Gastos com armas crescem pelo 11º ano seguido. Quais as consequências disso para o mundo?

Redação Rádio Plug
Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Os investimentos militares ao redor do mundo continuam em ascensão, atingindo seu 11º ano consecutivo de crescimento. Essa é a constatação central do mais recente relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, conhecido pela sigla SIPRI. Os dados são alarmantes: em 2025, os países gastaram impressionantes 2,9 trilhões de dólares em orçamento bélico. Esse aumento acentuado reflete um panorama internacional desgastante e mina as esperanças de que questões urgentes e prementes do planeta sejam abordadas de maneira eficaz.

Desde 2014, ano em que ocorreu a anexação da Crimeia pela Rússia, o aumento dos gastos militares se intensificou. Esse evento foi um marco que desencadeou uma crise de segurança global, a qual se tornou ainda mais crítica em 2022, com a invasão da Ucrânia. O ano de 2014 também foi decisivo, pois impulsionou um significativo aumento dos orçamentos de defesa na Europa e a assistência militar para a Ucrânia por parte dos Estados Unidos.

Na sequência dos eventos de 2014, a Rússia iniciou um robusto programa de rearmamento e modernização de suas forças armadas. Posteriormente, em 2016, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, pressionou os aliados europeus a elevarem seus gastos em defesa, estabelecendo como meta o cumprimento do padrão da Otan, que exige que os países membros investam pelo menos 2% de seu PIB em defesa.

No relatório referente a 2025, evidenciou-se que os gastos militares dos Estados Unidos, que totalizam 954 bilhões de dólares, são os mais elevados do planeta, representando cerca de um terço da totalidade dos gastos globais. A China figura em segundo lugar, com 336 bilhões de dólares, enquanto a Rússia completa o topo da lista com 190 bilhões de dólares. Juntas, essas três nações respondem por mais da metade dos gastos militares do mundo.

Alguns leitores podem achar incômodo o uso do termo “gastos” em substituição a “investimentos”. Entretanto, uma visão pragmática revela que esses orçamentos também englobam salários, pensões e alimentação, aspectos fundamentais que devem ser considerados. Apesar das discussões internas a respeito das pensões militares e dos salários das forças armadas, o foco deve ser a realidade do que esses gastos representam.

Além disso, essas cifras elevadas incluem contratos substanciais para aquisição e desenvolvimento de armamentos, que, por sua vez, estão alinhados com pesquisas científicas, inovações tecnológicas e a indústria bélica. Historicamente, a conexão entre a indústria militar e o crescimento econômico é inegável, tendo começado na Era da Segunda Revolução Industrial. Esse fenômeno foi criticado pelo ex-presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, que alertou sobre o que chamou de “complexo militar-industrial”.

A crítica se dirigiu às relações problemáticas entre os setores militar e político. Como é difícil convencer a opinião pública sobre a necessidade de gastar bilhões em armamentos, muitos políticos acabam sendo influenciados a aprovar esses orçamentos, em benefício de acionistas de grandes corporações do setor bélico. Além disso, o tráfico de armas é uma realidade que torna ainda mais complexo o cenário, pois frequentemente as mesmas armas são utilizadas por diferentes grupos em variados conflitos.

É crucial entender que esses fluxos financeiros não são ilimitados. O aumento nos gastos militares inevitavelmente supõe a redução dos orçamentos de outras áreas essenciais. Mesmo sob um olhar pragmático, questionamentos éticos e morais se impõem. Entre 2024 e 2025, o incremento nos gastos militares foi de 169 bilhões de dólares, quantia que poderia erradicar doenças e garantir a segurança alimentar global.

Ademais, a interpretação adotada pela corrente Realista nas Relações Internacionais deve levar em conta as ressalvas do historiador Adam Tooze. Ele adverte que o crescimento econômico atrelado aos gastos militares forma uma armadilha, visto que esses armamentos precisarão ser utilizados eventualmente para manter o ciclo econômico em movimento. Esse fenômeno já foi observado antes da Segunda Guerra Mundial, particularmente na Alemanha nazista, que se reergueu economicamente através de sua indústria bélica, tema explorado por Tooze em sua obra “O Preço da Destruição”.

O futuro, infelizmente, mostra-se ainda mais preocupante. Os gastos militares estão em acelerada expansão em praticamente todos os países, e os novos orçamentos programados para os Estados Unidos e a União Europeia preveem saltos orçamentários significativos. O uso de inteligência artificial nas forças armadas também tem crescido exponencialmente. Um dia, é provável que nossos descendentes reflitam sobre esse período com uma combinação de choque e desilusão, questionando a alocação de forças econômicas tão grandiosas para a morte, em vez de direcioná-las para o avanço em saúde, bem-estar social e inovações científicas.

Fonte:: estadao.com.br

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