Couro de peixe de Pontal do Paraná é a 26ª Indicação Geográfica do Paraná

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Seti.pr.gov.br

O couro de peixe de Pontal do Paraná foi oficialmente reconhecido com o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O anúncio foi realizado na última terça-feira (12), destacando a crescente liderança do Paraná, que agora possui 26 produtos certificados com o selo de IG.

Esse selo é um reconhecimento da tradição do município na prática sustentável de transformação de peles de peixes em couro. A atividade não apenas promove o reaproveitamento de resíduos provenientes da pesca artesanal, mas também gera renda e valoriza a cultura caiçara local. Atualmente, 16 produtores estão envolvidos diretamente nessa atividade, e cerca de 30 famílias se beneficiam de forma indireta por meio da cadeia produtiva.

O pedido para o registro de IG foi protocolado em outubro de 2025, resultante de uma mobilização que contou com a colaboração da Associação Couro de Peixe de Pontal do Paraná (ACPPP), da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), do Sebrae Paraná, da Prefeitura Municipal de Pontal do Paraná, do Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) e do Conselho Municipal de Turismo. A base desse trabalho remonta a 2008, no âmbito do programa Universidade Sem Fronteiras da Unespar, sob a coordenação da professora Kátia Kalko Schwarz.

A Indicação de Procedência é um reconhecimento que atesta a origem e a qualidade da produção local. No caso de Pontal do Paraná, isso está ligado à reputação dos produtores caiçaras que utilizam 16 espécies de peixes para a produção sustentável de couro.

Na visão do secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Aldo Nelson Bona, essa conquista simboliza a união entre o saber tradicional e a inovação científica. Ele comentou: “Esse projeto valoriza a cultura caiçara e a identidade das nossas comunidades litorâneas, enquanto a ciência, através do trabalho da Unespar, se torna uma ferramenta essencial para o desenvolvimento sustentável e tecnológico. A participação da Seti reafirma nosso compromisso em transformar saberes populares em ativos de inovação reconhecidos nacionalmente.”

O diretor-presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR) também enfatizou a relevância dessa conquista, afirmando que a IG para o couro de peixe eleva ainda mais o valor da produção paranaense. “É uma conquista para nossa população, garantindo que nosso produto seja ainda mais valorizado no mercado. Parabéns à comunidade de Pontal e ao Sebrae por essa parceria histórica que possibilitou este marco”, declarou.

Trajetória e Expectativas

A busca pelo registro de Indicação Geográfica teve início em 2023, com a formação da associação, capacitações voltadas para a qualificação da cadeia produtiva e a elaboração do caderno de especificações técnicas. Este documento abrange todas as etapas necessárias para a produção do couro, desde a aquisição e limpeza das peles até os processos de secagem, tingimento, amaciamento e comercialização.

A associação projeta para este ano o curtimento de 600 quilos de peles, um processo tanto químico quanto artesanal que transforma a pele bruta do peixe em couro. Com a certificação recebida, espera-se que a visibilidade do produto impulsione a geração de renda e atraia novos participantes para a atividade artesanal.

Características do Produto

O processo produtivo abrange peles de várias espécies de peixes de água doce e salgada, incluindo linguado-abaxial, robalo flecha, robalo peva, parú, corvina, pescada amarela, miraguaia, tainha, prejereba, peixe-porco, cavala, salmão e tilápia. Cada espécie resulta em diferentes texturas de couro, oferecendo versatilidade ao produto final.

Para garantir a qualidade do couro, estudos realizados ao longo de quase 20 anos foram desenvolvidos em laboratório da Unespar. Graças a essas pesquisas, o couro produzido não utiliza cromo, uma substância tóxica frequentemente encontrada em processos de curtimento de peles bovinas.

Após a aquisição das peles, os produtores realizam uma limpeza cuidadosa para remover resíduos de carne e gordura. O próximo passo é o curtimento, que estabiliza as proteínas e transforma a pele em um couro sem odor, adequado para diversas aplicações em função de sua elasticidade.

Outro diferencial do couro de peixe é sua resistência, que pode ser até três vezes maior em comparação ao couro bovino, conforme demonstrado em estudos realizados pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pela Universidade de São Paulo (USP). Essa superioridade se deve à disposição das fibras de colágeno na pele do peixe, que se entrelaçam em uma estrutura quase em “X”, melhorando a distribuição da força e reduzindo o risco de rasgos, ao contrário do que ocorre com as fibras mais paralelas do couro bovino.

Após o curtimento, o couro pode ser pintado com urucum para tons avermelhados ou cúrcuma para resultados em amarelo. O processo total inclui uma etapa de hidratação e secagem à sombra, levando dois dias e meio, enquanto o curtimento do couro bovino pode durar de uma a duas semanas.

Os produtos confeccionados a partir do couro de peixe incluem bolsas, colares, chaveiros, cadernetas e diferentes peças de artesanato. Já há interesse internacional, com o couro de Pontal do Paraná sendo comercializado em países como Alemanha, França e Portugal.

Conquista do Paraná

O Paraná tem adotado uma estratégia voltada à valorização de produtos regionais e ao fortalecimento da economia local, promovendo o reconhecimento de produtos com o selo de Indicação Geográfica. Atualmente, o estado possui 26 IGs certificadas, consolidando sua posição de liderança no cenário nacional. Seguindo o Paraná, estão Minas Gerais com 21 registros, além de São Paulo e Rio Grande do Sul, com 13 indicações cada um.

Somente em 2026, o Paraná conquistou quatro novos registros, incluindo o couro de peixe de Pontal do Paraná, o ginseng de Querência do Norte, o café da Serra de Apucarana e as tortas de Carambeí.

No ano anterior, o estado obteve oito novas Indicações Geográficas, como as ostras do Cabaraquara, ponkan de Cerro Azul, broas de centeio de Curitiba, cracóvia de Prudentópolis, carne de onça de Curitiba, café de Mandaguari, urucum de Paranacity e queijo colonial do Sudoeste do Paraná.

Além disso, outros produtos paranaenses que ostentam o selo de IG incluem mel de Ortigueira, queijos coloniais de Witmarsum, cachaça e aguardente de Morretes, melado de Capanema, vinhos de Bituruna, mel do Oeste do Paraná, barreado do Litoral do Paraná, bala de banana de Antonina, erva-mate de São Mateus, camomila de Mandirituba, uvas finas de Marialva, cafés especiais do Norte Pioneiro, morango do Norte Pioneiro e goiaba de Carlópolis.

Adicionalmente, há o mel de melato da bracatinga, que possui IG concedida a Santa Catarina, abrangendo municípios de Paraná e Rio Grande do Sul.

Atualmente, cinco produtos paranaenses estão com pedidos de Indicação Geográfica em análise no INPI, incluindo acerola de Pérola, pão no bafo de Palmeira, cervejas artesanais de Guarapuava, mel de Capanema e cambira, prato típico de Pontal do Paraná.

Para saber mais sobre os produtos paranaenses que obtiveram Indicação Geográfica, confira uma série de reportagens produzidas pela Agência Estadual de Notícias.

Fonte:: seti.pr.gov.br

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