No dia 29 de outubro, foram estabelecidas as ocupações Zumbi e Dandara dos Palmares, localizadas na capital paranaense. A iniciativa, organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), acolhe mais de 50 famílias que enfrentam a falta de moradia própria, a impossibilidade de arcar com os custos de aluguéis elevados e o impacto direto do encarecimento do custo de vida. O imóvel ocupado encontrava-se em situação de abandono há mais de dez anos, sem cumprir qualquer função social voltada para a comunidade.
A criação das novas comunidades reflete os desafios enfrentados pelo poder público na contenção da especulação imobiliária na sétima maior capital do país, além de evidenciar o déficit habitacional que afeta milhares de paranaenses. Atualmente, estima-se que mais de 500 mil pessoas estejam sem residência fixa no estado, sendo que 109 mil estão concentradas apenas na Região Metropolitana de Curitiba.
Dados da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) apontam que a capital conta com mais de 43 mil moradias situadas em favelas e regiões vulneráveis. Os moradores dessas áreas conviven frequentemente com a ausência de infraestrutura básica, como saneamento adequado, fornecimento regular de água e transporte público eficiente, além de estarem expostos a riscos geológicos, a exemplo de deslizamentos de terra e alagamentos recorrentes.
Para a parcela da população que depende de locação de imóveis para habitar, a instabilidade financeira é uma preocupação diária. Nas periferias urbanas, é comum que o valor do aluguel comprometa mais da metade da renda familiar. O cenário é agravado pela informalidade no mercado de trabalho: conforme levantamento do Ministério do Trabalho, 32,6% dos trabalhadores do Paraná exercem atividades informais, o que significa remuneração reduzida e ausência de garantias trabalhistas.
O histórico de mobilizações do MLB no estado teve um marco em janeiro com a ocupação Francisco Bernardo. Na ocasião, após quatro tentativas de despejo revertidas por meio de mobilizações sociais, as famílias alcançaram um acordo que previa a realocação habitacional, a concessão de aluguel social e a destinação do terreno original para os manifestantes, compromisso que havia sido assumido pela Secretaria-Geral da Presidência da República.
A conquista anterior foi fruto de uma ocupação na sede da SPU Paraná, onde dezenas de famílias permaneceram acampadas por cinco meses em busca de soluções institucionais. A movimentação marcou a criação de um núcleo de resistência habitacional no centro de Curitiba, algo que não ocorria na região central há cerca de quinze anos.
No entanto, apesar das negociações iniciais, o desdobramento político incluiu a desocupação do local com a atuação de forças de segurança, o que gerou críticas por parte dos organizadores devido à exposição de dezenas de crianças e famílias durante o período de baixas temperaturas na capital.
O levantamento da Cohapar reforça que Curitiba possui centenas de aglomerados subnormais e milhares de habitações precárias em áreas de risco, cujos habitantes enfrentam barreiras severas para garantir condições dignas de sobrevivência e acesso a serviços públicos essenciais.
Os nomes escolhidos para as novas ocupações homenageiam Zumbi e Dandara, figuras históricas centrais na liderança do Quilombo dos Palmares. O reduto, situado historicamente na Serra da Barriga, na antiga Capitania de Pernambuco, consolidou-se como o maior símbolo de resistência de pessoas escravizadas no Brasil, abrigando milhares de membros e desenvolvendo estruturas comunitárias autônomas por quase um século.
Fonte:: bemparana.com.br


