Cientistas criam assinatura química para rastrear origem da tainha brasileira

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Canalrural.com.br

Uma investigação conduzida por pesquisadores da Embrapa em colaboração com outras instituições acadêmicas conseguiu desenvolver um método inovador capaz de estabelecer a procedência geográfica da tainha brasileira (Mugil liza). A técnica baseia-se na identificação de uma espécie de identidade molecular exclusiva extraída diretamente do tecido muscular do animal, marcando um progresso significativo para a autenticidade e a segurança alimentar no setor pesqueiro nacional.

Os dados detalhados da inovação foram veiculados recentemente no periódico científico internacional Fishes, por meio do artigo Application of Magnetic Resonance Tools for Qualification and Traceability of Mullets. O projeto uniu o trabalho dos especialistas Fabíola Fogaça, lotada na Embrapa Agroindústria de Alimentação, situada no Rio de Janeiro, e Luiz Colnago, vinculado à Embrapa Instrumentação, em São Paulo. O esforço científico contou ainda com a participação de membros da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), além do suporte financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Metodologia baseada em ressonância e metabolômica

Para alcançar o mapeamento desejado, o grupo empregou a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (^1H NMR). O procedimento atua de maneira análoga a um exame de imagem aprofundado, registrando a disposição espacial dos átomos de hidrogênio. Essa tecnologia foi associada à metabolômica, disciplina dedicada a investigar os metabólitos, que consistem em pequenas estruturas geradas pelo organismo durante os processos bioquímicos cotidianos.

Por meio dessa fusão metodológica, os cientistas isolaram biomarcadores específicos que possibilitam distinguir espécimes de tainha apanhados em três zonas distintas do território nacional. O método evidenciou disparidades na composição muscular diretamente ligadas a fatores como o habitat, os índices de salinidade, os hábitos alimentares e a dinâmica fisiológica dos animais.

Conforme aponta a pesquisadora Fabíola Fogaça, a descoberta traz um fôlego inédito tanto para a ciência voltada aos alimentos quanto para a cadeia produtiva comercializada no país. Segundo ela, a possibilidade de determinar a procedência por meio de um perfil metabólico altamente refinado funciona como uma verdadeira assinatura natural, gerando uma ferramenta robusta para coibir fraudes e certificar a mercadoria.

Precisão tecnológica e rigor laboratorial

A fase experimental envolveu a coleta de exemplares em diferentes períodos sazonais na Lagoa de Araruama e na Baía de Sepetiba, ambas no Rio de Janeiro, bem como na faixa litorânea de Santa Catarina. O protocolo exigiu o uso de um espectrômetro de alta resolução para examinar a matriz molecular do tecido com alto grau de exatidão.

De acordo com Luiz Colnago, especialista em ressonância magnética, o diferencial técnico reside na capacidade de obter um diagnóstico abrangente sem destruir a amostra original. O procedimento gera um panorama bioquímico comparável a um código de barras individualizado, revelando substâncias ligadas diretamente à rotina biológica do animal, a exemplo de creatina, lactato, taurina e diversos aminoácidos essenciais.

Para assegurar a robustez estatística dos achados, a equipe cruzou centenas de variáveis obtidas em laboratório. A análise confirmou que espécimes de origens distintas mantêm características próprias, com destaque para variações nas concentrações de compostos como histidina, fenilalanina, treonina e ornitina. Os testes também comprovaram que variações de tamanho corporal ou mudanças sazonais exercem pouca interferência na assinatura química fundamental.

O caso singular da Lagoa de Araruama

Um dos pontos de maior destaque na investigação foi a constatação de que o ecossistema da Lagoa de Araruama imprime traços metabólicos singulares nos animais. Reconhecida como a maior lagoa hipersalina permanente do planeta, o local apresenta concentrações de sal superiores a 52‰, patamar muito acima do observado na água marinha comum.

Essa peculiaridade ambiental força adaptações orgânicas intensas nos peixes, modificando os mecanismos de controle hidroeletrolítico e a gestão energética celular. Para os cientistas, o ambiente deixa marcas bioquímicas indeléveis que facilitam o reconhecimento imediato de espécimes oriundos daquela região fluminense.

Impacto comercial e valorização regional

Além da contribuição acadêmica, o mapeamento oferece suporte prático para órgãos de fiscalização e para o encadeamento de certificações de origem. A tecnologia surge como um instrumento de defesa contra a falsificação de procedência e a substituição clandestina de espécies no mercado interno.

O material gerado pelo estudo servirá de embasamento técnico para fundamentar o pleito de Indicação Geográfica, na vertente de Denominação de Origem, direcionado à tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Integrando conceitos de inteligência artificial à espectroscopia, o trabalho demonstra como a união de diferentes disciplinas pode fortalecer a segurança alimentar e proteger o consumidor final contra a comercialização irregular de pescados em território nacional.

Fonte:: canalrural.com.br

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