IA domina indústria dos microdramas da China em 90 dias

Redação Rádio Plug
12 min. de leitura
Cena do microdrama Zephyr, produzido pela plata...

Há 1 ano, a cidade de Hengdian estava tão lotada de equipes que trabalhavam na produção de dramas curtos que atores em sets vizinhos conseguiam ouvir as falas uns dos outros.

O polo cinematográfico na província de Zhejiang, no leste da China, há muito considerado um termômetro do setor de entretenimento do país, havia sido tomado pelo boom dos microdramas. As produções avançavam rápido, os orçamentos eram enxutos e a demanda por artistas era alta o suficiente para atores como Cheng Qiao conseguirem papéis principais ou de apoio e ganharem de 800 yuans (cerca de R$ 595) a 1.500 yuans (R$ 1.116) por dia. Em um bom mês, Cheng ganhava mais de 10.000 yuans (R$ 7.441) atuando.

Depois do Ano Novo Lunar, em fevereiro, o trabalho desapareceu.

“Depois do feriado, de repente quase não havia nada para fazer em Hengdian”, disse Cheng à Caixin.

O colapso veio quando ferramentas de inteligência artificial, em especial o Seedance 2.0, da ByteDance, começaram a remodelar a economia do setor chinês de dramas curtos.

Produções que antes exigiam atores, equipes de câmera, figurinos, sets e dias de filmagem passaram a ser criadas com comandos inseridos em modelos de vídeo, capazes de produzir tomada depois de tomada e costurá-las em episódios finalizados.

Outro catalisador foi a notícia repentina de que a plataforma de distribuição de dramas curtos Hongguo Short Drama, da ByteDance, cortaria subsídios a dramas curtos com atores reais por preocupações financeiras. “Depois que saiu a notícia de que a Hongguo interromperia os subsídios, ouvi dizer que algumas empresas pequenas fecharam logo depois do Ano Novo Lunar ou migraram direto para a IA”, disse um produtor de dramas curtos baseado em Zhengzhou, na província de Henan.

Para Cheng, os bons tempos duraram pouco mais de 1 ano. Ele continuou a enviar currículos e reduziu fortemente o cachê que cobrava para disputar os poucos papéis restantes. Algumas equipes ofereceram diárias menores que as pagas a figurantes no ano anterior.

“Neste ano, não houve muitas equipes nas principais bases de cinema, incluindo Hengdian”, disse um assistente de atores de dramas curtos no fim de maio. “Muita gente está parada ou mudou de carreira”.

A turbulência, em grande parte deflagrada por eventos ligados à ByteDance, expôs quanto o setor agora depende do ecossistema de dramas curtos da dona do TikTok. A empresa tem ferramentas para criar roteiros, imagens e vídeos.

Seus serviços em nuvem vendem acesso a modelos e capacidade de computação. Suas plataformas de literatura online fornecem material de origem. Seus aplicativos de vídeos curtos e dramas curtos distribuem as produções finalizadas. E seu sistema de publicidade direciona tráfego a elas.

Esse sistema fechado tornou a ByteDance indispensável a produtores que tentam sobreviver à virada da IA —e atraiu escrutínio sobre seu poder crescente de decidir quais produções são feitas e para onde vai o dinheiro.

VOLUMES EM ALTA

A explosão dos dramas curtos de IA resulta de avanços em modelos de IA para criação de vídeo. Em fevereiro, a ByteDance apresentou o Seedance 2.0, modelo cujas criações virtuais superaram as expectativas do mercado em realismo e precisão. Rapidamente, tornou-se a principal ferramenta do setor e impulsionou o volume de produções.

A mudança pôde ser vista na plataforma. A demanda pela versão mais recente do Seedance era tão alta que produzir uma única tomada podia levar mais de uma hora —ao menos até aparecer um serviço VIP mais caro. Durante o período de maior pressão, engenheiros de comando muitas vezes trabalhavam de madrugada para evitar o pico diurno de demanda pelo modelo.

Ainda assim, como antes da virada da IA, os dramas curtos seguem como um negócio movido por volume: quanto mais se produz, maiores são as chances de criar um sucesso. No 1º trimestre de 2026, cerca de 128 mil microdramas foram lançados em todo o país, quase 4 vezes mais que em todo o ano anterior, segundo dados recentes da CNSA (China Netcasting Services Association). Desses, cerca de 122 mil foram feitos por IA —mais de 95% do total.

Um executivo de dramas curtos em Xi’an, na província de Shaanxi, no noroeste da China, estimou que o número de dramas curtos com atores reais produzidos na cidade por mês caiu de 70% a 80%. “Mas a capacidade de produção de simulação com atores reais é enorme”, disse. “Algumas pessoas disseram que quase 50.000 dramas estrearam na internet em abril”.

