menos severa:
- Atração da taxa de juros: A atual política monetária com a Selic em 14,75% torna o real altamente atrativo para investidores, o que ajuda a mitigar os riscos associados a incertezas externas.
- Fator político nos EUA: Historicamente, em tempos de crise, há uma tendência de investidores buscarem o dólar como ativo de refúgio. No entanto, Alfaix argumenta que “a gestão Trump continua a corroer a credibilidade do dólar”. Isso leva investidores a considerar outras opções, como o mercado brasileiro.
- Posição estrutural do Brasil: Como exportador líquido de petróleo, o Brasil tem uma estrutura comercial que o protege de oscilações mais intensas, diferentemente de países importadores, como o Japão.
A resiliência em números
A proteção notada pela Rio Bravo se reflete claramente nas taxas de câmbio. Antes do início do conflito, o dólar estava cotado a R$ 5,13. Um mês depois, ao final de março, a moeda fechou em R$ 5,18. O comportamento do ouro, tradicional ativo de refúgio, também apresentou uma reação semelhante, considerando-se o impacto esperado do fechamento da rota que transporta grande parte do petróleo global.
Aversão ao risco afeta juros e bolsas
Apesar da proteção mencionada, Alfaix alerta que o cenário não é otimista. O mercado global está influenciado por uma aversão ao risco, especialmente com o receio de uma nova pressão inflacionária. Essa reavaliação já resultou na devolução dos ganhos registrados nas bolsas internacionais em janeiro e fevereiro. No Brasil, o índice Ibovespa também sentiu o impacto e recuou após alcançar seu pico antes do conflito, enquanto a curva de juros se abriu.
O temor em relação à inflação se refletiu nas revisões do boletim Focus, que ajustou a expectativa do IPCA de 3,91% para 4,31%. Apesar das turbulências presentemente observadas nos mercados de renda fixa e variável, a conclusão da Rio Bravo é de que, se não fossem os três vetores sustentando o apelo do Brasil em relação ao dólar, os danos econômicos provocados pela crise atual seriam significativamente maiores.
Fonte:: infomoney.com.br




