A estratégia de Trump de comprar a paz junto aos aiatolás do Irã vai funcionar?

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Após o insucesso em derrotar o Irã por meio de ações militares, o presidente Donald Trump agora busca uma nova abordagem, oferecendo subornos como forma de negociação. Em um acordo que se desenrolou ao longo de semanas de discussões sobre como pôr fim ao conflito, Trump e seu homólogo iraniano firmaram um memorando de paz que se resume à promessa de consideráveis quantias em dinheiro para o Irã, desde que o país consiga demonstrar que não está mais interessado em desenvolver armas nucleares. Trata-se de uma jogada imensa e cheia de riscos, que certamente deixará outros países do Oriente Médio em reflexão.

O memorando representa uma mudança significativa em relação aos objetivos previamente estabelecidos por Trump em relação ao Irã. Não há previsão de mudança de regime; nenhum apoio ao povo iraniano será oferecido; e não existem limites estabelecidos para os mísseis balísticos do Irã ou seu suporte a grupos aliados. O foco do acordo se concentra em dois pontos principais. Um deles é a reabertura do Estreito de Ormuz, que serve como um claro lembrete das falhas da estratégia militar de Trump e da humilhação subjacente à sua tentativa de recuo. Antes do início dos combates, a passagem de embarcações era livre; no entanto, após o fim da janela de 60 dias estipulada, é possível que navios precisem pagar taxas para atravessar a região.

O segundo ponto diz respeito ao programa nuclear. O governo iraniano praticamente não cedeu em suas demandas. Sua promessa de não buscar uma bomba atômica é uma posição antiga. O país se compromete a reduzir o enriquecimento de seu urânio e discutir outros aspectos de seu programa nuclear, mas essas questões são complexas, e o Irã tem um histórico de dilatação nas negociações. Somam-se ao acordo também os pagamentos substanciais. O Irã poderá exportar petróleo e derivados imediatamente. Dependendo do avanço das negociações, os Estados Unidos se comprometerão a descongelar ativos no valor de dezenas de bilhões de dólares, suspender sanções e auxiliar na criação de um fundo de pelo menos US$ 300 bilhões para reconstrução e desenvolvimento. Trump, visivelmente cansado dos conflitos bélicos, vê a retirada das tropas americanas em um futuro próximo, o que pode limitar suas opções de ação militar.

Com isso, o regime iraniano se depara com uma oportunidade sem precedentes de trocar a potencial aquisição de armas nucleares por recursos financeiros e investimentos. Diferente de presidentes anteriores, Trump parece desinteressado com as questões democráticas. Após o uso do Estreito como uma ferramenta de pressão, o Irã pode agora considerar que as armas nucleares não são mais tão essenciais em sua estratégia. Com um governo internamente impopular, a injeção de dinheiro seria uma boa solução para suas dificuldades.

Entretanto, há diversas razões para acreditar que essa abordagem pode falhar. Os líderes mais conservadores do Irã não têm motivo para confiar nos Estados Unidos. Muitos deles acreditam que Israel tentará sabotar o acordo. A influência regional que buscam é sustentada por sua postura de antagonismo em relação ao que chamam de “Grande Satã”. Além disso, a questão do programa nuclear conferiu prestígio ao regime iraniano e, potencialmente, uma forma de proteção. A presença de inspetores internacionais pode se deparar com dificuldades para evitar fraudes. Existe o risco de que os líderes iranianos tentem tirar vantagem de ambos os mundos.

Israel, que apoiou a guerra inicialmente, se deparou com uma amarga desilusão em sua execução. Lutou lado a lado com os Estados Unidos, mas acabou completamente excluído das negociações e sua capacidade de enfrentar o Hezbollah no Líbano foi seriamente comprometida. Isso poderia afetar diretamente a candidatura à reeleição de seu primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, nas eleições que se aproximam.

A guerra é considerada um fracasso estratégico, uma vez que o Irã continua a representar uma ameaça significativa. Netanyahu testou os limites da disposição dos Estados Unidos de agir, e o resultado foi considerado insatisfatório para Israel. Qualquer novo líder que venha a assumir precisará desenvolver uma nova estratégia de segurança.

Os países do Golfo têm uma necessidade urgente de restaurar sua imagem como refúgios de prosperidade em uma região marcada pela violência. Mesmo com a promessa de um acordo, a realidade é que drones e mísseis iranianos continuarão a representar um risco. A construção de oleodutos que evitem a passagem pelo Estreito de Ormuz será uma consideração valiosa no futuro.

Contudo, o Golfo também precisará reavaliar sua segurança. Não existe garantia de que os Estados Unidos estarão dispostos a se envolver militarmente em uma próxima ocasião. Algumas nações poderão procurar maneiras de desencorajar a agressividade iraniana, como os Emirados Árabes Unidos, que podem buscar laços mais fortes com Israel. Outros poderão tentar se adaptar e se acomodar, enquanto alguns preferirão permanecer em uma posição ambígua.

A decisão de Trump de iniciar essa guerra foi questionável desde o começo. Agora, ele parece estar baseado na crença de que as pessoas se moverão por dinheiro. Contudo, a primeira regra da diplomacia é não presumir que seu oponente pense da mesma forma.

Fonte:: estadao.com.br

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