O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, esteve no Vaticano nesta quinta-feira, 7, em uma visita que busca restaurar as relações entre as autoridades americanas e a Santa Sé. Essa iniciativa ocorre após as críticas proferidas pelo presidente Donald Trump contra o papa Leão XIV, além das recentes tensões relacionadas à política dos EUA e Israel em relação ao Irã, que geraram descontentamento no Vaticano.
Em comunicado, o Departamento de Estado dos EUA informou que as discussões durante os encontros incluíram a situação no Oriente Médio e enfatizaram a “forte relação entre os EUA e a Santa Sé”, que se baseia em uma “parceria duradoura”.
Rubio, que é católico praticante, deu início aos encontros com o papa Leão, um diálogo que se tornou especialmente delicado devido às recentes declarações de Trump, que criticou o pontífice nas redes sociais. O papa respondeu às críticas de Trump, alegando que o presidente distorceu sua posição sobre o Irã e armas nucleares, frisando que sua missão é pregar a mensagem de paz contida na Bíblia.
Durante a visita, que durou cerca de duas horas e meia, Rubio também se encontrou com o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. Na véspera, Parolin defendeu o papa e criticou indiretamente a postura de Trump. “Atacar o papa dessa forma ou criticar o que ele faz parece um pouco estranho, para dizer o mínimo”, declarou Parolin.
Após as conversas, o Departamento de Estado destacou que Rubio e Parolin discutiram “esforços humanitários em andamento na América Latina e os esforços para alcançar uma paz duradoura no Oriente Médio”. A nota também indicou que a conversa refletiu a colaboração de longa data entre os EUA e a Santa Sé na promoção da liberdade religiosa.
Além disso, o porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, mencionou que Rubio e Leão XIV abordaram a situação no Oriente Médio e temas de interesse mútuo na América Latina. “O encontro ressaltou a conexão forte entre os Estados Unidos e a Santa Sé e seu compromisso compartilhado com a promoção da paz e da dignidade humana”, afirmou.
Na sexta-feira, 8, Rubio deve se reunir com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e com o vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani. Esses encontros provavelmente representarão um desafio para o secretário, já que ambos os líderes italianos manifestaram apoio ao papa e criticaram a guerra contra o Irã, posicionamento que desagrada Trump.
Rubio ressaltou que a visita estava planejada há algum tempo, mas reconheceu que a sequência de eventos recentes teve impacto nas discussões.
Tensões entre Trump e o papa
As relações entre Trump e Leão XIV se deterioraram no mês anterior, quando Trump utilizou as redes sociais para criticar o papa. O presidente o acusou de ser conivente com o crime e o terrorismo, citando os questionamentos do Vaticano sobre as políticas de imigração e deportação do governo americano, assim como a resistência do Vaticano à guerra no Irã. Em resposta, Leão mencionou que “Deus não escuta as orações de quem promove a guerra”.
A situação se intensificou quando Trump publicou uma imagem que parecia traçar uma comparação entre ele e Jesus Cristo, postagens que foram removidas após uma forte reação negativa. Trump não se desculpou e justificou a imagem, afirmando que a considerava uma representação de si mesmo como um curador.
Rubio argumentou que as críticas de Trump se baseiam na preocupação com o programa nuclear do Irã, que, segundo o presidente, representaria uma ameaça a milhões de católicos e cristãos. “Trump não entende por que alguém – incluindo o papa, e eu também – pode achar que é uma boa ideia o Irã ter armas nucleares”, comentou Rubio a jornalistas na Casa Branca.
O papa, por sua vez, nunca apoiou a nuclearização do Irã. Ele reafirmou que a Igreja Católica tem se oposto a todas as armas nucleares. “Não há dúvida sobre isso”, disse Leão em sua defesa.
Na terça-feira, após novas acusações de Trump a respeito de sua possível concordância com o Irã sobre armas nucleares, Leão respondeu: “A missão da Igreja é pregar o Evangelho e promover a paz. Se alguém quiser me criticar por anunciar o Evangelho, que o faça com a verdade.”
Embora reconheça a tradição da “guerra justa” e o direito das nações à defesa, Leão destacou que, na era atômica, “todo o conceito de guerra precisa ser reavaliado”. “Sempre acreditei que é preferível buscar o diálogo do que as armas”, ressaltou.
Rubio frequentemente é chamado a suavizar ou explicar a retórica mais agressiva de Trump. O presidente também tem criticado a Itália e seus aliados da OTAN pelo pouco apoio à guerra no Irã, além de anunciar a intenção de retirar milhares de soldados da Alemanha nos próximos meses.
Diálogo contínuo do Vaticano
Giampiero Gramaglia, ex-diretor da agência ANSA e ex-correspondente em Washington, afirmou não esperar grandes avanços nas relações entre o Vaticano e a Itália a partir da visita de Rubio. Analistas italianos sugerem que Rubio busca, na verdade, consolidar sua própria imagem política e fortalecer seus laços com o papa em meio a suas ambições eleitorais, como as próximas eleições legislativas e a corrida presidencial de 2028.
“Dúvido que Rubio atue como um conciliador para Trump”, disse Gramaglia à Associação da Imprensa Estrangeira na Itália. “Acredito que sua missão é mais sobre ele mesmo e suas ambições políticas como um influente republicano católico.”
O padre Antonio Spadaro observou que o propósito de Rubio não era “converter” o papa ao lado de Trump. Pelo contrário, a ideia seria que Washington reconhecesse, mesmo que de forma implícita, que a voz de Leão tem peso no mundo e não pode ser ignorada.
“A situação criada pelas declarações do presidente exigiu uma intervenção de alto nível, utilizando a linguagem diplomática apropriada: uma correção semântica a uma narrativa de conflito direto com a Igreja”, comentou Spadaro em um artigo publicado recentemente.
A historiadora Farian Sabahi, de origem iraniana, destacou que a primeira-ministra italiana deveria condenar a guerra de forma mais enfática, posicionando a Itália favoravelmente para um futuro restabelecimento das relações com o Irã. A Itália, atualmente, é o segundo maior parceiro comercial da União Europeia com o Irã, atrás apenas da Alemanha, operando dentro do regime de sanções da UE.
“De uma perspectiva oportunista, seria até aconselhável condenar a agressão israelense-americana, proporcionando às empresas italianas a oportunidade de negociar, dado que existem muitos outros atores internacionais dispostos a entrar no mercado iraniano”, disse Farian.
Discussões sobre Cuba
Além da guerra no Irã, Rubio também mencionou que Cuba está entre os temas abordados em sua visita ao Vaticano. O governo da Santa Sé expressa preocupação com as ameaças de ações militares contra Cuba por parte do governo Trump, especialmente após a queda do regime de Nicolás Maduro na Venezuela.
Trump frequentemente declara que Cuba pode ser o “próximo alvo” e aventou a possibilidade de que, após o término dos conflitos no Irã, as forças navais enviadas ao Oriente Médio poderiam retornar aos EUA passando por Cuba.
Filho de imigrantes cubanos, Rubio tem mantido uma posição firme em relação ao regime cubano. “Enviamos US$ 6 milhões em ajuda humanitária a Cuba, mas eles não nos permitem distribuí-la”, observou. “Estamos fazendo isso através da Igreja, e desejamos fazer ainda mais.”
Fonte:: estadao.com.br




