Presidente da Sérvia renuncia para disputar cargo de primeiro-ministro em pleito antecipado

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Redação

BELGRADO – O presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, renunciou ao cargo neste domingo, 27, com o objetivo de concorrer a primeiro-ministro nas próximas eleições parlamentares antecipadas. A medida coloca à prova a força de seu governo no país balcânico após quase dois anos de turbulência e protestos populares. O segundo mandato presidencial de Vucic se encerraria em maio do próximo ano, mas a Constituição sérvia impede que ele dispute a reeleição para um terceiro período no comando do Executivo nacional. Diante disso, o líder político optou por deixar o posto atual para liderar a campanha de seu partido, o Partido Progressista Sérvio, de orientação direitista, no pleito marcado para 25 de outubro.

A cúpula governista enfrenta uma pressão considerável nas urnas, impulsionada por um forte movimento liderado por jovens e estudantes. As manifestações ganharam força após o trágico desabamento da cobertura da estação ferroviária em Novi Sad, cidade localizada no norte do país, em 1.º de novembro de 2024. O acidente resultou na morte de 16 pessoas, gerando revolta e cobranças públicas por responsabilização. O que começou como uma busca por justiça diante da tragédia rapidamente evoluiu para um amplo movimento anticorrupção, cujo objetivo central é desafiar a hegemonia política de Vucic após 14 anos de permanência no poder.

Ao longo da última década, Vucic alternou entre as funções de primeiro-ministro e presidente, mantendo o controle centralizado da máquina pública. “Estou renunciando ao cargo de presidente da República”, declarou ele durante a leitura formal de sua renúncia à nação. A decisão estratégica de buscar o cargo de primeiro-ministro é interpretada por analistas políticos como uma manobra dupla: assegurar a continuidade de sua influência na liderança do país e fortalecer as chances eleitorais de sua legenda diante do avanço da oposição estudantil.

Cenário de polarização e acusações de uso da máquina pública

As semanas que antecedem o pleito de outubro vêm sendo marcadas por forte tensão política na Sérvia. Em plena campanha informal, Vucic intensificou sua presença pública com uma maratona de viagens pelo interior do país, amplamente transmitida por canais de mídia alinhados ao governo. Durante essas visitas, o político inaugurou novas vias rodoviárias, anunciou medidas de suporte financeiro, barateamento de medicamentos e realizou encontros diretos com eleitores. Em um dos episódios recentes, ele chegou a ser filmado ao volante do automóvel de seu irmão enquanto se deslocava para compromissos oficiais de campanha.

Embora a Constituição sérvia estabeleça que o cargo de primeiro-ministro detenha maior poder formal do que o de presidente, Vucic exerceu uma liderança de perfil dominante durante seus mandatos presidenciais de cinco anos. Ele frequentemente presidia reuniões do Conselho de Ministros e assumia a responsabilidade direta por anúncios de decisões estratégicas de governo. O Escritório Independente de Pesquisa Social (Birodi) protocolou uma representação formal acusando Vucic de desviar a finalidade de uma instituição pública para promover interesses partidários, alegação negada pelo ex-presidente. Órgãos de controle anticorrupção, apontados como alinhados à administração federal, não emitiram respostas sobre o caso.

Transição institucional e o peso da oposição nas urnas

Com a saída formal de Vucic da presidência, a chefia interina do Estado passa para as mãos de uma de suas aliadas mais próximas: Ana Brnabic, ex-primeira-ministra e presidente cessante do Parlamento sérvio, que conta com 250 cadeiras. Após a realização das eleições legislativas em 25 de outubro e a consequente formação de um novo parlamento, caberá ao novo presidente do Legislativo empossar o substituto de Brnabic, indicar o nome do novo primeiro-ministro e fixar o calendário para a futura eleição presidencial.

A gestão de Vucic e de seu partido tem sido alvo frequente de críticas por parte de opositores, que apontam episódios de corrupção estrutural, conexões com redes de crime organizado e restrições sistemáticas às liberdades democráticas e à imprensa independente. Desde sua chegada ao poder em 2012, o Partido Progressista Sérvio (SNS) ampliou sua influência sobre as estruturas estatais, embora negue veementemente qualquer abuso de autoridade e reitere o compromisso com o combate à corrupção.

Do outro lado da disputa, a chapa apoiada pelo movimento estudantil reúne perfis diversos, incluindo professores universitários, docentes da rede básica, especialistas técnicos, atletas e representantes da sociedade civil. O grupo tem percorrido diferentes regiões do país em caravanas de bicicleta para promover o fortalecimento do Estado de Direito e o combate à impunidade. Levantamentos recentes indicam um cenário de empate técnico nas pesquisas de intenção de voto entre a base governista e os estudantes, configurando um ambiente eleitoral de forte polarização, comparável a um referendo.

A disputa também conta com a participação de aliados tradicionais do governo, como o Partido Socialista, além de frentes de oposição pró-União Europeia e legendas menores. Enquanto isso, o clima de tensão social tem sido acompanhado por episódios de repressão policial a manifestantes e detenções. Vucic, por sua vez, tem feito declarações públicas acusando opositores e veículos críticos de atuarem sob influência estrangeira com o propósito de “destruir o Estado”. Em pronunciamento à emissora estatal RTS, ele afirmou que potências externas e agentes não identificados estariam articulando distúrbios para a noite da votação.

Paralelamente aos desdobramentos eleitorais, o processo de integração da Sérvia à União Europeia permanece paralisado. Analistas apontam que o retrocesso nas garantias democráticas e a relutância de Belgrado em alinhar-se às sanções internacionais impostas à Rússia em decorrência do conflito na Ucrânia têm sido os principais entraves para o avanço das negociações diplomáticas.

Fonte:: estadao.com.br

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