A primeira onda de calor do verão europeu deste ano surpreendeu autoridades, a população e a comunidade científica. Este fenômeno se mostrou mais intenso do que o esperado, em um continente que ainda enfrenta desafios, como legislação trabalhista inadequada e estruturas urbanas pouco preparadas, conforme afirmam especialistas. O impacto foi mais profundo nas regiões centrais e norte da Europa, onde temperaturas superaram em mais de dois graus a média, levando a registros inéditos em diversos países, como Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Polônia, Dinamarca, Lituânia, Letônia e Suécia, conforme indicado pela revista científica Nature.
O professor Vasco Mantas, PhD e diretor do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, explicita que “A explicação consensual para a onda de calor de junho de 2026 centra-se num padrão de bloqueio atmosférico designado Omega Block. As temperaturas extremas são possibilitadas por uma ‘cúpula de calor’ (heat dome). Esta é uma área extensa de alta pressão que ficou estacionada sobre a Europa Ocidental. O nome Omega Block resulta da forma da mesma, que se assemelha à letra grega ômega”.
A Nature divulga que a ascensão das temperaturas na Europa está ocorrendo em um ritmo de pelo menos duas vezes maior que a média mundial. Mantas ressalta que o mecanismo de bloqueio atmosférico observado agora é similar ao da onda de calor do verão de 2023, mas o fenômeno atual começou mais cedo e se mostra mais intenso, apresentando temperaturas entre 5 e 12 graus acima das médias sazonais.
“Em condições normais, a corrente de jato (jet stream) transporta os sistemas meteorológicos de oeste para leste. Porém, durante um bloqueio em ômega, esse fluxo altera-se, podendo desviar, isolando sistemas de pressão. Esse padrão permitiu que ar quente do Norte da África alcançasse a região, criando céu limpo e alta radiação solar, intensificando ainda mais o calor”, complementa o professor.
Esse fenômeno, segundo Mantas, vem se tornando mais comum e intenso, o que aumenta a relevância de implementar medidas urgentes para mitigar e adaptar espaços urbanos e terrenos vulneráveis.
O dilema do planejamento urbano retornou à tona durante a onda de calor. Desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92), realizada no Rio de Janeiro, o assunto tem sido uma constante nos debates sobre sustentabilidade. Apesar das associações frequentes da Europa com políticas ambientais, especialistas afirmam que décadas de expansão urbana e pressão imobiliária diminuíram consideravelmente as áreas verdes nas cidades.
O professor Paulo Nossa, da área de Geografia da Universidade de Coimbra, destaca que “Nas cidades faltam áreas verdes e espaços de sombreamento, como parques, que têm sido reduzidos pela pressão imobiliária. Cometemos erros de zoneamento e agora estamos enfrentando as consequências”.
Os impactos do calor extreme não se limitam a incêndios florestais e chuvas intensas; afetam diretamente a saúde da população. Nossa aponta que políticas públicas precisam implantar estratégias de monitoramento contínuas para proteger os grupos mais vulneráveis, como idosos. Na última semana, o aumento da demanda fez com que sistemas de saúde ficassem sobrecarregados, e a previsão é de um aumento nas taxas de mortalidade.
Entre os grupos mais vulneráveis também estão crianças, pessoas em situação de rua e indivíduos com problemas cardiovasculares. Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador de Integração Multinível e Análise de Risco do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, alerta que a persistência das altas temperaturas à noite dificulta a recuperação do corpo e prolonga a exposição ao calor.
Alves comenta que “É um risco complexo, pois é silencioso, afetando a saúde das pessoas, a infraestrutura de saúde e outros aspectos sociais, como o funcionamento das escolas. A infraestrutura europeia não está apta para estas temperaturas, uma vez que muitos edifícios foram projetados para o inverno, com ambientes adaptados ao frio e à menor circulação de ar”.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) destacou que esta é uma das ondas de calor mais severas já registradas na Europa. Na França, a cidade de Palluau alcançou um recorde de 43,8 °C. A OMM ainda salienta que a região sul da Europa e os Bálcãs enfrentam calor extremo, agravado pelas transformações climáticas.
O termo “crise” tem suas raízes na tradição clássica europeia, mas especialistas veem a urgência de respostas concretas diante da gravidade da situação atual. O secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Simon Stiell, afirmou que enquanto houver combustão de grandes quantidades de carvão, petróleo e gás, “as ondas de calor extremas só tendem a piorar”, assim como outros fenômenos climáticos, como secas e inundações.
Stiell também enfatizou a necessidade de acelerar a transição para O contexto atual é especialmente crítico, pois o verão traz um elevado fluxo turístico em várias regiões da Europa, especialmente no Sul e no Centro. Durante a onda de calor de 2023, países como a Grécia chegaram a fechar pontos turísticos devido às temperaturas extremas.
De acordo com o professor Paulo Nossa, muitos destinos turísticos ainda não estão preparados para enfrentar períodos prolongados de calor intenso. “Não podemos manter a situação como está. Países da costa sul, como Espanha e Grécia, carecem de uma previsão institucional. Uma onda de calor de poucos dias pode prejudicar a saúde de turistas e trabalhadores. É necessário estabelecer estratégias para dispersar o fluxo turístico, levando em conta o tempo e os locais de visitação, evitando superlotação em determinados períodos e atrações”, analisa.
Além disso, o geógrafo sugere a criação de protocolos que incentivem horários de visitação mais distribuídos ao longo do dia, priorizando períodos de temperaturas mais amenas.
A adaptação das relações de trabalho surge como uma das estratégias mais urgentes. Nossa acredita que trabalhadores do setor de turismo, especialmente migrantes e estrangeiros, estão entre os mais afetados pelos efeitos das ondas de calor. É preciso revisar normas trabalhistas, ampliar as medidas de proteção e ajustar jornadas de trabalho à nova realidade climática.
“As mudanças climáticas já não são uma problemática do futuro. Elas estão transformando, neste momento, a operacionalidade das cidades, as relações de trabalho e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde diante de emergências. A adaptação deve ocorrer na mesma velocidade em que estes eventos extremos se intensificam”, conclui o pesquisador.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br




