As ruas de Paris voltaram a registrar momentos de tensão e confronto neste domingo, 18, poucas horas antes que a cidade pudesse contabilizar integralmente os prejuízos deixados pelas manifestações da véspera. Na região da Praça da República e em suas imediações, novos episódios de incêndios, depredações e choques diretos entre manifestantes e as forças de segurança marcaram a tarde. A poucos metros dali, no entanto, moradores tentavam preservar a normalidade da rotina, correndo, praticando exercícios físicos ou frequentando bares para observar a movimentação.
A mobilização deste domingo havia sido convocada por meio de redes sociais para as 14h, no horário local, sem o devido aviso prévio às autoridades competentes. Até o início da noite, grupos de jovens foram vistos montando barricadas com diversos objetos, como lixeiras, bicicletas elétricas, placas de sinalização e extintores de incêndio, além de lançarem pedras contra a polícia. As forças de segurança responderam com o uso de bombas de dispersão e agentes irritantes, enquanto equipes de bombeiros atuavam rapidamente para conter os focos de incêndio que se alastravam pela área.

Balanço oficial e repercussão das manifestações
O balanço nacional divulgado pelo Ministério do Interior, liderado por Laurent Nuñez, indicava mais de 2 mil detenções e mais de 600 agentes feridos em decorrência dos distúrbios ocorridos no sábado, embora esses números não reflitam exclusivamente os incidentes de domingo. Apenas na região metropolitana de Paris, a polícia contabilizou 855 prisões ligadas ao ato anterior. Outros pontos do país, como Marselha, também registraram episódios de violência, incluindo tentativas de invasão a estabelecimentos comerciais.
A manifestação de sábado levou centenas de milhares de pessoas às ruas em toda a França — estimativas oficiais apontam 550 mil participantes, enquanto os organizadores calculam cerca de 800 mil. As principais reivindicações giravam em torno do alto custo de vida, da inflação e de melhores condições nas escolas e universidades. Contudo, a escalada de destruição gerou divisões profundas entre os próprios cidadãos e observadores sobre a legitimidade dos métodos empregados.

Visões divergentes entre moradores e manifestantes
Para residentes como a brasileira Bianca, que vive na capital francesa com seu companheiro, a percepção da gravidade dos atos só veio com a luz do dia. Após passarem o sábado isolados dos acontecimentos, o casal deparou-se com o cenário de destruição no domingo pela manhã. “Ficamos em casa no sábado, desligados de tudo. No domingo vimos a destruição. Não somos contra manifestações pacíficas, e houve manifestações do tipo”, relatou Bianca, reconhecendo que a insatisfação popular com o governo e com a carestia tem fundamento real, mas ressaltando que os atos de vandalismo desviam o foco das pautas centrais.
Do outro lado das barricadas, jovens manifestantes defendiam a continuidade dos atos. O estudante Gaël, que utilizava um colete com inscrições alusivas a uma “revolução da geração Z”, expressou o sentimento de revolta predominante em seu grupo. “Estamos cansados. Cansados deste governo corrupto, desta polícia violenta, deste país que não nos dá condições para viver bem”, afirmou, classificando o confronto como parte de uma luta ampla contra o sistema estabelecido.

Outros participantes tentaram delimitar alvos mais específicos. Louis, colega de Gaël na linha de frente, direcionou suas críticas às políticas econômicas e à direita francesa, pontuando que o movimento busca encerrar uma década de gestões que considera ineficientes. Nas paredes e nos cartazes espalhados pela cidade, as pichações e palavras de ordem incorporavam pautas diversas, indo desde o aumento salarial e recursos para hospitais até críticas a bilionários globais e aos algoritmos de plataformas digitais, refletindo a multiplicidade e a dispersão das demandas sociais.

A rotina em meio ao caos urbano
Enquanto o centro de Paris presenciava choques e fumaça de bombas de gás, a proximidade geográfica não impediu que parte da população seguisse com suas atividades habituais. Douglas, morador nascido e criado nos arredores da Praça da República, recusou-se a alterar seus planos de exercício físico. “Isso não é problema meu. Essas crianças não sabem o que fazem. Pedem pelo fim da polícia, pela queda de Macron e por qualquer outra besteira”, declarou, enfatizando sua determinação em não deixar que a baderna dite as regras de seu cotidiano.
Em locais próximos, clientes de pubs aproveitavam o domingo nas mesas externas, divididos entre a curiosidade de assistir aos desdobramentos e o desejo de manter a normalidade. Em outras áreas da capital, como a famosa avenida Champs-Élysées, os reflexos do sábado ainda eram visíveis através de algumas marcas nos comércios, mas o fluxo intenso de turistas e pedestres demonstrava que a vida na região seguia seu curso regular.

Pronunciamento oficial e promessas de diálogo
No início da noite de domingo, o presidente Emmanuel Macron pronunciou-se publicamente sobre os episódios, classificando os atos de vandalismo como ações de grupos radicais e criminosos. O chefe de Estado garantiu que os responsáveis pela destruição e pelos saques serão responsabilizados judicialmente e obrigados a arcar com os reparos dos danos causados.
“Nada justifica, nada explica, nada desculpa”, declarou Macron, fazendo questão de separar os vândalos dos manifestantes que protestam de forma legítima contra a carestia e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes. Como medida para conter a crise, o governo anunciou a abertura de canais de diálogo com sindicatos, professores, empresários e autoridades locais para debater soluções econômicas, além de uma revisão nas estratégias de segurança e inteligência das forças policiais para evitar novos confrontos nas ruas francesas.
Fonte:: estadao.com.br


