Compreendendo o pé diabético e a importância dos cuidados precoces para evitar amputações

Redação Rádio Plug
7 min. de leitura
Foto: Foto: Divulgação

O aumento progressivo dos casos de diabetes associado ao envelhecimento da população brasileira tem transformado o pé diabético em um dos maiores desafios para os sistemas de saúde pública. Considerada uma das complicações mais severas decorrentes da doença, a condição pode ser prevenida em grande parte das situações por meio de um diagnóstico precoce, acompanhamento médico especializado e adoção de medidas diárias de proteção.

O pé diabético surge em decorrência das alterações provocadas pelo diabetes ao longo dos anos no organismo, afetando diretamente a circulação sanguínea, a sensibilidade e o processo de cicatrização da pele. Dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) indicam que cerca de 19% a 34% dos pacientes diagnosticados com a doença desenvolverão algum tipo de úlcera nos pés durante a vida. Quando essas feridas não recebem identificação e tratamento imediatos, o quadro pode evoluir para infecções severas, elevando drasticamente as probabilidades de intervenções cirúrgicas drásticas, como as amputações.

No estado do Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde tem intensificado estratégias voltadas ao diagnóstico antecipado e à assistência integral aos pacientes. Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Regional Paraná (SBOT-PR), chama a atenção para a relevância de uma especialidade médica fundamental e muitas vezes negligenciada nesse processo: o ortopedista, cujo trabalho é crucial na prevenção, no manejo clínico e na manutenção da mobilidade e da qualidade de vida de quem convive com a patologia.

Embora o controle da taxa de glicose no sangue seja a orientação mais difundida para quem tem diabetes, a doença afeta múltiplos sistemas corporais de forma sistêmica. Com o passar do tempo, o fluxo sanguíneo nas extremidades do corpo diminui consideravelmente. Além disso, as terminações nervosas perdem a capacidade de enviar sinais de dor e outros estímulos táteis, a pele se torna excessivamente seca e as estruturas anatômicas encarregadas de sustentar o peso e garantir a estabilidade ao caminhar sofrem alterações significativas. Esse conjunto de fatores resulta no quadro clínico denominado pé diabético.

O fator mais crítico e perigoso dessa condição é justamente a neuropatia, ou seja, a perda gradual da sensibilidade. Um calçado apertado, o atrito gerado por uma bolha, um arranhão superficial ou a presença de um pequeno corpo estranho dentro do sapato podem originar ferimentos que passam totalmente despercebidos pelo paciente. Como o organismo não emite o alerta da dor, a pessoa continua caminhando e exercendo pressão sobre o local, o que agrava rapidamente a lesão. No momento em que o atendimento médico é buscado, a infecção frequentemente já compromete tecidos profundos, musculatura, tendões e até mesmo a estrutura óssea, exigindo terapias de alta complexidade.

Apesar dos riscos evidentes, especialistas reforçam que a grande maioria dessas complicações pode ser evitada com medidas preventivas rotineiras. Além da manutenção dos níveis glicêmicos sob controle rigoroso, os pacientes devem adotar o hábito de inspecionar os pés diariamente e passar por avaliações médicas periódicas. Essas consultas são essenciais para rastrear alterações na sensibilidade, identificar deformidades anatômicas, checar a circulação e localizar pontos de pressão excessiva que possam dar origem a feridas.

20pediabeticoPé diabético (foto: divulgação)

De acordo com a ortopedista Dra. Bárbara Pupim, que integra a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Regional Paraná (SBOT-PR), a atuação do ortopedista ocorre muito antes que qualquer cenário de amputação seja cogitado. “O nosso papel começa na prevenção. Avaliamos a marcha, a distribuição das cargas nos pés, deformidades, alterações biomecânicas e a necessidade de palmilhas, órteses e calçados adequados. Em alguns casos, também indicamos procedimentos capazes de corrigir deformidades que aumentam o risco de lesões. Quanto mais cedo o paciente é acompanhado, maiores são as chances de preservar a mobilidade e evitar complicações”, pontua a especialista.

Nos quadros mais avançados ou complexos, o profissional de ortopedia também atua ativamente na terapêutica das úlceras, no controle de infecções nos ossos, na correção de deformidades estruturais e no processo de reabilitação daqueles que precisaram passar por procedimentos cirúrgicos de amputação. Essa frente de trabalho engloba cirurgias reconstrutivas, indicação de próteses e dispositivos de suporte, sempre com a meta primária de restituir a autonomia e o bem-estar do paciente.

Os constantes avanços tecnológicos e científicos na área ortopédica também ampliaram consideravelmente o leque de opções terapêuticas disponíveis. Técnicas operatórias menos invasivas, o desenvolvimento de biomateriais modernos para reconstrução de tecidos, o uso de órteses personalizadas e a atuação conjunta de equipes multidisciplinares possibilitam a salvação de membros em cenários que, décadas atrás, resultavam invariavelmente em amputação.

A Dra. Bárbara destaca ainda a importância do engajamento do próprio paciente no autocuidado diário. “Examinar os pés diariamente, manter a pele hidratada, utilizar calçados adequados, nunca andar descalço e procurar assistência ao perceber qualquer ferida, por menor que pareça, são atitudes simples que fazem toda a diferença. O tratamento começa muito antes da cirurgia. Ele começa com informação e prevenção”, ressalta.

Mais do que tratar feridas abertas, prevenir o pé diabético representa garantir a preservação da independência funcional, da capacidade de deambular e da dignidade humana. Para a SBOT-PR, o diagnóstico precoce, o acompanhamento integrado com diferentes especialidades — como endocrinologistas, ortopedistas, cirurgiões vasculares, profissionais de enfermagem e fisioterapeutas — constitui a estratégia indispensável para minimizar as estatísticas de amputações evitáveis e combater de forma eficaz uma das repercussões mais limitantes do diabetes.

Fonte:: bemparana.com.br

Anúncios
Compartilhe este artigo