Boom de data centers gera revolta de eleitores e ameaça plano político nos EUA

Redação Rádio Plug
5 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Daniel Gateno

O avanço vertiginoso na construção de centros de dados voltados para inteligência artificial nos Estados Unidos começou a transformar a dinâmica política do país, provocando insatisfação profunda em comunidades locais e ameaçando desgastar o capital político de aliados do presidente Donald Trump nas próximas eleições de meio de mandato.

No trajeto entre Columbus e New Albany, no Estado de Ohio, a paisagem rural tradicional foi tomada por enormes instalações de servidores pertencentes a gigantes como Amazon e Google. Com apenas 11 mil habitantes, New Albany abriga mais de 40 datacenters, com a previsão de inauguração de outras dezenas nos próximos meses. O impacto dessas estruturas de hiperescala — que geram poluição sonora constante, demandam enormes volumes de água e consomem quantidades massivas de energia — deu origem a um movimento de resistência suprapartidária.

Moradores de diferentes espectros políticos se uniram em oposição ao modelo de expansão desenfreada. Darcie Odum, artista plástica e ativista democrata da ONG Conserve Ohio, e Brandyn Bernard, chefe de cozinha e eleitor republicano em Pataskala, município vizinho, compartilham das mesmas queixas sobre a perda de áreas agrícolas, a desvalorização imobiliária e a descaracterização da rotina comunitária.

“As empresas de tecnologia compraram as casas dos moradores e derrubaram todas as plantações com tratores até não sobrar nada. A rotina da cidade foi afetada”, relata Bernard, que agora lamenta seu voto em Trump diante do apoio irrestrito do governo federal às big techs. “O presidente Trump adora datacenters. Empresas como Meta, Microsoft, Amazon e Google têm vínculos com o Partido Republicano, e Trump permite que elas façam o que quiserem”, critica.

Reservatórios de água para data centers em New Albany, Ohio

Resistência e barreiras acústicas

Durante um tour pela região afetada, é possível notar o isolamento imposto aos poucos residentes restantes, cercados por barreiras acústicas erguidas para abafar o zumbido ininterrupto das máquinas. A tensão no local é palpável: tentativas de registro fotográfico por ativistas e jornalistas frequentemente atraem seguranças particulares que ameaçam acionar as autoridades policiais.

Para tentar barrar o avanço das instalações, o Conserve Ohio busca reunir assinaturas suficientes para aprovar uma emenda constitucional estadual que proíba novos complexos com consumo superior a 25 megawatts mensais. O condado de Licking, reduto tradicionalmente conservador onde Donald Trump obteve ampla votação, tornou-se o epicentro dessa insatisfação popular.

Barreiras acústicas para reduzir a poluição sonora dos data centers, em New Albany, Ohio

Especialistas em justiça ambiental apontam que o problema ultrapassa as divisões partidárias, mas penaliza de forma mais direta os eleitores republicanos das zonas rurais. Becca Pollard, diretora executiva da Buckeye Environmental Network, destaca que o modelo atual gera poucos empregos permanentes para os residentes locais, concentrando os benefícios econômicos em curto prazo apenas no setor da construção civil.

Na Pensilvânia, preocupações semelhantes ecoam entre lideranças locais. Stacey Palmer, figura do Partido Republicano no condado de Butler, adverte que o solo agrícola perdido para a expansão tecnológica jamais recuperará sua vocação original, enquanto a população arcará com tarifas de energia mais altas.

Darcie Odum, ativista do Conserve Ohio, durante um tour pelos data centers em New Albany

Impacto nas urnas e reação política

Dados do Pew Research Center corroboram o sentimento de rejeição: o percentual de americanos que enxerga os centros de dados como uma ameaça ao meio ambiente subiu consideravelmente, assim como a apreensão em relação ao encarecimento das contas de luz.

Diante do desgaste eleitoral, governadores de ambos os partidos começaram a recuar no apoio incondicional. Em Ohio, o governador republicano Mike DeWine suspendeu novas concessões de isenções fiscais, exigindo maior diálogo entre as corporações e as comunidades afetadas. Na Pensilvânia, o governador democrata Josh Shapiro também endureceu as exigências para o repasse de subsídios, cobrando maior rigor em licenças ambientais e transparência energética.

Becca Pollard, diretora-executiva do Buckeye Environmental Network, em entrevista ao Estadão na cidade de Columbus, Ohio

Por outro lado, setores sindicais e comerciais defendem os investimentos como vitais para a modernização da infraestrutura e a geração de empregos na construção civil. Dorsey Hager, líder do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil na região central de Ohio e filiado ao Partido Democrata, argumenta que grande parte da demanda atual por mão de obra decorre desses projetos e atribui o encarecimento da energia ao crescimento populacional geral.

Da mesma forma, lideranças econômicas em áreas industriais decadentes defendem a revitalização de zonas degradadas por meio da tecnologia. É o caso de iniciativas na região de Pittsburgh, onde antigas usinas de carvão desativadas estão sendo convertidas em datacenters para injetar nova arrecadação em municípios esquecidos pela economia tradicional.

Registro das raras casas que continuam na região dos data centers, em New Albany, Ohio

Fonte:: estadao.com.br

Anúncios
Compartilhe este artigo