O renomado escritor manauara Milton Hatoum destacou recentemente o papel central da memória na construção de obras literárias. A reflexão foi compartilhada durante sua participação na 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), realizada no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador. Para o autor, o passado ganha relevância quando conectado aos dilemas contemporâneos, influenciando diretamente a vivência humana atual.
Desde o lançamento de seu livro de estreia, Relato de um Certo Oriente, Hatoum investiga a memória como um elemento recorrente em sua trajetória artística. A abordagem seguiu presente em sua obra mais recente, Dança de Enganos, publicada no final do ano passado, que marca o encerramento da trilogia O Lugar Mais Sombrio.
O desfecho da trilogia e a voz materna
Diferente dos dois primeiros volumes da série — A Noite da Espera e Pontos de Fuga —, o romance final é construído a partir das anotações e recordações de Lina, mãe do protagonista Martim. Na trama, a personagem assume o protagonismo narrativo para expor os traumas, as dores e os impactos causados em núcleos familiares dilacerados pelo regime militar brasileiro.
Segundo o escritor, embora a ditadura e o autoritarismo sirvam de pano de fundo para contextualizar a juventude dos personagens em um ambiente de opressão e censura, o eixo central da trilogia reside nas complexas dinâmicas familiares. No último volume, a perspectiva de Lina revela revelações surpreendentes sobre sua própria trajetória, marcada por enganos e falsidades que ela passa a compreender justamente através do resgate consciente de suas memórias.
Imaginação e o peso da história
Novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e pioneiro da região amazônica na instituição, Milton Hatoum comentou sobre sua trajetória de mais de três décadas dedicada à leitura e à docência. Durante o evento literário, que atraiu um grande público ao auditório do museu, o romancista revelou que a criação da trilogia funcionou como uma resposta pessoal ao período sombrio da história nacional.
O autor relatou ter tido acesso a diários e relatos reais de amigos que enfrentaram a prisão e a tortura durante a ditadura militar. No entanto, optou por utilizar uma parcela mínima desse material documental. Para ele, a essência da ficção reside na força criativa da imaginação, transformando vivências dolorosas em narrativa artística.
Diante do ressurgimento de discursos autoritários na política recente do país, o escritor utilizou o processo de reescrita dos volumes finais para firmar seu posicionamento cívico. Para Hatoum, o resgate do passado histórico e o cultivo da empatia configuram ferramentas essenciais para combater o egoísmo e fortalecer os laços coletivos na sociedade atual.
Educação e memórias afetivas
Em diálogo com os leitores presentes no evento em Salvador, Hatoum enfatizou a urgência de reconstruir e valorizar o sistema de ensino público no Brasil, apontando o início de seu desmonte no período ditatorial. O autor celebrou a oportunidade de debater o tema na Flipelô, ocasião em que relembrou com afeto a professora Maria Luiza Freitas Pinto, responsável por sua alfabetização em Manaus.
O escritor relembrou que a educadora guardou sua primeira redação escolar por acreditar em seu potencial literário, acompanhando seus lançamentos de livros até falecer aos 104 anos de idade. A décima edição da Flipelô, que reuniu diversos nomes da cultura nacional, contou com ampla programação voltada ao incentivo da leitura e ao debate sobre o tempo e a palavra.
Fonte:: diariopr.com.br




