NOVA DÉLHI — O ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, deixou o cargo neste sábado, 25, após enfrentar semanas de intensas manifestações que exigiam sua saída. O descontentamento popular foi motivado por supostos vazamentos em exames de admissão ao ensino superior altamente concorridos no país, além de recorrentes irregularidades no sistema educacional indiano.
A saída de Pradhan foi comunicada por meio de uma postagem na rede social X e representa uma vitória significativa para a chamada “Revolta das Baratas”. O movimento esteve à frente de greves de fome, ocupações e protestos massivos em diversas regiões do território indiano. Trata-se também da primeira grande concessão política feita pela administração do primeiro-ministro Narendra Modi diante de uma onda de insatisfação pública de proporções históricas nos últimos anos.
As mobilizações começaram há mais de um mês, motivadas por denúncias de fraudes e vazamentos em avaliações cruciais para o futuro acadêmico de milhões de jovens. O que inicialmente parecia ser apenas um chamado focado em reformas educacionais rapidamente se transformou em um protesto mais amplo, abordando questões críticas como o desemprego estrutural, a falta de oportunidades econômicas e a cobrança por maior transparência e responsabilidade governamental. Estudantes, profissionais recém-formados, famílias inteiras e ativistas uniram forças em atos públicos realizados em Nova Délhi e em outras grandes metrópoles do país.
Comemorações nas ruas
Assim que a notícia da renúncia de Dharmendra Pradhan se espalhou, milhares de manifestantes que ocupavam acampamentos em Nova Délhi há mais de 30 dias irromperam em celebrações. Cenas de abraços coletivos e bandeiras da Índia sendo agitadas tomaram conta dos locais de protesto.
Para Prachi Kumar, profissional da iniciativa privada que decidiu apoiar e integrar os atos, a queda do ministro era um passo indispensável para restabelecer a lisura e a ética na administração pública voltada à educação.
“Isso precisava ser feito. Alguém precisa ser responsabilizado”, declarou ela durante as comemorações.

O Partido do Povo Barata (CJP, na sigla em inglês), agrupamento que catalisou a organização dos atos, celebrou o desfecho publicamente na rede social X com uma mensagem enfática: “A DEMOCRACIA VENCE!”
Pressão e confronto com autoridades
As manifestações representaram um dos cenários mais complexos e desafiadores para a gestão de Narendra Modi recentemente. Mesmo com o emprego de força policial — que utilizou gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar os civis —, multidões continuaram retornando às ruas de forma sistemática.
O cenário de tensão atingiu um pico drástico quando forças de segurança agiram para conter milhares de manifestantes que tentavam marchar em direção ao Parlamento. O confronto resultou em diversos estudantes feridos, o que acabou gerando ainda mais revolta e adesão popular ao movimento.
Antes de ceder à pressão com a demissão de Pradhan, o governo tentou implementar medidas paliativas. Entre as iniciativas, estavam a criação de tribunais de tramitação rápida voltados especificamente para julgar fraudes em exames e a promessa de envio de novos projetos de lei para endurecer punições contra a corrupção nos processos seletivos.
Contudo, tais ações foram consideradas insuficientes pelos manifestantes, que argumentavam que faltava um reconhecimento direto de culpa por parte dos líderes políticos. Embora a renúncia do titular da Educação atenda à exigência primordial do grupo, os organizadores informaram que a campanha pública não será encerrada. Entre as pautas remanescentes, estão pedidos de indenização financeira para as famílias de estudantes que tiraram a própria vida após escândalos de vazamento de provas, além de investigações e punições contra policiais acusados de excessos durante a repressão aos atos.
“Lembrem-se: não mexam com a barata”, alertou Abhijeet Dipke, um dos principais líderes da mobilização, por meio de um comunicado oficial.
Origens do movimento satírico
A nomenclatura e a própria coesão do grupo vêm do Partido do Povo Barata (CJP), fundado em maio. A criação ocorreu após uma declaração do presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, que, durante uma audiência sobre um tema totalmente distinto, comparou jovens desempregados a “baratas”.
Apesar do nome, o CJP não opera como um partido político institucionalizado, mas sim como um movimento de caráter satírico que rapidamente viralizou, acumulando milhões de seguidores nas redes sociais. A iniciativa foi concebida por Abhijeet Dipke, estrategista de comunicação política e estudante da Universidade de Boston. Em entrevista concedida à rede britânica BBC em maio, Dipke admitiu que a articulação começou originalmente como uma brincadeira.
Com o tempo, no entanto, a estrutura ganhou força real ao expor fraudes estruturais em vestibulares do país. Em maio, por exemplo, o exame unificado de admissão para cursos de Medicina — disputado por mais de 2 milhões de candidatos — teve de ser cancelado em decorrência de graves irregularidades. Relatórios da imprensa local apontam que o cancelamento gerou um impacto emocional tão severo que alguns candidatos acabaram cometendo suicídio.
Fonte:: estadao.com.br




