O avanço rumo ao desarmamento do Hamas e à implementação de um plano de paz para a Faixa de Gaza pode começar dentro de um mês, afirmou nesta segunda-feira, 17, o enviado americano, Jared Kushner, após se reunir com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu.
A movimentação diplomática ocorre em um cenário onde o governo dos Estados Unidos busca atender às exigências de Israel, após Netanyahu rejeitar a etapa final de um plano americano destinado a encerrar a guerra em Gaza. O conflito deixou o enclave devastado pelas forças israelenses em resposta ao ataque de 7 de outubro de 2023, realizado por combatentes do Hamas. O futuro da região envolve diretamente a sobrevivência de cerca de 2 milhões de palestinos, a reconstrução das áreas destruídas e o controle político do território.
Por sua vez, o Hamas declarou ter concordado com o plano de paz, que prevê o desarmamento, e apelou aos mediadores e ao Conselho da Paz, criado pelos EUA, para que exerçam pressão e “obriguem” Israel a aderir aos termos acordados. O desenho original estabelece a retirada gradual das tropas israelenses de Gaza. Contudo, o governo de Israel mantém a posição de que o grupo extremista precisa se desarmar por completo antes de qualquer movimentação de retirada militar.
“Poderíamos ver avanços em apenas 30 dias, com sorte começando a retirar algumas das armas”, destacou Kushner, que também atua como genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em entrevista concedida ao canal Fox News a partir de Tel Aviv.
O representante americano acrescentou que o fechamento e preenchimento dos túneis subterrâneos de Gaza — estruturas construídas pelo Hamas para resistir aos bombardeios de Israel e para o transporte de suprimentos contrabandeados — poderão ser concluídos nos próximos 60 a 90 dias.
As negociações recentes envolveram passagens estratégicas. Kushner, que mantém laços de amizade com Netanyahu, reuniu-se com o líder israelense em Jerusalém apenas um dia depois de conduzir conversas diretas no Egito com representantes do Hamas, ocasião em que o grupo assumiu publicamente o compromisso com o plano.
Segundo uma alta autoridade israelense que conversou com a agência AFP, as partes “concordaram que não haverá nenhum reposicionamento ou reconstrução na Faixa de Gaza antes que o Hamas tenha se desarmado em todo o território”. O funcionário acrescentou que “o primeiro passo rumo à desmilitarização da Faixa será exigir que o Hamas entregue suas armas para serem destruídas sob supervisão de um general americano”.
O rascunho de acordo endossado pelo Hamas no final de julho determinava que a destruição do arsenal do grupo ocorresse sob a supervisão da Força Internacional de Estabilização (ISF), criada para assegurar a ordem durante o período de transição. A missão internacional está sob o comando do general de divisão americano Jasper Jeffers.
“Se o Hamas recorrer ao terrorismo, à violência ou tentar se rearmar, Israel manterá seu direito de agir em conformidade”, pontuou a fonte oficial israelense.
Durante as tratativas no Egito, Kushner contou com o apoio de outros membros do Conselho da Paz para Gaza, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Na ocasião, o enviado de Washington exigiu que o Hamas apresentasse provas concretas de renúncia às armas e de abdicação de qualquer papel na futura administração do território palestino.
Em resposta, um dirigente de alto escalão do Hamas confirmou que a liderança do grupo, representada por Khalil al Hayya, reiterou a Kushner a adesão formal à proposta de paz.
Tensões políticas e retórica acirrada
O cenário político interno em Israel adiciona complexidade ao processo. Netanyahu, que enfrentará eleições acirradas em outubro conforme apontam as pesquisas de opinião, tem adotado uma postura de maior enfrentamento em relação a Donald Trump, cujo respaldo foi amplamente utilizado em campanhas anteriores.
O premiê israelense também manifestou insatisfação com a decisão do governo republicano de suspender as operações conjuntas contra o Irã, iniciadas no fim de fevereiro, optando por buscar caminhos diplomáticos e acordos com os líderes religiosos de Teerã.
Em paralelo, declarações de ministros do alto escalão israelense geraram forte repercussão internacional. Itamar Ben Gvir, titular da pasta de Segurança Nacional, sugeriu em um podcast que as forças de seu país deveriam intensificar as operações letais diárias no enclave.
“Acho que deveriam ser realizados assassinatos seletivos em Gaza todas as noites. Eliminando 30 ou 40”, afirmou Ben Gvir durante a entrevista com um ex-refém do Hamas. “Não apenas aqueles que representam uma ameaça atualmente. São pessoas que não deveriam estar vivas”, completou.
Em uma vertente distinta, o presidente de Israel, Isaac Herzog, cuja função institucional é predominantemente protocolar, manifestou apoio público e elogiou os “esforços do Conselho da Paz para garantir um futuro mais promissor e seguro” para israelenses, palestinos e toda a região.
Apesar dos esforços diplomáticos, as violações persistem. Hamas e Israel trocam acusações recorrentes sobre o descumprimento do cessar-fogo estabelecido em outubro de 2025 com a intermediação de Washington.
Balanços divulgados pelo Ministério da Saúde de Gaza — órgão vinculado ao Hamas e considerado confiável pela Organização das Nações Unidas (ONU) — apontam que ao menos 1.262 palestinos perderam a vida em decorrência de ações militares israelenses desde o início da trégua. Do lado israelense, o Exército contabilizou cinco mortes no mesmo intervalo.
Fonte:: estadao.com.br




