Câmbio favorável e exportação de petróleo amortecem a inflação. Qual o limite disso?

Redação Rádio Plug
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Foto: (Shutterstock)

A recente desvalorização do dólar, aliada ao aumento das exportações de petróleo, tem sido identificada por economistas como um mecanismo para suavizar o impacto da inflação, especialmente em função do conflito no Oriente Médio. Com o preço do petróleo girando em torno de US$ 110 por barril, o Brasil se beneficia ao atrair um fluxo significativo de dólares, dado que é um exportador dessa commodity. Essa entrada de moeda estrangeira, por sua vez, valoriza o real e, em teoria, torna as importações mais baratas, criando um “colchão” que ajuda a mitigar a alta nos preços internacionais. No entanto, essa estratégia tem se mostrado insuficiente para conter toda a pressão inflacionária que já se faz sentir na economia nacional.

Vários economistas entrevistados ressaltam que, embora o câmbio tenha contribuído para amenizar a situação, a questão da inflação persiste, principalmente em sua forma qualitativa. Inicialmente restrito a produtos voláteis, o choque inflacionário já se espalha para componentes mais estáveis e persistentes da economia, apontando para uma situação alarmante.

O limite do alívio cambial no IPCA

Andréa Ângelo, especialista em inflação da Warren Investimentos, destaca que, até o momento, a valorização do câmbio não produziu o resultado desejado na redução dos preços de bens industriais, que geralmente seriam os primeiros a se beneficiar dessa desvalorização. A particularidade da logística brasileira, que é fortemente dependente de transportes rodoviários, significa que o aumento nos preços do petróleo impacta diretamente o valor do diesel e da gasolina, o que eleva os custos de transporte e acarreta um efeito em cadeia sobre produtos como carnes, leite e itens de panificação.

Para Ângelo, a leitura do IPCA-15 de abril trouxe a primeira indicação de que o choque provocado pelo aumento do preço do petróleo se expandiu para incluir os núcleos de inflação. Depois de avaliar a extensão do conflito no Oriente Médio, ela estima que, se a situação persistir, o impacto adicional sobre o IPCA pode resultar em um aumento de 0,35 ponto percentual. Nesse caso, a inflação projetada para 2026 poderia alcançar 5,20%, superando a estimativa atual para esse ano, que é de 4,85%.

Preços da Petrobras e seu reflexo nas bombas de combustível

A Petrobras, consciente dos riscos de um choque nos preços dos combustíveis, tem segurado a passagem dos aumentos ao consumidor, o que funciona como um mecanismo de contenção no curto prazo. O Brasil depende de cerca de 10% da gasolina que consome, o que dá alguma margem para evitar uma alta imediata nos preços das refinarias. No entanto, a defasagem em relação aos preços internacionais já é significativa, chegando a 64%. Para enfrentar essa situação, o Governo Federal considera a possibilidade de usar a arrecadação extraordinária gerada pela alta do petróleo para reduzir tributos federais sobre os combustíveis. A previsão da Warren sugere que o cenário mais provável é uma redução parcial de impostos combinada a um aumento nos preços nas refinarias, o que pode resultar em um efeito neutro para o consumidor final.

Entretanto, as distribuidoras já começaram a aumentar suas margens antes de qualquer reajuste oficial, incluindo R$ 0,29 adicionais por litro nas bombas. José Alfaix, economista da Rio Bravo, adverte que mesmo com o câmbio valorizado, não é possível eliminar uma defasagem internacional que pode chegar a 70% em algumas análises. Ele afirma que muitos economistas já estão projetando um IPCA acima de 5% ao fim do ano, apesar das medidas que o governo possa adotar para conter a inflação.

Taxas de juros e o risco de desancoragem das expectativas

A situação atual gera um alerta em relação à política monetária. Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro da FGV, menciona que o aumento do preço do petróleo tekaná a inflação global e eleva os juros internacionais, o que limita a possibilidade de redução das taxas de juros no Brasil. Em sua análise, Silvia ressalta que a questão central não se resume ao choque de oferta, já que isso afeta negativamente todos, mas sim às repercussões nas expectativas de inflação em prazos mais longos. Os indicadores de desancoragem para o horizonte de 24 a 36 meses mostraram um agravamento adicional em abril.

Por outro lado, o professor de economia da USP, Paulo Feldmann, argumenta que a inflação não deve se manifestar com força, uma vez que as elevadas taxas de juros contêm o consumo. Assim, o espaço para uma política monetária mais flexível parece ter diminuído. As projeções da Warren indicam que a taxa Selic deve continuar a ser reduzida em um ritmo de 0,25 ponto percentual, passando do atual 14,50% para 13% até o final de 2026, mantendo um patamar restritivo até 2028. A XP, por sua vez, antecipa três cortes de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 13,75% (anteriormente estimada em 13,50%). Existe, inclusive, o risco de que o Comitê de Política Monetária (Copom) suspenda os cortes caso as projeções de inflação não converjam para a meta, visto que o espaço para cortes mais expressivos da Selic se tornou bastante limitado.

Fonte:: infomoney.com.br

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