A fusão entre inteligência artificial e robótica para desenvolver máquinas capazes de interagir com o ambiente físico deu origem ao conceito conhecido como inteligência artificial incorporada. No mercado chinês, essa tendência provocou uma corrida de investimentos, consolidando-se como um dos setores de maior atratividade para o capital de risco local.
Nos últimos dois anos, cerca de 370 novas empresas ingressaram nesse segmento. Em julho, aproximadamente 50 companhias estruturavam planos para realizar ofertas públicas iniciais de ações em bolsas de Hong Kong e da China continental.
A Unitree Robotics, considerada uma das principais referências do setor, prepara sua estreia no STAR Market, segmento voltado para empresas de tecnologia da Bolsa de Xangai. A expectativa inicial aponta para uma avaliação de mercado próxima a 40 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de 6 bilhões de dólares, com projeções de analistas indicando que o montante pode superar 100 bilhões de yuans no futuro.
Atualmente, pelo menos cinco empresas do ramo possuem valor de mercado estimado acima de 20 bilhões de yuans, enquanto outras seis superam a marca de 10 bilhões de yuans. Diversas marcas registraram duplicação em suas avaliações em um intervalo de poucos meses.
O entusiasmo do mercado fundamenta-se na perspectiva de que robôs humanoides e autônomos alcancem volumes de comercialização semelhantes aos de smartphones, mantendo faixas de preço comparáveis às de veículos de passeio. Caso essa projeção se confirme, analistas apontam que a indústria pode se consolidar como uma das maiores oportunidades comerciais da história recente.
“Os mercados público e privado estão excepcionalmente otimistas em relação a esse setor neste momento, principalmente porque ele pode ser a única indústria que combina a escala de dois mercados gigantescos”, afirmou Alex Zhou, sócio-gerente da Qiming Venture Partners.
Estratégias de capitalização e cronograma de listagens
A busca por recursos nos mercados públicos reflete a urgência das startups em garantir financiamento antes de uma possível saturação do mercado. A Unitree avança para se tornar a primeira empresa do setor de inteligência artificial incorporada a abrir capital na Bolsa de Xangai, contando com um processo regulatório acelerado que durou menos de um ano.
Outros nomes do setor seguem trajetória semelhante. A Deep Robotics e a Leju Robotics aguardam deliberações regulatórias para suas listagens em Xangai, ao passo que a AgiBot, avaliada em mais de 20 bilhões de yuans, planeja uma oferta pública em Hong Kong.
Estimativas de participantes do mercado indicam que entre 30 e 50 empresas avaliam emissões de ações em Hong Kong. Organizações como Galbot, AI² Robotics, Galaxea AI e LimX Dynamics já protocolaram pedidos confidenciais de listagem, com a possibilidade de concretização das primeiras operações ainda para o final de agosto.
Cao Wei, sócio da Lanchi Ventures, avalia que o ecossistema tem potencial para gerar centenas de companhias listadas, a exemplo do ocorrido nos setores de farmacêutica inovadora e manufatura inteligente. No entanto, o executivo ressalta que apenas um grupo reduzido de cinco a dez empresas deve alcançar a liderança consolidada.
O perfil financeiro das companhias apresenta disparidades acentuadas. A Unitree registrou lucro líquido de 278 milhões de yuans sobre uma receita de 1,69 bilhão de yuans, impulsionada pela expansão nas vendas de robôs quadrúpedes e humanoides. Em contrapartida, concorrentes como Deep Robotics e Leju mantêm forte dependência de subsídios estatais e contratos públicos, com a Leju operando no vermelho e obtendo parcela expressiva de sua receita por meio de projetos de data centers financiados pelo governo.
Desafios operacionais e a realidade da produção industrial
Apesar do otimismo financeiro, o setor enfrenta questionamentos sobre a utilidade prática das máquinas em escala comercial. Empresas como a AgiBot divulgaram marcas expressivas de fabricação, a exemplo de 15 mil unidades produzidas, enquanto Unitree e UBTech reportam volumes na casa das dezenas de milhares.
Ainda assim, lideranças do setor reconhecem limitações na implementação. Documentos regulatórios da Unitree apontam que robôs avançados de uso geral ainda não atingiram o estágio de comercialização em massa. Gao Jiyang, CEO da Galaxea AI, ponderou que nenhuma companhia opera de forma plenamente integrada em ambientes produtivos reais, alertando que a busca precipitada por vendas pode gerar passivos operacionais.
Especialistas acadêmicos, como Zhang Yaqin, reitor do Instituto de Inteligência Artificial da Universidade de Tsinghua, estimam que a produção global de robôs em 2025 se limitará a 20 mil unidades, volume reduzido quando comparado à indústria automobilística. Segundo análises técnicas, as máquinas atuais dominam apenas tarefas específicas e padronizadas, carecendo de autonomia contínua e capacidade cognitiva abrangente.
Transição tecnológica e o foco nos modelos de mundo
Para contornar gargalos relacionados ao processamento de dados e à adaptação a ambientes dinâmicos, o ecossistema tecnológico tem direcionado investimentos para os chamados modelos de mundo. A abordagem busca incorporar leis físicas fundamentais — como gravidade e noções espaciais — aos sistemas de inteligência artificial, superando as limitações dos modelos tradicionais de visão, linguagem e ação.
Startups como X Square Robot, Astribot, AgiBot, Manifold AI e GigaAI atraíram volumes expressivos de recursos financeiros voltados para o desenvolvimento dessas arquiteturas tecnológicas no primeiro semestre.
Em meio às inovações, o ecossistema industrial chinês mantém vantagens competitivas ligadas à cadeia de suprimentos de hardware. Cerca de 90% dos componentes necessários para a fabricação de um robô humanoide concentram-se nas regiões dos deltas dos rios Yangtzé e das Pérolas, enquanto os custos de coleta de dados no país permanecem inferiores aos registrados nos Estados Unidos, sustentando o ritmo de desenvolvimento do setor diante do rigor dos mercados financeiros.
Fonte:: poder360.com.br




