No sertão cearense, a produção agrícola local ganhou novos horizontes e caminhos criativos pelas mãos da agricultora Regina Rodrigues de Souza. Indo muito além do cultivo tradicional de plantio e colheita, ela passou a transformar parte dos alimentos colhidos em seu sítio em iguarias artesanais comercializadas em feiras agroecológicas da região, criando assim uma importante fonte de receita complementar para o sustento da família.
Entre as inovações que mais chamam a atenção do público e lideram a lista de produtos mais procurados nas feiras estão o inusitado sorvete de cuscuz e a surpreendente pizza de caju. O cardápio artesanal desenvolvido por Regina é vasto e diversificado, incluindo também opções tradicionais e alternativas como doces caseiros de mamão e de jerimum, além de hambúrguer, paçoca elaborada a partir da fibra do caju, vatapá e diversas outras preparações culinárias.
A iniciativa de ressignificar e aproveitar integralmente os alimentos colhidos na propriedade rural nasceu da participação da agricultora em um projeto de capacitação promovido pelo Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (Cetra). Motivada por um curso focado no aproveitamento de frutas, Regina começou a buscar alternativas viáveis para combater o desperdício de alimentos e, ao mesmo tempo, agregar valor financeiro àquilo que já brotava da terra em seu sítio.
A versatilidade do caju na culinária sertaneja
O aproveitamento do caju foi um dos grandes diferenciais desse processo de inovação na propriedade. Após a retirada da polpa suculenta da fruta para o consumo comum, a agricultora percebeu que o bagaço, ou fibra, que normalmente seria descartado, tinha um potencial gastronômico considerável. Ao testar novos temperos e métodos de preparo, ela passou a utilizar a fibra como recheio para pizzas artesanais, abrindo portas para uma série de novas criações.
O sucesso da empreitada superou as expectativas iniciais e conquistou o paladar dos moradores locais e visitantes. “Isso deu muito certo. Eu comecei a produzir e todo mundo gosta, todo mundo procura. O doce de mamão, o doce de jerimum, o sorvete, a pizza, o hambúrguer feito com a fibra do caju”, relata a produtora com entusiasmo sobre a aceitação das receitas.
Essa transformação da matéria-prima em produtos elaborados prontos para o consumo permite que a agricultora obtenha um retorno financeiro significativamente maior por sua safra. Atualmente, os alimentos são comercializados diretamente ao consumidor em feiras agroecológicas organizadas tanto em sua comunidade rural quanto em municípios vizinhos.
Regina leva sua produção semanalmente para Sobral, onde mantém um ponto fixo de vendas na tradicional Praça de Cuba. Além disso, a agricultora já levou seus quitutes artesanais para feiras e eventos em cidades como Massapê, Acaraú e Itapipoca, consolidando uma marca pessoal de qualidade e criatividade que atrai clientes fiéis por onde passa.
Resiliência e convivência com o semiárido brasileiro
A trajetória de Regina com o trabalho rural é antiga e remonta aos tempos da infância. Nascida e criada na mesma propriedade onde vive e trabalha até hoje, ela relembra com orgulho que conseguiu criar os cinco filhos unicamente com os frutos do seu esforço na terra.
Durante muitos anos, o maior obstáculo enfrentado pela família não era o ato de produzir, mas sim a dificuldade de escoar a colheita e encontrar canais de comercialização justos. Esse cenário começou a se transformar com a inserção em feiras locais e o suporte de projetos voltados ao fortalecimento da agricultura familiar na região.
Hoje em dia, a agricultora enxerga seu pedaço de chão muito além de uma simples ferramenta de sobrevivência; a propriedade é seu lar e um espaço de realização pessoal. Para ela, viver e produzir no desafiador contexto do semiárido exige forte capacidade de adaptação, mas também garante o privilégio de manter um estilo de vida simples e conectado com o meio ambiente.
“Eu digo que sou rica. Eu sou rica porque, se eu morasse numa cidade, eu não vivia uma vida dessa aqui. O ar puro. Eu estou no paraíso”, define Regina Rodrigues, evidenciando o orgulho de sua rotina no campo.
A consciência ambiental e a sustentabilidade também guiam os passos e os planos da agricultora para o futuro da produção de alimentos. Ela defende que mais produtores rurais tenham oportunidades semelhantes de acesso ao conhecimento técnico e destaca que a proteção e o uso racional dos recursos naturais precisam caminhar lado a lado com a atividade agrícola.
O saber técnico aliado à prática diária
A evolução das práticas adotadas na propriedade foi impulsionada pela chegada de novas frentes de conhecimento e assistência técnica. Regina faz questão de ressaltar a importância da parceria com profissionais ligados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que passaram a atuar lado a lado com os agricultores da comunidade, acompanhando de perto o desenvolvimento das atividades cotidianas no sítio.
Para a produtora, o diferencial dessa assistência foi o modelo colaborativo adotado pelos técnicos, que abandonaram a postura distante para vivenciar a realidade da agricultura familiar. “Eles vieram trabalhar junto com a gente, não deixaram a gente trabalhar sozinho”, pontua.
“Eles não vieram para dizer assim: ‘Você vai fazer isso e vai dar o resultado em determinado tempo’. Não. Eles vieram e ficaram junto com a gente. Eles vieram trabalhar junto com a gente, não deixou trabalharmos sozinhos”, reforça a agricultora sobre a parceria que transformou o cotidiano produtivo de sua comunidade no sertão.
Fonte:: canalrural.com.br


