Mercado financeiro amplia presença feminina, mas liderança segue masculina

Redação Rádio Plug
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Da esquerda para a direita: Elisa Soares, head ...

O avanço das mulheres no ecossistema de investimentos e na formação de patrimônio no Brasil ainda caminha em ritmo inferior ao potencial e à representatividade delas na economia nacional. Enquanto 69% das brasileiras afirmam não utilizar ou desconhecem aplicações financeiras, o índice entre os homens recua para 53%, conforme levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

A disparidade reflete-se diretamente no volume de pessoas ativas no mercado. Dados da oitava edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa desenvolvida em parceria com o Datafolha, apontam que menos de 10% das mulheres no país — o equivalente a cerca de 6,5 milhões de pessoas — realizaram investimentos ao longo de 2024. No recorte masculino, a proporção alcançou 14%, somando aproximadamente 10,7 milhões de investidores.

Apesar da distância nos números gerais, a bolsa de valores brasileira tem registrado uma alteração gradual nesse cenário. Atualmente, as mulheres respondem por 26,7% do total de investidores ativos em produtos de renda variável na B3. No início de 2026, a instituição contabilizava 1,48 milhão de investidoras dentro de um universo total de 5,56 milhões de participantes.

O volume representa uma expansão de 8% na base feminina em comparação ao mesmo período do ano anterior, superando o crescimento geral do mercado, que ficou em 5,5%. Em uma perspectiva de cinco anos, a entrada de mulheres em ativos de renda variável — grupo que engloba ações, fundos imobiliários, ETFs e BDRs — disparou 83,4%, indicando um ritmo acelerado de adesão, mesmo que elas ainda constituam a minoria no setor.

Visão de longo prazo e novos perfis demográficos

Para especialistas do setor, a crescente participação feminina representa uma oportunidade estratégica de expansão para as instituições financeiras. Laiz Carvalho, economista para o Brasil do BNP Paribas e primeira mulher negra a ocupar o cargo de economista-chefe em uma instituição financeira no país, avalia que o mercado precisa direcionar o foco para as transformações sociais e demográficas em andamento, em vez de se basear exclusivamente em padrões históricos.

“Apesar de menos mulheres investirem, o ticket delas é maior. Só que tem um paradoxo: enquanto as mulheres ganham relevância como formadoras de patrimônio, continuam sendo representadas onde as decisões são tomadas”, aponta a economista.

Segundo ela, o planejamento de carteiras de investimento deve incorporar fatores como a maior longevidade feminina, uma vez que as mulheres tendem a viver mais tempo e necessitam estruturar a segurança financeira para períodos mais longos. A ausência de estratégias voltadas para o longo prazo pode fazer com que o mercado perca relevância perante uma parcela cada vez mais expressiva da sociedade.

“Quanto de dinheiro estou deixando na mesa ao não olhar no mercado feminino? Se eu tenho uma carteira que é feita de 80% de homens de 50 anos com poder aquisitivo alto, essa carteira vai morrer um dia. É uma questão geracional”, pontua Laiz.

Durante participação em debates no setor, a economista destacou que as companhias precisam reavaliar constantemente seus produtos para garantir que eles consigam acompanhar a evolução dos clientes e resistir aos testes de risco ao longo dos anos.

Preferências de alocação e perfil etário

Entre o público feminino que já atua na renda variável, as ações negociadas à vista lideram a preferência, totalizando cerca de 1 milhão de investidoras. Em seguida aparecem os fundos de investimento imobiliário (FIIs), presentes na carteira de 813 mil mulheres, além dos certificados de ações estrangeiras (BDRs), com 236 mil adeptas, e os fundos de índice (ETFs), que somam aproximadamente 200 mil investidoras.

O levantamento da B3 também demonstra que, entre as 15 ações mais comuns nas carteiras das investidoras, seis pertencem ao setor financeiro. O restante divide-se entre companhias de utilidade pública, materiais básicos, petróleo, gás e biocombustíveis, bens industriais e varejo.

No tocante à faixa etária, a maioria das participantes da bolsa pertence à geração X (nascidos entre 1965 e 1980) ou aos Millennials (1981 a 1996). Cerca de 80% das investidoras têm entre 25 e 59 anos, enquanto o grupo com 60 anos ou mais representa 14%, e as jovens de até 24 anos respondem por 6% do total.

Barreiras culturais e a importância da representatividade

Para Elisa Soares, head de reputação da XP Inc., os obstáculos para a inserção plena das mulheres no universo financeiro estão profundamente conectados a fatores históricos e culturais. Com mais de duas décadas de trajetória em comunicação e relações institucionais, ela testemunhou a evolução da presença feminina em ambientes tradicionalmente dominados por homens.

A executiva relata que, ao longo de sua trajetória profissional, deparou-se com estigmas que delimitavam o alcance de sua carreira, percepções que superou por meio da especialização técnica e do conhecimento aprofundado dos setores em que atuou.

“Existem já diversos estudos que mostram que com equipes mais diversas, as empresas lucram mais, elas têm mais ideias fora da caixa, elas acabam saindo daquele lugar comum”, argumenta Elisa.

No mesmo sentido, Laiz Carvalho ressalta que a ascensão de mulheres a cargos de comando não deve ser tratada unicamente como um mérito individual, mas como um compromisso coletivo com a abertura de caminhos para as próximas gerações.

“Não é uma competição, é uma passeata. Toda a trajetória foi sem referência. Muitas mulheres foram as primeiras a conseguir o cargo, a investir dinheiro. É complicado a gente lidar com as pressões do mercado sem referências”, reflete, enfatizando a necessidade de ativamente construir condições para a substituição e ascensão de novas líderes.

Educação financeira como vetor de inclusão

A superação da barreira de entrada no mercado passa obrigatoriamente pela disseminação da educação financeira. Com mais de 51% da população brasileira composta por mulheres, a disparidade no acesso inicial aos investimentos evidencia a urgência de programas de capacitação e orientação econômica.

As pesquisas mostram que as investidoras costumam adotar posturas mais cautelosas, priorizando análises detalhadas dos produtos e preferindo o atendimento consultivo direto com gerentes ou especialistas antes de concretizar uma aplicação.

O planejamento financeiro assume relevância ainda maior no contexto de lares liderados por mães solo. Para Elisa Soares, a gestão adequada dos recursos garante não apenas o suporte às despesas imediatas, mas a construção de oportunidades educacionais e de futuro para os filhos, consolidando-se como ferramenta indispensável de proteção em todas as fases da vida familiar.

Do ponto de vista corporativo, o incentivo à participação feminina deixa de ser apenas uma pauta de inclusão social e passa a ser tratado como uma frente comercial estratégica e de alto potencial de crescimento para o setor financeiro nos próximos anos.

Fonte:: bemparana.com.br

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