Setor avalia que Brasil tem até 2032 para se firmar em minerais críticos

Redação Rádio Plug
6 min. de leitura
O diretor-presidente da AMC, Frederico Bedran, ...

O Brasil dispõe de um período estratégico limitado para se consolidar como um player de peso na cadeia global de minerais críticos. A avaliação é do diretor-presidente da Associação de Minerais Críticos (AMC), Frederico Bedran, durante entrevista recente.

De acordo com o dirigente, as companhias que desenvolvem iniciativas voltadas a esses insumos no país precisam iniciar suas atividades operacionais o quanto antes. O argumento central baseia-se no longo ciclo exigido pelo setor mineral, que demanda anos de planejamento e implantação até alcançar a fase efetiva de extração.

“Do momento que você inicia uma pesquisa até você entrar em operação, é algo em torno de 10 anos. Por isso que a gente fala que essa janela de mercado é curta, porque o que nós temos que fazer, nós temos que fazer já. Até 2030, 2032, seria um bom cenário para que a gente entrasse em operação nesses projetos”, destacou Bedran.

Atualmente, a AMC agrupa 33 organizações, entre mineradoras e fornecedoras da cadeia produtiva, sendo que aproximadamente 80% delas contam com participação de capital estrangeiro. A expectativa da entidade é de que diversas dessas iniciativas inaugurem sua fase operacional ao longo dos próximos quatro anos.

Importância estratégica e reservas globais

Os chamados minerais críticos englobam recursos indispensáveis para segmentos de alta relevância econômica e tecnológica, como a transição energética, a defesa e a indústria de ponta. O grupo inclui elementos como lítio, cobalto, níquel, nióbio e terras-raras, amplamente aplicados na fabricação de baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e semicondutores. O fornecimento global desses materiais, contudo, enfrenta riscos de escassez e alta concentração em poucos países.

Estatísticas divulgadas pela AIE (Associação Internacional de Energia) indicam que o território brasileiro abriga pelo menos 25% das reservas mundiais desses insumos. Esse expressivo potencial geológico despertou recentemente o interesse geopolítico de potências como os Estados Unidos e a União Europeia, que enxergam no país uma alternativa viável para mitigar a dependência da China, nação que atualmente domina grande parte do mercado internacional, em especial no segmento de terras-raras.

Apesar da abundância de matéria-prima, Bedran pontua que a mera riqueza geológica não é suficiente para assegurar o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Apesar da abundância de matéria-prima, a indústria nacional ainda não domina as etapas posteriores da cadeia produtiva, que envolvem processos complexos como separação, refino, beneficiamento e a fabricação de produtos finais. Hoje, a atuação do país no comércio exterior restringe-se quase totalmente à extração e à exportação.

“Para tornar o Brasil protagonista da cadeia industrial como um todo, ainda temos grandes desafios e várias empresas estão olhando para isso. Nós estamos recebendo constantemente empresas listadas nas bolsas, principalmente na australiana, na canadense, na de Londres, empresas chinesas, todos interessados em desenvolver este potencial aqui no Brasil”, pontuou o executivo.

Articulação entre governo e Congresso

A necessidade de expandir a atuação nacional para além da extração bruta tem gerado convergência entre o setor privado, o Poder Executivo e o Legislativo. Representantes do governo Lula têm tratado o assunto sob a ótica da soberania nacional, defendendo que os recursos sejam não apenas retirados do solo, mas também processados internamente.

No âmbito legislativo, a pauta também avança. A Câmara dos Deputados aprovou um marco regulatório que institui a Política Nacional dos Minerais Críticos. A proposta prevê a criação de um fundo setorial de R$ 5 bilhões, além de mecanismos de incentivo fiscal para as empresas que realizarem etapas adicionais de industrialização em solo brasileiro. A matéria conta com aval do Planalto e aguarda apreciação pelo Senado.

“O texto foi muito feliz no olhar em que, cada vez que você agrega mais valor, essas empresas conseguem mais incentivos fiscais. Isso é fundamental porque, no cenário atual, a gente não é competitivo para o refino no Brasil. Precisamos desses incentivos”, avaliou o presidente da AMC.

Assista a entrevista de Frederico Bedran (35min55s):

Desafios na cadeia de terras-raras

No segmento específico das terras-raras, Bedran avalia que a urgência de mercado é ainda mais acentuada, impulsionada pela disputa global por esses elementos. Para ele, o país precisa priorizar o fortalecimento da atividade minerária antes de estabelecer exigências rígidas para etapas industriais posteriores.

“O desenvolvimento que foi feito na China nas últimas décadas, nós não vamos fazer isso em 2 anos. A gente precisa de uma mineração forte para a gente poder desenvolver as demais cadeias. Ter um olhar restritivo, dizendo que só posso minerar se eu já agregar valor, já trazer a indústria, infelizmente a gente não vai conseguir. Nós vamos morrer na praia”, argumentou.

Atualmente, a Serra Verde figura como a única empresa produzindo terras-raras no Brasil em escala comercial. Outras mineradoras mantêm iniciativas em diferentes fases de licenciamento e estruturação, aguardando as licenças definitivas para iniciar a produção.

“A gente tem que fazer um esforço para que a gente consiga colocar boa parte desses projetos [de terras-raras] em produção”, concluiu Bedran, citando o avanço de companhias estrangeiras, a exemplo das australianas Viridis e Brazilian Rare Earths, que mantêm cronogramas avançados no país.

Fonte:: poder360.com.br

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