Operação policial desarticula rede virtual que induzia jovens à automutilação e suicídio

Redação Rádio Plug
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Foto: © Isaac Amorim/MJSP.


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O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) divulgou nesta terça-feira (4) os desdobramentos da Operação Lívia. A ação, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com suporte técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp/MJSP), teve como foco desmantelar uma organização criminosa que aliciava crianças e adolescentes em comunidades virtuais.

De acordo com as investigações, o grupo submetia as vítimas a forte coerção psicológica, induzindo-as a participar de desafios de automutilação, episódios de violência extrema contra animais — principalmente gatos — e ao suicídio. A apuração foi desencadeada após o trágico suicídio de uma adolescente de 13 anos, batizada carinhosamente de Lívia, ocorrido no último dia 22 de julho.

Dinâmica do crime e repercussão

O ato extremo foi transmitido ao vivo em um grupo da rede social Discord, durando cerca de 45 minutos. Antes de tirar a própria vida na residência onde morava com seus familiares no município de Naviraí, a 365 km de Campo Grande, a jovem foi coagida pelos criminosos no ambiente virtual a tentar torturar e matar um animal de estimação, tentativa que não obteve êxito.

Durante coletiva de imprensa realizada em Brasília, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, destacou que o combate a crimes cibernéticos direcionados a menores de idade requer uma postura de prevenção e vigilância redobrada por parte das famílias e da sociedade em geral.

“Redobrem a atenção no cuidado com os seus filhos, com as crianças, com os adolescentes, no contato com esses conteúdos, em função dos graves eventos que foram reportados aqui”, alertou o ministro.

Alvos e abrangência da rede criminosa

Além das diligências no Mato Grosso do Sul, a operação policial cumpriu oito mandados de busca e apreensão em outros quatro estados brasileiros: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, contando com o apoio operacional das polícias civis locais.

As autoridades confirmaram a apreensão e prisão de suspeitos que utilizavam o aplicativo de mensagens Telegram para coordenar as ações. Entre os alvos capturados estão cinco adolescentes com idades entre 13 e 17 anos, além de um jovem de 18 anos. As investigações apontam que o suposto líder da organização criminosa é um adolescente de 14 anos, localizado e apreendido no Rio de Janeiro. Outro investigado é um estudante seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco.

O delegado da Polícia Civil do Piauí e representante do Ciberlab, Alessandro Barreto, revelou detalhes sobre o modus operandi da quadrilha, incluindo o aspecto financeiro da coação:

“Os próprios criminosos criaram chave Pix para menina, mandavam dinheiro para comprar gillette, para se automutilar e tudo.” A chave em questão foi aberta sem o conhecimento da mãe da vítima. Todo o material apreendido passará por perícia para identificar possíveis cómplices e detalhar a extensão da atuação online do grupo.

Infrações à legislação digital

O secretário Nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Fernandes, apontou que plataformas como o Discord e o Telegram falharam no cumprimento de normativas essenciais, a exemplo do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital – Lei nº 15.211/2025), do Marco Civil da Internet (atualizado pelo Decreto 2.975/2026) e do Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital (nº 12.976/2026).

Segundo o secretário, o Discord omitiu-se ao não interromper a transmissão ao vivo, não remover o conteúdo de forma imediata e deixar de notificar os órgãos competentes. “Pelo ECA Digital, o Discord teria a obrigação de derrubar esses conteúdos e comunicar imediatamente às autoridades policiais, para que as autoridades policiais pudessem agir antes que esses resultados acontecessem. E isso não foi feito”, pontuou.

A pasta ministerial também identificou falhas graves nos mecanismos de verificação de idade exigidos pela legislação. O ministério encaminhará um pedido formal de investigação contra as plataformas à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão competente pela fiscalização e aplicação do ECA Digital no país.

Proteção a novas vítimas

Durante a coletiva, o delegado Alessandro Barreto informou que o monitoramento cibernético permitiu identificar outra vítima do mesmo grupo em um estado diferente, o que possibilitou a atuação rápida das forças de segurança para evitar um novo suicídio que já estava agendado em transmissão prévia.

“Estamos vendo os nomes de outras possíveis vítimas para mandar avisar aos pais e responsáveis para que fiquem atentos”, concluiu o delegado.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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