Desde o início do conflito no Oriente Médio, Azhin Hosseini, de 32 anos, tem enfrentado dificuldades para se comunicar com sua família no Irã. Mora em Berlim desde o ano passado, após ter conseguido um visto humanitário e atualmente as notícias que recebe sobre seus parentes e amigos são escassas.
Os familiares de Azhin residem em Sarvabad, uma cidade na região do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque. Após o ataque dos Estados Unidos e de Israel a Teerã, em 28 de fevereiro, o regime iraniano cortou quase completamente o acesso à internet, dificultando ainda mais o contato entre Hosseini e seus conterrâneos.
“Não consegui falar diretamente com meus familiares, mas contatei pessoas da cidade onde moro e perguntei sobre eles. Disseram que estão seguros. Isso é tudo o que pude saber até agora”, relatou ela ao Estadão.
O corte no acesso à internet gerou reações de organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch. Tomiwa Ilori, pesquisador sênior de tecnologia e direitos humanos da organização, declarou que “o desligamento da internet em momentos de crise dificulta o acesso a informações que podem salvar vidas, como locais de ataque e formas seguras de receber atendimento médico”.
Essa não é a primeira vez que o governo iraniano suspende o fornecimento de internet em situações de crise. Em janeiro, as autoridades já haviam feito o mesmo em meio aos protestos provocados pela alta da inflação. Em junho do ano passado, durante um ataque de Israel ao Irã que durou 12 dias, o bloqueio de internet também foi implementado.
Forçada a fugir
Azhin Hosseini, que possui formação em Direito, deixou o Irã em 2019 após sua vida ser colocada em perigo devido à sua colaboração com organizações de direitos humanos e veículos de comunicação curdos. A minoria curda no Irã é vista pelo governo como uma ameaça política por exigir maior autonomia regional; alguns grupos ainda buscam a independência. Os curdos se distribuem também por áreas do Iraque, Turquia e Síria.
Hosseini dedicou-se a documentar e denunciar violações de direitos humanos em seu país e participava de iniciativas culturais que promoviam a cultura curda. Ela havia solicitado autorização ao governo para ensinar curdo a estudantes locais, autorização que foi negada.
Sua atuação despertou a atenção das autoridades de inteligência do regime, liderado pelo então líder supremo Ali Khamenei, falecido há mais de um mês no primeiro dia de ataques. Frequentemente, Azhin foi interrogada e disse que as autoridades exerceram pressão e fizeram ameaças para que ela confessasse que suas atividades eram dirigidas por partidos políticos.
Depois que o regime descobriu que ela havia enviado relatórios a organizações internacionais sobre prisões de curdos no Irã, agentes de segurança invadiram sua residência e a de um amigo próximo, forçando-a a fugir.
Atualmente, em meio à guerra, ela busca informações de pessoas que atuavam em atividades semelhantes às suas no passado. “As notícias chegam principalmente através de nossas Algumas pessoas utilizam Starlink de forma muito limitada, mas os riscos são extremamente altos”, explicou.
Conforme Azhin, um conhecido de sua cidade foi morto recentemente ao se aproximar da fronteira enquanto usava internet. “As forças governamentais monitoram dispositivos Starlink e residências com equipamentos especiais; qualquer pessoa que utilizar esses dispositivos corre o risco de prisão e de ser acusada de espionagem”, alertou.
Desde o início do conflito, as autoridades iranianas informaram a prisão de mais de 2.000 pessoas. Nesse mesmo período, a ONG Iran Human Rights registrou 38 detenções de ativistas políticos e defensores de direitos humanos. As acusações contra os detidos incluem espionagem a favor de Israel e Estados Unidos, transmissão de imagens para fora do país, posse de equipamentos de internet via satélite e tentativas de organizar protestos contra o governo.

Azhin afirma que, a partir das poucas informações que conseguiu coletar, muitos mercados e lojas em sua cidade estão fechados. “A vida cotidiana das pessoas é extrema e marcada por estresse e medo devido aos constantes bombardeios”. Ela menciona que diversas instalações militares e de segurança em áreas curdas foram destruídas.
A ativista expressa que, ao tomar conhecimento do ataque ao Irã, sentiu uma mistura de medo e esperança. “Minha sensação inicial com a morte dos líderes do governo foi de alívio e, como curda, de esperança de que essa guerra pudesse levar ao fim de uma ditadura e permitir que o Curdistão assegurasse seus direitos”. Ao mesmo tempo, ela se sente “extremamente preocupada” com os civis que estão sofrendo com os bombardeios.
Azhin acrescenta que a pressão internacional é crucial para promover mudanças no regime autoritário. “Precisamos ser realistas: por muitos anos, o povo iraniano foi às ruas sem apoio, enfrentando severa repressão. A pressão externa foi necessária para a mudança de regime e, como curda, espero que o fim deste regime possibilite a formação de um governo democrático que inclua a participação dos curdos”, finaliza.
A ativista destaca que, apesar de ter esperanças de que a guerra possa derrubar o governo iraniano, não acredita que o regime se renderá facilmente mesmo após a morte de seus principais líderes. “Esse governo encara a guerra como uma luta existencial. Se ceder às demandas do povo, dos EUA ou de Israel, ou se transitar para uma democracia, perderá sua própria existência”.
‘Cidadãos de segunda classe’
Por ser curda, Azhin Hosseini possui dois nomes. Seus documentos oficiais a identificam como Seyedeh Fahmideh, nome que poucas pessoas usam para se referir a ela. “Ter dois nomes reflete um direito fundamental negado a muitas famílias curdas no Irã”, explica.
No Irã, os nomes curdos frequentemente não são aceitos nos registros oficiais, obrigando as famílias a escolher outros, geralmente de conotação religiosa, para seus documentos. Essa situação resulta em um número significativo de pessoas curdas portando dois nomes no país.
Hosseini menciona o caso de Jina Amini, também curda, que faleceu em 2022 sob custódia da polícia da moralidade por não usar o véu corretamente. “Seu nome oficial era Mahsa Amini, mas sua família a chamava de Jina. Felizmente, hoje algumas famílias insistem mais e conseguem registrar oficialmente nomes curdos para seus filhos”, comentou.
Azhin observa que os curdos no Irã são frequentemente tratados como “cidadãos de segunda classe”. Certos cargos em instituições governamentais são proibidos para não xiitas, o que exclui os curdos da participação em diversas esferas. “Enfrentamos uma carência significativa em serviços de bem-estar, educação e saúde em comparação com as partes centrais do país”, afirmou.
Para as mulheres curdas, a situação é ainda mais complicada. “Espera-se que sejamos obedientes a homens”. As mulheres no Irã são suscetíveis a serem legitimamente assassinadas por seus maridos ou parentes sob a justificativa da honra e têm direito a apenas metade dos bens herdados em comparação aos homens, exemplificou Azhin.
“A mulher curda enfrenta não apenas a discriminação de gênero e sociais, mas também desigualdades estruturais econômicas e legais que resultam de sua etnicidade e da vida em áreas marginalizadas. Dessa forma, somos forçadas a lutar simultaneamente pelos direitos básicos, contra a legislação vigente, contra as estruturas sociais e pela nossa identidade curda.”
Fonte:: estadao.com.br




