Estratégia da China pode se voltar contra o país, diz Friedman

Redação Rádio Plug
9 min. de leitura
Na imagem, o painel com Thomas Friedman no 14º ...

O renomado jornalista norte-americano Thomas Friedman, colunista do New York Times e vencedor de três prêmios Pulitzer, apresentou uma análise crítica sobre a abordagem do presidente chinês, Xi Jinping, ao se referir à estratégia de produção do país. Em sua visão, a China tenta gerar uma dependência global de suas produções sem estabelecer uma reciprocidade que a proteja de influências externas, o que, segundo ele, é insustentável e pode voltar-se contra os próprios interesses do país asiático.

Friedman compartilhou suas considerações durante a sua participação na terça-feira (2 de junho de 2026) no 14º Fórum de Lisboa. O discurso de abertura do evento teve como tema “Nova ordem global: tecnologia, geopolítica e o futuro da democracia”. Ele estava acompanhado por Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal e anfitrião do encontro, e André Esteves, chairman e sócio-sênior do BTG Pactual.

A edição atual do Fórum de Lisboa se destaca por seu enfoque mais abrangente, com a inclusão de um número recorde de palestrantes internacionais, refletindo uma orientação menos centrada exclusivamente em questões brasileiras e portuguesas. Friedman já havia participado da edição de 2024 e retornou para aplicar sua visão ao contexto atual.

Durante sua fala, ele alertou: “Acredito que um mundo em que a China tenta produzir tudo para todos é um cenário que, eventualmente, se tornará desfavorável para o próprio país. Não considero isso uma estratégia sustentável”.

Friedman também ressaltou o impressionante avanço da China em capacidades de manufatura, ao mesmo tempo em que expressou preocupações sobre a instabilidade política nas altas esferas do governo chinês, notando que Xi Jinping tem afastado diversas lideranças militares e secretários de Defesa. “Algo significativo está acontecendo lá que não conseguimos compreender plenamente”, observou.

Para ilustrar sua percepção da situação da China, Friedman usou uma analogia visual: a parte superior do corpo do personagem Popeye, simbolizando força e capacidades robustas de fabricação, contrastando com a parte inferior do corpo da personagem Olívia Palito, que representa fragilidades, como a falta de um sistema de previdência social eficaz e um sistema de saúde adequado, além de estar imersa em uma bolha imobiliária sem precedentes.


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Marina Ferraz/Poder360 – 2.jun.2026
Da esquerda para a direita: André Esteves, do BTG Pactual; o jornalista Thomas Friedman; e Gilmar Mendes, decano do STF

Discussão sobre Inteligência Artificial

Uma parte importante do discurso de Friedman focou no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e suas implicações globais. Ele argumentou que a IA representa um dos maiores desafios legais, éticos e democráticos que a humanidade enfrenta atualmente.

O jornalista declarou que a IA deve ser considerada uma “nova espécie” e enfatizou a importância de que a sociedade aprenda a interagir com esta tecnologia, ou correria o risco de ser dominada por ela. Friedman também pontuou que o mundo se transformou em uma sociedade “hiperconectada” e “interdependente”, onde a cooperação é essencial.

“Essa é a nossa realidade atual. Ou ascendemos juntos ou enfrentamos uma queda coletiva. Independentemente do que façamos a partir de agora, será um esforço conjunto, e essa é a questão que estamos enfrentando globalmente”, disse.

Ele ressaltou a necessidade urgente de enfrentar “problemas de escala planetária”, que requerem soluções à mesma magnitude. Um exemplo é a gestão da inteligência artificial. “Embora a IA seja baseada em silício, ela não é diferente em suas complexidades e desafios de nossos problemas tradicionais. Precisamos aprender a lidar com isso em conjunto”, enfatizou.

Friedman argumentou que a única possibilidade de gerenciar tecnologias emergentes efetivamente é através da colaboração entre China e Estados Unidos, as duas principais potências em IA, que devem estabelecer normas legais, éticas e morais para esta nova era tecnológica.