O público também permaneceu o mesmo. A maioria dos espectadores de dramas curtos feitos por IA ainda tem mais de 40 anos e vive em cidades menores, disse o executivo. Eles não se importam muito se o programa foi criado com IA porque assistem principalmente pelo impacto emocional da história.

As produções feitas por IA, no entanto, têm vantagem. Como não são limitadas por gênero, atraíram espectadores mais jovens e pessoas cujo interesse por dramas curtos foi despertado pela IA.

CUSTOS EM QUEDA

Um produtor baseado em Pequim disse que empresas maiores em Hangzhou conseguem fazer com IA um drama curto de mais de 100 minutos a cada 3 a 7 dias por menos de 20.000 yuans (R$ 14.881). Em termos de custo de mão de obra, os recém-formados que trabalham nessas produções ganham salários mensais antes de impostos de 5.000 yuans (R$ 3.720).

Mas o efeito da IA sobre os salários não para por aí, disseram os produtores. “Profissionais de nível médio e sênior que ganham 40.000 yuans (R$ 29.763) por mês também estão sob pressão”, disse o produtor. “Em uma era em que a IA participa da produção, anos de experiência acumulada no julgamento de conteúdo podem ser substituídos por dados a qualquer momento”.

O tamanho das equipes já está diminuindo. “Há 3 meses, uma equipe de drama animado era composta por 1 roteirista, 1 diretor, 1 designer de arte e 3 a 5 operadores de criação”, disse Zhang Lutian, diretor de produções animadas. “Agora já há muitas OPCs —empresas de uma pessoa— capazes de cuidar de todo o processo de curtas”.

Zhang disse que usou agentes de IA do tipo “Lobster” para concluir um drama curto feito por IA. “Durante a produção, a criação de vídeo responde por mais de 95% do custo”, afirmou.

Segundo Zhang, produtoras contratadas derrubaram os preços nos últimos meses. Um drama animado antes custava de 800 yuans (R$ 595) a 1.000 yuans (R$ 744) por minuto. Agora, algumas cobram 200 yuans (R$ 148) por minuto, disse.

O resultado da competição por velocidade e volume, afirmou, é que os preços estão sendo empurrados para perto do custo de capacidade computacional.

PREOCUPAÇÕES COM QUALIDADE

Uma pessoa familiarizada com a equipe de modelos da ByteDance disse que o impacto de mercado do Seedance superou as expectativas dentro da empresa. Mas a perspectiva de longo prazo não é necessariamente promissora. “A criação por IA é eficiente, mas a qualidade do conteúdo não varia muito”, disse a pessoa. “Para o modelo continuar à frente, os custos de treinamento também serão maiores. Há uma pressão substancial de investimento”.

A força do Seedance 2.0 está na padronização. Durante o treinamento, o modelo aprende os padrões mais frequentes nos dados e consegue reproduzi-los de forma confiável. Mas, se os comandos não forem específicos o bastante, o modelo pode produzir as características mais prováveis em seus dados de treinamento —o que pode deixá-las parecidas.

O executivo de Xi’an disse que é difícil produzir continuamente dramas curtos de grande sucesso. Qualquer série capaz de se sustentar precisa ter elementos de que os usuários realmente gostem. “Depois que o conteúdo explode, os ciclos de substituição de gênero ficam mais rápidos”, disse. “Os criadores só conseguem continuar ajustando roteiros e tentando fazer conteúdos diferenciados”.

CORTES DE SUBSÍDIOS

A política de financiamento da ByteDance levou, na prática, o tráfego da plataforma Hongguo Short Drama a mais de 100 milhões de usuários por dia em janeiro. No ano passado, a gigante de tecnologia despejou dinheiro em criadores de dramas curtos. Para contratadas de produção, oferecia investimentos garantidos de 200 mil yuans (R$ 149 mil) a 350 mil yuans  (R$ 260 mil) por título. Os recursos normalmente cobriam os custos de produção e deixavam alguma sobra. Depois da exibição, os produtores também podiam receber uma parcela da receita.

Esses pagamentos somaram 2,5 bilhões de yuans (R$ 1,86 bilhão) em 2025 e elevaram o número médio de microdramas que chegavam à plataforma a quase 10.000 por trimestre, segundo divulgações públicas da Hongguo.

Uma análise interna da Hongguo concluiu, no entanto, que suas políticas de incentivo a microdramas em 2025 haviam sido amplas demais e que a aquisição paga de usuários também impôs pressão financeira significativa à empresa, apurou a Caixin com várias fontes independentes. Uma pessoa de dentro da ByteDance também disse à Caixin que a Hongguo se tornou lucrativa em 2025, antes da meta original, marcada para o fim de 2026. Por causa disso, a empresa estabeleceu uma meta agressiva de lucro para 2026.

Cheng Qiao é um pseudônimo.


Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 1º de junho de 2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.

Fonte:: poder360.com.br

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