O avanço tecnológico na agricultura ganha um aliado importante com o desenvolvimento de uma nova ferramenta digital voltada para o cálculo da necessidade hídrica das lavouras. Trata-se da EVAonline, uma aplicação web de código aberto que opera sem a necessidade de instalações complexas e tem como principal finalidade estimar a evapotranspiração de referência (ET₀) em âmbito global. A inovação promete transformar a engenharia de irrigação e a gestão dos recursos hídricos no campo, oferecendo suporte técnico de alta precisão para produtores rurais e pesquisadores.
A criação da plataforma é fruto de uma tese de doutorado desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), unidade da Universidade de São Paulo (USP) localizada em Piracicaba. O projeto foi conduzido pela pesquisadora Ângela Silviane Moura Cunha Soares, sob a orientação da professora Patrícia Angélica Alves Marques, vinculada ao Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq, e contou com a coorientação do professor Carlos Dias Maciel, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Origem e desafios superados
O desenvolvimento da ferramenta começou em julho de 2021 e foi concluído recentemente. O projeto nasceu no âmbito de uma colaboração estratégica entre a Esalq e o Centro de Inteligência Artificial (C4AI), uma iniciativa que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da IBM Brasil.
O ponto de partida para a pesquisa foi um obstáculo recorrente no setor agrícola: a mensuração da evapotranspiração de referência, indicador que traduz a demanda hídrica da atmosfera e serve de base para calcular o volume de água exigido pelas plantações. O cálculo tradicional depende de dados meteorológicos que muitas vezes estão ausentes ou inacessíveis em áreas de fronteira agrícola. Além disso, as soluções disponíveis no mercado exigiam o manuseio de dados climáticos brutos de fontes isoladas, conhecimento avançado em programação ou a realização de downloads manuais.
Para solucionar essas barreiras, o trabalho consistiu na criação de um sistema automatizado seguido de um processo rigoroso de validação científica. A tecnologia foi testada com base em um conjunto de dados de referência brasileiro, abrangendo 17 localidades na região do Matopiba e somando mais de 186 mil observações diárias coletadas ao longo de três décadas, entre 1991 e 2020.
Como opera a estação virtual
O objetivo fundamental do projeto é democratizar o acesso a estimativas climáticas confiáveis, eliminando a dependência de estações meteorológicas físicas instaladas nas propriedades. Essa facilidade se mostra essencial em regiões como o Matopiba — que engloba áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, onde a escassez de infraestrutura de monitoramento costuma dificultar a gestão da água.
Em vez de depender exclusivamente de sensores locais, a EVAonline integra informações de seis bases de dados públicas sobre o clima, incluindo plataformas como Nasa Power e Open-Meteo. A unificação ocorre por meio de uma técnica de fusão dividida em duas etapas, incorporando um filtro adaptativo baseado em normais climatológicas de 30 anos de cidades brasileiras. Na prática, essa arquitetura funciona como uma estação meteorológica virtual onde não há equipamentos físicos instalados, reduzindo o erro médio pela metade e mitigando vieses sistemáticos em comparação com o uso de fontes isoladas.
Facilidade de uso e transparência
A interface da aplicação foi desenhada para ser intuitiva e acessível. O usuário pode selecionar um ponto diretamente no mapa ou utilizar a geolocalização do dispositivo. Em seguida, escolhe o horizonte temporal desejado, que pode contemplar séries históricas longas, dados recentes dos últimos dias ou previsões para o futuro próximo.
Os resultados com as estimativas de ET₀ são enviados por correio eletrônico em formatos compatíveis com planilhas e imagens, como Excel, CSV, JPG e PNG. O sistema conta com interface bilíngue, em português e inglês, exibe o déficit hídrico acumulado e dispensa qualquer exigência de programação ou gestão de chaves de acesso externas.
Toda a documentação técnica está acessível na página oficial da documentação. O código-fonte é distribuído sob licença livre AGPL-3.0 e encontra-se disponível no GitHub, permitindo que qualquer interessado possa auditar, reutilizar ou colaborar com o aprimoramento da ferramenta.
O impacto acadêmico e prático da pesquisa rendeu reconhecimento internacional com a publicação de um artigo científico no periódico especializado Environmental Modelling & Software, editado pela Elsevier. O estudo completo pode ser consultado diretamente na publicação oficial.
Fonte:: poder360.com.br




