Jensen Huang, CEO da Nvidia, anunciou recentemente que as Forças Armadas da China não dependem dos chips da empresa, localizada na Califórnia. Contudo, um estudo baseado em seis anos de registros da China revela que o Exército de Libertação Popular começou a procurar ativamente chips de inteligência artificial da Nvidia em 2019.
Uma análise feita pela Wirescreen, uma plataforma especializada em oferecer informações sobre empresas chinesas, constatou que, apesar das restrições impostas pelo governo dos EUA sobre a venda de semicondutores a países considerados adversários, incluindo a China, o exército chinês intensificou seus esforços para adquirir essa tecnologia.
Os registros indicam situações em que fornecedores se comprometeram a entregar chips sob as condições estipuladas pelas forças armadas, embora não haja documentação que comprove a entrega final. De acordo com John Costello, analista da Wirescreen que elaborou o relatório, os dados demonstram de forma “direta e irrefutável” que a tecnologia norte-americana é utilizada para fortalecer as capacidades militares da China.
“Qual é o número de chips avançados da Nvidia que o Exército de Libertação Popular considera aceitável?”, questionou Costello em sua análise.
O relatório baseia-se em um conjunto de dados mais extenso que procedimentos anteriores e ilustra como a China se adaptou e tentado contornar as limitações tecnológicas impostas pelos EUA ao longo dos últimos anos.
A Wirescreen investigou 3.800 registros de compras ligadas a chips e sistemas computacionais avançados, encontrando mais de 500 situações em que diferentes unidades das forças armadas chinesas buscavam chips da Nvidia, referindo-se tanto ao nome da empresa quanto às especificações técnicas dos produtos.
Esses chips foram requisitados por quase todos os ramos da força militar chinesa, incluindo unidades envolvidas em simulações nucleares, ciberataques e o planejamento de exercícios militares.
O relatório foi apresentado ao governo Trump e ao Congresso, que estão discutindo as futuras vendas da Nvidia para a China. Em dezembro, o presidente Donald Trump, que se tornou um apoiador próximo de Huang, autorizou a venda do segundo chip mais avançado da Nvidia à China, ao mesmo tempo em que exigiu uma parte da receita para o governo. No entanto, legisladores republicanos manifestaram preocupações de que esses chips pudessem ajudar a modernizar as forças armadas chinesas, motivando a apresentação de um projeto de lei para restringir a capacidade da Casa Branca de controlar as exportações desses produtos.
Huang tem trabalhado contra as restrições às vendas de chips e tem pressionado os legisladores a permitirem que a Nvidia mantenha suas vendas na China. Ele advertiu que barrar a empresa naquele mercado, que é o maior do mundo em semicondutores, apenas entregaria esse espaço para concorrentes locais da China capazes de produzir soluções similares. Além disso, ele minimizou as preocupações sobre o uso militar dos chips como um exagero.
Sistemas de inteligência artificial avançados normalmente operam em redes que utilizam mais de 100.000 chips, apontou John Rizzo, porta-voz da Nvidia. A análise da Wirescreen indicou que a quantidade de chips requisitados pelas forças armadas chinesas é consideravelmente menor que esse número, sugerindo que a China pode estar dependendo, ao menos em parte, de fabricantes internos como a Huawei em sua busca por autonomia tecnológica.
Documentos de aquisições também indicaram que os militares chineses estavam especificamente interessados em chips da Huawei, à medida que a tecnologia do país avançava, segundo Rizzo. Ele descreveu a ideia de que as forças armadas da China estariam dependendo de um número limitado de chips da Nvidia como “absurda” e “falsa”.
“A China possui chips de fabricação interna mais do que suficientes para suas necessidades militares, com milhões sobrando”, afirmou Rizzo. “Assim como seria incoerente para as forças armadas dos EUA utilizarem tecnologia chinesa, não faz sentido para os militares chineses se apoiarem em tecnologia americana.”
No entanto, documentos referentes a licitações públicas, abrangendo o período de 2019 a 2025, revelaram que as forças armadas da China continuaram a buscar chips da Nvidia para aplicações computacionais mais sofisticadas. Esses documentos incluem chips A100, A800, H100 e H800 da Nvidia, tanto antes quanto depois de serem submetidos ao controle governamental dos Estados Unidos.
O deputado John Moolenaar, do Michigan, que preside o Comitê Seleto da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês, afirmou que o relatório demonstrou como a China está tentando “contrabandear e roubar tecnologia americana para fins militares”. Moolenaar, que recentemente propôs uma legislação para restringir o acesso da China à tecnologia americana, destacou que essa situação justifica a necessidade de controles de exportação com o objetivo de proteger a vantagem dos EUA na corrida pela inteligência artificial e assegurar que não se esteja armando a China.
Especialistas da área e autoridades governamentais têm discutido se as restrições tecnológicas dos EUA realmente têm sustentado o progresso da tecnologia na China ou, ao contrário, se estão impulsionando o governo chinês a acelerar o desenvolvimento de alternativas locais.
As autoridades do governo Trump revogaram as limitações globais às vendas de chips da Nvidia que haviam sido implementadas no final da administração Biden, alegando que essas restrições estavam prejudicando as empresas de tecnologia dos EUA. Contudo, essa decisão possibilitou que subsidiárias de empresas chinesas localizadas fora da China pudessem adquirir legalmente chips mais avançados da Nvidia, conforme declarou Chris McGuire, ex-funcionário do Departamento de Estado.
A China também continuou a impulsionar seu desenvolvimento tecnológico local. Recentemente, a Huawei anunciou um avanço significativo na produção de seus próprios chips, prometendo que isso permitirá a fabricação de chips avançados nos próximos cinco anos. A expectativa é de que a empresa produza milhões de chips neste ano, conforme apontado pela SemiAnalysis, uma empresa de análise do setor de semicondutores.
A China já possui regulamentações que incentivam suas forças armadas a utilizar produtos tecnologicamente desenvolvidos internamente. Os registros de aquisição demonstram que os militares chineses têm concedido contratos a empresas locais que aplicam inteligência artificial desenvolvida pela Huawei, sendo essa uma característica fundamental em sua argumentação, segundo uma análise da Jamestown Foundation, um grupo de estudos focado em políticas públicas relacionadas à China.
Um porta-voz da Embaixada da China reiterou que o país sempre se posicionou a favor da cooperação com os Estados Unidos, manifestando oposição à utilização de questões tecnológicas e econômicas para fins políticos.
O senador Jim Banks, da Indiana, que apoia a A.I. OVERWATCH Act, descreveu o acesso das forças armadas chinesas a chips americanos como uma “crise de segurança nacional”. “A China está utilizando todas as suas capacidades para usar a IA como uma arma contra as forças armadas dos EUA”, enfatizou Banks. “Permitir que eles tenham acesso aos melhores chips de IA dos Estados Unidos só servirá para acelerar seus esforços.”
Fonte:: estadao.com.br




