A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou as movimentações para fortalecer sua presença no ambiente digital durante o segundo turno das eleições. A estratégia engloba a produção de vídeos em formatos mais diretos, o acionamento de influenciadores digitais, a parceria com parlamentares detentores de grande alcance nas redes e a criação de canais de comunicação direta em aplicativos de mensagens, a exemplo do WhatsApp.
O ajuste de rota ocorre em meio a um obstáculo imposto pelas diretrizes da Justiça Eleitoral. Uma normativa estabelece que os perfis oficiais cadastrados perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assim como as postagens realizadas por eles, fiquem de fora dos mecanismos de recomendação orgânica das plataformas de tecnologia, exceto nos cenários de impulsionamento pago.
Na prática, essa determinação limita o potencial das contas oficiais de alcançarem novos públicos — aqueles eleitores que ainda não seguem os candidatos —, transferindo um peso maior para a rede de apoiadores, aliados e influenciadores na difusão dos conteúdos e das mensagens da campanha.
As restrições normativas aplicam-se igualmente a Flávio Bolsonaro (PL) e aos demais concorrentes que registraram seus perfis oficiais no processo eleitoral.
Para o atual presidente, a barreira algorítmica ganha relevância em um momento de tentativa de expansão do alcance digital. No primeiro turno da disputa, Flávio conquistou 56.104.268 votos (equivalentes a 47,03% dos válidos), enquanto Lula registrou 53.876.617 sufrágios (45,16%). O pleito definitivo está marcado para o dia 25 de outubro.
Como parte da nova abordagem comunicativa, Lula compartilhou um vídeo em formato selfie no início de outubro, gravado de maneira autônoma com um telefone celular, com o objetivo de convocar o eleitorado para manifestações públicas. A concepção do formato teve a participação do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
Paralelamente, a articulação política buscou reunir parlamentares com votações expressivas e forte capilaridade digital para desenhar uma atuação coordenada na nova fase da corrida eleitoral.
Desproporção no ecossistema digital
As iniciativas da coligação governista esbarram em uma assimetria estrutural de audiência entre os campos políticos. Dados compilados pela Agência Bites revelam que os parlamentares federais do PL concentram 210 milhões de seguidores somados, ao passo que os perfis vinculados ao PT e a legendas aliadas reúnem 72 milhões.
Desde o encerramento da primeira etapa da votação, Flávio acumulou 1,2 milhão de novos seguidores, frente a 392 mil adeptos adicionados ao perfil de Lula. Embora o candidato petista apresente volume superior em interações totais (7,2 milhões contra 5,8 milhões), o desempenho decorre de um ritmo de publicações consideravelmente mais alto. A média de interações por postagem da campanha adversária superou a marca do petista em proporção superior a quatro vezes.
Para Manoel Fernandes, diretor da Agência Bites, o cenário evidencia a relevância de uma rede descentralizada de aliados na propagação de narrativas. O especialista avalia que a movimentação do Palácio do Planalto para congregar figuras públicas com forte presença online é correta, mas acontece com defasagem temporal na dinâmica da campanha.
“Seguidor não é voto, mas ajuda na propagação de percepções sobre os candidatos, tanto na direção negativa quanto na positiva. Numa disputa de 3 semanas, a capacidade de mobilizar rapidamente uma base pesa; nas métricas apresentadas, a rede em torno de Flávio tem maior escala e engajamento”, ponderou.
O alcance da regulação do TSE
As limitações impostas à distribuição de conteúdo encontram amparo no artigo 28 da Resolução 23.610/2019, editada pelo TSE para normatizar a propaganda na internet. O dispositivo foi modificado em 2024 por meio da Resolução 23.732 e mantém validade integral para o pleito.
A determinação legal obriga as empresas de tecnologia detentoras de sistemas de recomendação a excluírem de tais algoritmos os perfis oficiais informados pelas candidaturas, além de vedar a recomendação orgânica de publicações originadas nessas contas, ressalvando apenas os casos de impulsionamento financeiro devidamente regularizado.
Vale destacar que a norma não proíbe a publicação de materiais por parte dos candidatos, tampouco impede que simpatizantes visualizem, curtam ou compartilhem as postagens. O veto recai exclusivamente sobre a entrega automatizada promovida pelas plataformas para usuários que não seguem os perfis monitorados.
Para a efetivação do filtro, partidos e coligações devem submeter à Justiça Eleitoral o mapeamento completo dos endereços digitais utilizados na propaganda. Canais criados durante o transcurso do período eleitoral exigem comunicação no prazo de 24 horas, enquanto contas preexistentes omitidas no registro inicial sofrem quarentena de 48 horas para liberação de uso.
A necessidade de construir canais alternativos de capilaridade ganha urgência para mobilizar a parcela do eleitorado correspondente aos 33,5 milhões de cidadãos que se abstiveram na primeira etapa. O sucesso na disputa digital passa pela capacidade de amplificação por parte de apoiadores para transpor as chamadas bolhas informativas.
Como reflexo dessa linha de atuação, o deputado federal André Janones estruturou a ferramenta “Exército de Lula” em aplicativo de mensagens instantâneas, alcançando expressiva adesão de seguidores em poucos dias. A estratégia contou com reuniões periódicas entre coordenadores de campanha e parlamentares detentores de grande repercussão nas plataformas, a exemplo de Erika Hilton (Psol-SP) e Ana Elisa (PT-MG).
Planos de conformidade das plataformas
Empresas de tecnologia submeteram ao TSE os respectivos planos de adequação regulatória para o período eleitoral. O grupo de companhias engloba Google, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Telegram, TikTok e X.
A documentação entregue pelas corporações expõe divergências ou lacunas quanto à interpretação das regras aplicáveis aos candidatos eliminados na primeira etapa do pleito, gerando debates jurídicos sobre a manutenção ou suspensão das restrições algorítmicas para esses perfis.
Investigações acadêmicas, como a nota técnica divulgada pelo laboratório NetLab, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontaram falhas pontuais na aplicação das traves de segurança por parte de algumas redes sociais, indicando que conteúdos institucionais de concorrentes teriam sido recomendados algoritmicamente a usuários durante testes monitorados.
Levantamentos de opinião conduzidos pelo instituto Datafolha e publicados no mês de setembro indicam que mais da metade da população brasileira declarou ter tido contato com conteúdos de natureza política e eleitoral ao navegar em redes sociais, evidenciando o peso estratégico que o ecossistema digital continua exercendo sobre a formação de opiniões do eleitorado nacional.
Fonte:: poder360.com.br