Ele também lembrou o episódio em que os EUA tentaram proibir o TikTok, sob alegação de que a plataforma de compartilhamento de vídeos estava manipulando dados de usuários americanos por meio da empresa chinesa ByteDance. “Como gerenciaremos essa interconexão digital que ocorre quando tudo ao nosso redor se torna inteligente e conectado?”, questionou.

Além da IA, Friedman elencou outras questões globais que exigem uma resposta colaborativa, como mudanças climáticas, armamentos nucleares e biológicos, imigração e as complexidades nas cadeias de suprimentos globais.

Segundo ele, “hoje, até os menores podem agir de forma significativa, enquanto potências maiores podem operar de maneira mais contida”. Ele citou o conflito no Oriente Médio como exemplo, afirmando que os EUA, em um único ataque, eliminaram líderes influentes do Irã e que agora, com um orçamento limitado, o Irã demonstrou a capacidade de restringir movimentos e desafiar a presença militar americana na região.

“O que está ocorrendo na Ucrânia contra a Rússia, assim como as dinâmicas entre o Hezbollah e Israel, e a interação do Irã com os EUA, estão alterando as estruturas de poder globais, com pequenos atores se tornando figuras significativas. O mundo em que vivemos é dinâmico e a tecnologia está integrando a inteligência artificial em todas as esferas”, concluiu.

14º Fórum de Lisboa

O tema do 14º Fórum de Lisboa neste ano aborda a “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”. As discussões estão programadas para ocorrer de 1º a 3 de junho na Universidade de Lisboa.

Entre os participantes, destacam-se figuras como Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, e Aloízio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

O número total de participantes aumentou de 360 em 2025 para 450 em 2026, marcando um recorde. Contudo, o número de autoridades brasileiras presentes este ano diminuiu, exceto no Legislativo, que contará com dois congressistas a mais. A alteração na abordagem central do evento, mais globalizada, contribuiu para a inclusão de mais palestrantes internacionais.

O 14º Fórum de Lisboa recebeu o Alto Patrocínio da Presidência da República Portuguesa, uma chancela que reconhece a importância pública e institucional do evento.

Essa distinção, conforme afirmado pela organização, “destaca a relevância acadêmica e cívica do evento, bem como sua contribuição para fortalecer o debate democrático diante dos desafios contemporâneos que os países, como Portugal e Brasil, e a comunidade internacional enfrentam”.

Informações adicionais sobre o primeiro dia do Fórum de Lisboa incluem:

  • Gilmar aponta que haverá uso e abuso de IA nas eleições
  • Leia a íntegra do discurso de Gilmar na abertura do Fórum
  • Moraes menciona “abuso criminoso de pseudo liberdade de expressão”
  • Moraes defende regulação internacional das big techs
  • Motta critica o distanciamento político no país
  • Alexandre Silveira defende data centers como questão de soberania
  • Temer comenta sobre a dificuldade de superar a polarização nas eleições
  • Representantes dos EUA e Itália falam sobre a ascensão de autocracias
  • Barroso critica a hipocrisia em relação a fake news
  • Decisões dos EUA sobre PCC e CV são consideradas atentados, afirma Lewandowski
  • Kassab discute emendas parlamentares e sua eficácia
  • Kassab comenta sobre a necessidade de que candidatos se expliquem
  • Gilmar e Moraes abordam a regulação da IA e das redes sociais
  • Barroso critica a ideia de resolver problemas globais apenas através do judiciário
  • Lewandowski observa que o mercado precisa se adaptar após casos como o do PCC-CV

O segundo dia do Fórum trará temática diferenciada sobre a comissão técnica da CBF e a natureza da IA.

  • É recente a afirmação da CBF sobre regulamentação e seu impacto
  • Friedman reafirma que a IA não deve ser vista apenas como tecnologia, mas como uma nova realidade

Fonte:: poder360.com.br

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